Sob a bandeira negra, as pontas das lanças se ergueram.
Doze cavaleiros e pouco mais de trinta soldados de infantaria. Pela largura do desfiladeiro, três era o limite de cavalos que podiam investir de uma vez. As duas paredes eram íngremes e, no chão, estavam espalhadas carroças quebradas e correntes de um combate anterior.
Kang Mujin não olhou para trás.
Ao tatear o movimento do metal, soube o quanto as pessoas já haviam se afastado. O eixo das rodas da carroça se distanciava devagar para dentro da trilha da floresta, e as fivelas e os botões de quem carregava os feridos nas costas seguiam atrás.
Ainda não era suficiente.
— Rakan.
— Estou ouvindo.
— Encoste na parede da esquerda. Basta darmos conta do primeiro cavaleiro.
Rakan se moveu sem perguntar. Mesmo arrastando a perna ferida, o ângulo em que segurava o escudo não se desfez.
Silvana examinou a parte alta do desfiladeiro.
— Tenho onze flechas.
— Não atire nos cavalos. Mire no ombro do cavaleiro da frente.
— Posso perguntar o motivo?
— Se o cavalo cair, o caminho se abre. Se o cavaleiro cair, o cavalo se assusta.
Silvana assentiu de leve e puxou a corda. O vento desceu roçando a parede do desfiladeiro e agitou as penas da flecha.
Doria bateu com o martelo no eixo que havia arrancado de uma carroça.
— O miolo está podre. Aguenta um bloqueio e acabou.
— Uma vez basta.
— Você conhece o gosto do ferro.
Doria fincou o eixo na diagonal entre duas carroças quebradas. Por tê-lo deixado baixo, ficava numa altura difícil de notar aos olhos de um cavalo em disparada.
A cavalaria inimiga acelerou.
A cada vez que as ferraduras batiam no chão, as pontas dos dedos de Kang Mujin formigavam. Um dos cravos do casco traseiro direito do cavalo da frente estava frouxo, o freio do segundo cavalo era mole por ter alto teor de cobre, e no peitoral do terceiro cavaleiro um rebite abaixo da axila esquerda estava mal cravado.
Ele baixou a espada.
A distância, trinta passos.
Vinte.
Quinze.
— Agora.
A corda vibrou e a flecha cravou no ombro direito do cavaleiro da frente. Ele tombou para trás e soltou as rédeas. O cavalo assustado torceu a cabeça e o cavalo logo atrás, ao tentar desviar, pisou no eixo.
O eixo que Doria havia fincado entortou.
O ferro aguentou uma vez.
Os dois cavalos se chocaram e a dianteira no desfiladeiro se embaraçou. Kang Mujin entrou por aquela brecha, derrubou o primeiro cavaleiro com um golpe do dorso da espada no queixo e, girando o corpo, agarrou o freio do segundo.
O cobre mole se dobrou conforme o sentido dele.
Quando o freio dobrou para um lado, o cavalo ergueu a cabeça com violência e, no instante em que o cavaleiro perdeu o equilíbrio, Rakan avançou e empurrou o flanco dele com a quina do escudo. O cavaleiro bateu na parede e rolou ao chão.
— O terceiro!
Junto com o grito de Rakan, uma lança voou.
Kang Mujin ergueu a espada e desviou a ponta da lança. Enquanto o pulso ainda vibrava pesado, o soldado demônio tentou recolher a lança de cima do cavalo.
Antes disso, Kang Mujin agarrou o rebite do peitoral.
Três cravos de ferro levemente salientes se soltaram ao mesmo tempo, a placa esquerda do peitoral se abriu e a fresta mordeu o braço do cavaleiro. A segunda flecha de Silvana raspou entre o elmo e o ombro, o cavaleiro abaixou o corpo e, nesse instante, o martelo de Doria barrou a frente do cavalo.
— Desça daí!
O martelo estraçalhou o arção da sela e o cavaleiro caiu no chão.
A infantaria que vinha atrás parou diante do cavalo caído e dos destroços das carroças. O demônio que carregava a bandeira negra gritou para que reorganizassem a formação, mas o cavalo ainda vivo se debatia e o caminho estreito estava completamente bloqueado.
Kang Mujin recuou sem guardar a espada.
— Vamos.
Quando Rakan tentou apanhar a espada do cavaleiro caído, Kang Mujin balançou a cabeça.
— É pesada e mal equilibrada.
— Melhor que mão vazia.
— Sua lâmina está na carroça.
As orelhas de Rakan se dobraram para trás e voltaram a se erguer.
— Você sabia disso?
— Ferro não vai a lugar nenhum.
Enquanto Doria soltava uma risada seca, Silvana disparou mais uma flecha, a última. A flecha acertou o mastro, a bandeira negra tombou, e os quatro se voltaram para a trilha da floresta.
O som da infantaria demônio removendo os destroços veio atrás deles. Ao entrar na boca da floresta, Kang Mujin abriu a mão, e os pedaços de corrente espalhados pelo fundo do desfiladeiro estremeceram todos ao mesmo tempo.
A quantidade que conseguia mover de uma só vez não era grande. Além disso, o ferro enferrujado estava cheio de fissuras mínimas por dentro, e se puxasse com força, romperia.
Kang Mujin encaixou os pedaços seguindo a fibra do metal.
As correntes rastejaram pelo chão como cobras, enrolaram-se nas rodas e nos eixos quebrados e se emaranharam entre os cavalos caídos. Os demônios que tentavam abrir caminho tarde demais começaram a berrar.
As veias saltaram no dorso da mão de Kang Mujin.
Sentir o metal e movê-lo eram coisas diferentes. Quanto maior o peso, mais se espalhava uma dor como a de blocos de ferro pendurados por dentro das articulações, mas ele cerrou os dentes e fechou os dedos.
A corrente se apertou uma última vez e os destroços na entrada do desfiladeiro viraram um bloco só.
— Aguenta muito tempo?
Silvana perguntou.
— Uma hora.
Kang Mujin recuperou o fôlego e continuou.
— Com sorte, duas.
— É suficiente.
Silvana seguiu à frente, os galhos se inclinaram baixo conforme o gesto de sua mão e os rastros deixados pelos feridos ficaram escondidos sob as folhas.
Naquela noite, o grupo chegou a uma aldeia abandonada a nordeste.
Só três construções mereciam o nome de casa. Metade dos telhados havia desabado e o poço estava entupido de folhas secas, mas os muros de pedra barravam o vento e nos fundos corria um riacho raso.
Rosen distribuiu os recém-chegados entre as casas vazias e o celeiro. Silvana lavou os ferimentos e depois buscou ervas medicinais na floresta, e Rakan, com a perna ferida enfaixada, começou montando a escala de vigia.
Doria desmontou o forno da casa em ruínas.
— As pedras servem. A chaminé é um desastre.
Kang Mujin desceu a corrente da carroça. Não havia carvão para acender o fogo nem um fole decente, então escolheu o elo mais fino e o pôs sobre a pedra.
Aisha se agachou ao lado dele.
No pescoço da criança pendia a placa de ferro com o novo nome gravado, e na mão ainda segurava a coleira amassada.
— Vai continuar com isso?
— Você disse que ia trocar.
Kang Mujin olhou a mão da criança. Havia marcas vermelhas na palma que apertava o aro de ferro.
— Já decidiu por que vai trocar?
Aisha apontou para um canto da aldeia. Na horta só cresciam ervas daninhas, e uma enxada de cabo podre estava encostada no muro.
— Aquilo.
— Uma enxada?
— É com ela que se faz comida.
Kang Mujin ficou um momento olhando para o aro.
— Está bem.
Doria pôs a cabeça para fora de dentro do forno desmoronado.
— Vai fazer uma enxada com esse ferro? Hrm, metade vai ter que ser descartada.
— Metade sobra.
— E o carvão?
— Queimo amanhã.
— E o fole?
— Uso o couro da carroça.
Doria alisou a barba. Tinha cara de quem procurava algo para contestar, mas acabou voltando para dentro do forno.
— Começo pela chaminé. O fogo morre se não puder respirar.
Aisha olhou de um para o outro.
— Eu também faço alguma coisa?
— Carregue o carvão.
— E depois?
— Depois precisa aprender o fogo.
— E depois?
Kang Mujin pôs o aro ao lado do forno.
— Se o ferro esperar.
Só então Aisha assentiu.
Nos três dias em que ficaram na aldeia abandonada, a corrente virou pregos, grampos e lâminas de enxada. Enquanto Kang Mujin e Doria retiravam as impurezas, os libertos consertaram os telhados e o poço, Rakan ensinou a empunhar a lança e Silvana ensinou marcas de trilha que qualquer um conseguisse ler. As pessoas que antes se escondiam começaram, sem perceber, a falar de casas e campos para passar o inverno.
Mas a conclusão de Rosen, que abria o mapa toda noite, era sempre a mesma. Mesmo com água, uma aldeia sem campo de visão e sem rota de retirada não se defenderia por muito tempo. A floresta dos elfos não aceitaria todas as raças, e o feudo a oeste exigiria, em troca de proteção, outra forma de servidão.
O último ponto em que ele pôs o dedo foi a Planície do Dorso Negro, a menos de três dias da fenda. Havia uma torre de sinais abandonada, um rio e colinas onde erguer muralhas, mas, se o inimigo avançasse para o continente, teria de passar obrigatoriamente pela estrada ao sul dali.
— Loucura. — Doria olhou para o mapa. — É bem na garganta dos demônios.
— Por isso está vazia. — disse Rosen. — Como lugar para viver, é o mais perigoso. Como lugar para barrar, é a primeira terra necessária.
Kang Mujin percorreu a aldeia com os olhos. Aisha revolvia a terra com a enxada feita da coleira derretida, e os homens-fera que aprendiam a lança catavam as pedras ao lado dela. Os que se escondiam não erguiam a cabeça, mas os que tinham começado a trabalhar eram outros.
— Vou até lá.
— Está procurando um lugar para assentamento?
— Um lugar para se esconder nós já achamos.
O dedo de Kang Mujin parou na Planície do Dorso Negro.
— Procuro um lugar para defender.
Rosen foi o primeiro a dobrar o mapa. Rakan insistiu que iria mesmo mancando, e Doria apontou para a carroça dizendo que a briga ficasse com quem estava inteiro. Silvana pegou o arco, dizendo que, se fincassem base na Planície do Dorso Negro, a floresta dos elfos também receberia os avisos mais cedo.
— Vai pedir permissão ao Conselho dos Anciãos? — Diante da pergunta de Kang Mujin, Silvana ficou um instante em silêncio.
— Não. Vou avisá-los do que pretendemos fazer.
Ela devolveu o mapa.
— Eu vou junto.
Três dias depois, o grupo deixou a aldeia abandonada.
Quem não conseguia andar foi levado antes para um acampamento provisório na floresta ao norte. Era um lugar escolhido por Silvana, e ali deixaram comida e ervas suficientes para aguentar até a chegada de uma equipe de resgate élfica. Entre os libertos, treze adultos e quatro crianças que escolheram se assentar ficaram encarregados dos feridos e dos mantimentos daquele acampamento, para se juntarem ao grupo assim que o terreno estivesse preparado. Apenas seis pessoas, Kang Mujin, Rakan, Doria, Silvana, Rosen e Aisha, puxaram uma carroça e foram reconhecer primeiro a Planície do Dorso Negro.
O caminho ficava mais desolado a cada trecho.
As pedras de alicerce de casas de fazenda queimadas restavam entre o mato, e os marcos à beira da estrada tinham as letras apagadas a golpes de lâmina. Uma porta com dobradiças de ferro estava enfiada numa poça bem longe da casa.
Mesmo na terra abandonada pelas pessoas, o ferro permanecia.
A cada passo, Kang Mujin sentia na terra pregos, foices quebradas, pontas de flecha e pedaços de armadura sem dono. O ferro perto da superfície estava, em sua maioria, profundamente enferrujado, largado ali em batalhas de muito tempo atrás.
A Planície do Dorso Negro apareceu quando o sol já se prendia às colinas a oeste.
Um rio vindo do norte contornava a borda da planície, no centro havia uma torre de sinais em ruínas e, para o sul, uma encosta baixa se estendia longamente. Além dela, o céu tinha a cor de cinzas.
Não eram nuvens.
A energia que vazava da fenda do mundo demoníaco tingia de leve o céu distante.
A ponta do nariz de Rakan se mexeu.
— Tem cheiro.
— Demônios?
— Sangue velho e pedra queimada. O cheiro dos vivos ainda está longe.
Silvana subiu a colina mais alta e vigiou o sudeste, Doria bateu uma a uma nas pedras da torre de sinais, e Rosen começou a medir a passos a distância entre o rio e a encosta.
Kang Mujin parou no meio da planície, fechou os olhos e pôs a mão no chão.
Primeiro tocou os cacos de ferro espalhados na terra. Era uma sensação rasa e áspera, com pontas de flecha quebradas, ferraduras e lâminas enferrujadas espalhadas como pontos.
Ele desceu os sentidos abaixo daquilo.
A bênção não se estendia reta como a visão, e sim se espalhava a partir das pontas dos dedos como uma onda que se alarga. Quanto mais atravessava terra e rocha, mais a percepção se embaçava, então Kang Mujin foi deixando passar um a um os cacos avulsos de ferro em busca de uma fibra constante mais funda.
Sob a margem oeste do rio havia uma camada fina de areia com ferro misturado. Fácil de extrair, mas pouca.
As colinas ao norte eram diferentes.
De dentro da rocha voltou uma vibração pesada. A magnetita tinha pureza irregular e vinha com enxofre, e usada assim o ferro se quebraria em vermelho, mas o veio era largo. Selecionando e queimando várias vezes, daria para usar.
Mais fundo, misturava-se ainda, de forma tênue, a fibra de outro metal.
Quando Kang Mujin tirou a mão, havia terra na ponta dos dedos, e a parte interna do pulso formigava de tanto tatear um veio distante.
Doria se aproximou.
— Tem?
— Tem ferro.
— Quanto?
— Dá para martelar até envelhecermos e ainda sobra.
Doria ergueu uma sobrancelha.
— Eu sou anão. Vivo mais que humano.
— Então continue martelando depois que eu morrer.
— Hrm.
Doria olhou para as colinas ao norte e levantou o canto da boca sob a barba.
— Uma terra com um certo gosto de ferro.
Rosen encontrou, ao lado da torre de sinais, o buraco de um velho mastro.
— A muralha pode ser erguida ao longo da encosta sul. A estrada leste dá para estreitar e pôr um portão, e no rio a oeste podemos lançar uma ponte mais tarde. O problema é a primeira construção. Precisamos decidir se erguemos primeiro as moradias ou o armazém.
— A fornalha primeiro.
Kang Mujin disse.
Rosen não contestou de imediato. Olhou alternadamente para a planície e para as pessoas, e então apresentou duas propostas.
— Há como erguer ao mesmo tempo uma fornalha pequena e um alojamento comum. Ou podemos concentrar toda a mão de obra na muralha e fazer apenas as ferragens necessárias num forno a céu aberto.
— Erguemos uma fornalha de verdade.
— Posso perguntar por quê?
— Uma casa erguida sem um único prego não dura. Sem pá não se cava vala, sem machado não se levanta paliçada.
Kang Mujin apontou para as colinas ao norte.
— Se tirarmos aquele ferro, poderemos fazer a coisa seguinte.
Rosen assentiu devagar.
— Então a ferraria vem primeiro.
— Para que as pessoas fiquem, é preciso ter fogo.
Aisha desceu da traseira da carroça. A coleira que não largara por dias havia sumido, e a enxada feita com ela derretida estava carregada na carroça.
A criança correu os olhos por toda a planície.
— A gente vai morar aqui?
— É a intenção.
— E se vierem atrás?
Kang Mujin olhou para o céu acinzentado ao sul.
A fenda não era visível, e o ferro de lá também não se deixava sentir. Algumas pontas de flecha e uma lâmina enferrujada enterradas sob a encosta sul eram o limite do alcance de seus sentidos.
— A gente barra.
— E se vierem muitos?
— Barra com mais firmeza.
Aisha pensou um instante e apanhou do chão uma pedra do tamanho de um punho.
— Então usa isto.
Kang Mujin recebeu a pedra. Era dura, com rocha vulcânica misturada, mas pequena demais para servir de pedra de alicerce.
— Onde devo colocá-la?
A criança apontou para a frente da torre de sinais em ruínas.
— No começo.
Kang Mujin foi até lá.
Enquanto Doria removia a terra ao redor, Rakan cavou o chão com uma espada velha e Silvana afastou as raízes para o lado com a arte dos espíritos. Rosen examinou o curso da água e o solo, e deslocou o ponto meio passo para o norte.
Abriu-se uma cova rasa.
Kang Mujin pôs no fundo a pedrinha que Aisha lhe entregara e sobre ela assentou uma pedra larga arrancada da torre de sinais. Não cortou a quina trincada, apenas aplainou a face que receberia o peso.
Não fazia falta ornamento.
Bastava que não balançasse.
Doria estendeu o martelo e Kang Mujin bateu, um a um, nos quatro cantos da pedra. Um eco surdo se espalhou terra adentro.
Uma vez.
Duas.
Três.
Mesmo depois do último golpe, a pedra não se moveu.
— Vamos erguer a fornalha aqui.
Kang Mujin disse.
O vento deitou a grama seca da planície. Os rostos voltados para ele estavam exaustos. Havia quem tivesse feridas ainda abertas e quem não tivesse terra natal para onde voltar.
Kang Mujin não escolheu palavras longas.
Também ao bater no ferro era preciso golpear só o necessário. Martelar muito não fazia sair peça melhor.
— Não vou impedir quem quiser partir.
Ninguém se moveu.
— Quem ficar tem de trabalhar. Não vou perguntar a raça nem o que cada um foi antes. Come-se na medida do que se trabalha, e diante do perigo protegemos uns aos outros.
Rakan cravou no chão a espada de ponta quebrada.
— Eu fico. E ainda não paguei minha dívida.
— Este não é um lugar erguido por causa de dívidas.
— Eu sei.
Rakan passou a mão uma vez sobre a marca a ferro no pulso.
— Mesmo assim, eu fico.
Doria apoiou o martelo no ombro.
— Vai se erguer uma fornalha e o ferreiro fica de fora? Mas diante do fogo faço do meu jeito.
— Na minha fornalha, faz-se do meu jeito.
— Então vamos ter que erguer duas.
Silvana firmou o arco no chão.
— O Conselho dos Anciãos vai desconfiar desta decisão. Pode enxergar aqui mais uma fortaleza erguida por humanos.
Kang Mujin olhou para ela.
— Não é uma fortaleza humana.
O olhar de Silvana passou por Rakan, Doria e Aisha, um a um.
— Essas palavras eu mesma vou verificar. Por muito tempo.
Rosen tirou de dentro do casaco velho uma pequena placa de brasão. Era o símbolo de um feudo arruinado, mas ele não a colocou sob a pedra de alicerce. Falou segurando-a na mão.
— A administração precisa de livros de registro e a logística precisa de armazéns. Também serão necessários leis, fronteiras e alguém com quem negociar. Mesmo começando com uma única ferraria, o fim será maior que isso.
— Eu sei.
— Ainda assim, vai em frente?
Kang Mujin pousou a mão sobre a pedra de alicerce.
Sob a pedra fria, a fibra pesada do veio subterrâneo se prolongava. O ferro do norte ainda dormia dentro da rocha, e só viraria metal aproveitável depois de extraído, britado, limpo das impurezas e martelado incontáveis vezes.
Um lugar onde as pessoas ficam não era diferente.
Nenhum país nasceu sólido desde o início. Ele ainda não havia dito que fundaria um país, e muito menos pensava em ser rei.
Apenas pretendia que aqui ninguém tivesse de novo um aro preso ao pescoço.
Isso bastava como primeira martelada.
— Erguemos.
Kang Mujin disse.
— Vamos barrá-los aqui.
Depois daquelas palavras, o tempo da planície parou por uma batida.
O martelo desceu da mão de Doria, e até o som da corda do arco de Silvana tremendo ao vento ficou nítido. Rakan, olhando a encosta sul, cravou mais fundo a espada quebrada, e Rosen tornou a abrir o mapa que ia dobrando e o prendeu junto à pedra de alicerce. Ninguém comemorou. Em compensação, ninguém olhou para o lado da partida.
Para Kang Mujin, que sempre procurava antes de tudo o caminho seguinte, desta vez não restava caminho para recuar. O que ele escolheu pela primeira vez não foi uma rota de fuga, e sim uma linha que o inimigo não pudesse cruzar.
Aisha sentou ao lado da pedra de alicerce e tirou a placa com seu nome. Passando o dedo sobre a pequena gravação que lembrava um martelo e uma bigorna, a criança perguntou.
— Aqui também tem nome?
Rosen olhou ao redor da planície.
— Por enquanto chamam de Planície do Dorso Negro. Mas o lugar que vamos construir vai precisar de outro nome.
Doria bufou pelo nariz.
— Dá tempo de pôr nome depois de levantar uma parede.
— Verdade. A substância vem primeiro.
Kang Mujin não respondeu.
Quando o sol se pôs, a sombra da pedra de alicerce se estendeu longa. As pessoas desceram as tendas da carroça e trouxeram água do rio, e Rakan levou o primeiro turno de guarda para a encosta sul. Silvana amarrou nós de aviso nas árvores sobre as colinas, Doria já resmungava sozinho sobre o tamanho da fornalha, e Rosen anotou na primeira página do livro de registros o número de pessoas e os mantimentos restantes.
Aisha apanhou um preguinho caído ao lado da pedra de alicerce.
Era um prego enferrujado.
A criança pôs o prego sobre a pedra e bateu nele com cuidado usando um seixo.
Tlim.
Saiu um som leve.
Kang Mujin ouviu aquele som e olhou para o sul.
Além da encosta tomada pela escuridão ficava o que seus sentidos não alcançavam. Nem a fenda a três dias de distância nem as tropas que circulavam por ali podiam ainda ser vistas ou sentidas. Para Grimoire Vargas, o movimento nesta planície não passaria de um pequeno tumulto surgido na fronteira.
Kang Mujin sacudiu a terra que restava na palma.
Que metal uma faísca insignificante é capaz de derreter, eles ainda não sabiam.
Por qual encosta viria a rota alternativa que Grimoire Vargas prometera calcular, não havia como saber. Só uma coisa era certa: esse caminho teria de passar pelo sul desta planície.
Participe da discussão