Deus Marcial

Capítulo 15 — Batalha Sangrenta

— Ho ho ho. Pensei que fosse algum ratinho enfiado por aqui, mas era um convidado e tanto.

Da escuridão no alto da escada surgiu um velho vestido de seda e, ao contrário do rosto de aparência bastante bondosa, nos olhos semicerrados havia impregnada uma frieza que não tratava gente como gente.

Aos olhos de Pung via-se a energia amarelo-escura enrolada no corpo do velho. Densa e pegajosa, como se a origem de todo o veneno espalhado pela aldeia tivesse se juntado num só ponto, parecia apodrecer as entranhas antes mesmo de tocar a pele.

Hyeonheo deu um passo à frente.

— É o brasão da Família Dokgo. Dokgo Muheun, você, que antes da destruição do clã era anciã do salão externo de um ramo colateral, o que faz num lugar destes?

Dokgo Muheun não escondeu o velho brasão bordado na manga.

— Então aquele teimoso do Hyeonheo continua vivo. E com a mania de tagarelar sobre o justo e o demoníaco intacta.

— Entrava e saía da Aliança Marcial em nome da seita ortodoxa enquanto entregava pessoas ao Culto Demoníaco?

— Onde há força e proveito, há caminho. Tanto a velha seita ortodoxa quanto a fronteira entre o justo e o demoníaco logo serão varridas. Eu apenas tomei meu lugar antes, no mundo que está por vir.

Eram palavras grandes demais para a boca de alguém escondido numa mansão da fronteira, chamando pessoas de matéria-prima, e soavam como se houvesse alguém ainda maior por trás de Dokgo Muheun. Mas agora, com os soldados jorrando das passagens e da escada, não havia tempo para sondar esses bastidores.

Por baixo, eram algumas dezenas. As energias refletidas nos olhos de Pung eram todas ásperas e duras, e dentro do corpo de Dokgo Muheun espreitava um fluxo muito mais profundo e sinistro.

— Boca viva é difícil de calar; se viram alguma coisa, que sejam enterrados aqui junto com ela.

Dokgo Muheun ergueu a mão.

— Não deixem nenhum sair vivo.

O som das armas sendo desembainhadas arranhou a caverna subterrânea. Hyeonheo arregaçou as mangas, mantendo Pung e Ayeong às suas costas, e quando uma presença pesada brotou daquele corpo magro, os pés dos soldados que se aproximavam ficaram mais lentos sem que eles percebessem.

— Danpung. Cuide de Ayeong e dos que estão presos.

— E o senhor?

— Eu fico com aquela velha víbora.

Em vez de responder, Pung apertou com força a mão de Ayeong uma vez e a soltou, e as pessoas dentro das jaulas não podiam fugir nem desviar das lâminas. Alguém respirava a custo, encostado nas grades de ferro, e uma criança encolhida no canto olhava para fora com olhos turvos.

De costas para eles, Pung ergueu os dois punhos.

Os soldados avançaram todos de uma vez.

Hyeonheo bateu o pé no chão meio tempo antes disso. Quando o corpo velho cortou o ar e disparou para a escada, três guerreiros que barravam o caminho foram varridos pela palma e arremessados contra a parede de pedra, e ele atravessou a brecha aberta e investiu direto contra Dokgo Muheun.

— Seu adversário sou eu!

Os soldados restantes despencaram sobre Pung, Ayeong e as jaulas atrás deles. Na caverna estreita era difícil que muitos brandissem as lâminas ao mesmo tempo, mas havia tropas entupindo cada passagem, e no lugar de quem caía logo se enfiava outro.

Pung reuniu energia nos dois olhos. Os meridianos que corriam por espadas e lanças emergiram como dezenas de correntes de água, e viu com nitidez a ponta da lâmina que primeiro mirava seu pescoço e o ferro da lança que se enfiava em seu flanco.

Torcendo o corpo para escoar o primeiro golpe, Pung ergueu o dorso da mão contra o cotovelo do guerreiro e, enquanto a lâmina subia, tocou o ponto vital sob a axila; o guerreiro desabou sem forças. A lança que veio em seguida ele desviou agarrando a haste, e chutou com o calcanhar o joelho do lanceiro arrastado junto.

Um sabre caiu pelo lado, e Pung avançou meio passo, enrolou e torceu o pulso do sujeito e empurrou seu corpo para bloquear o caminho dos dois que vinham atrás. Os caídos gemiam de dor, mas continuavam respirando, e para não lhes tirar a vida e ainda assim impedi-los de se levantar, as pontas dos dedos exigiam, na verdade, uma força bem mais precisa.

Ayeong também sacou a espada curta. Enquanto Pung afastava o ferro de uma lança, ela se abaixou e cortou a canela de um guerreiro, e, girando, acertou o queixo de outro com o punho da espada. Quando um soldado cambaleante estendeu a mão para as costas de Pung, Ayeong pisou naquele pulso e gritou.

— De trás cuido eu, então trate de segurar a frente!

Sem tempo nem de responder, Pung mergulhou entre as lâminas que se acumulavam; se escoava uma, duas vinham sobrepostas; se derrubava três, quatro surgiam das passagens. Conforme o fluxo dos meridianos enchia seu campo de visão por inteiro, as têmporas esquentavam e o fundo dos olhos doía como se furado por agulhas.

Ainda assim, com o pensamento de que não podia deixar nada escapar, tentou agarrar mais fluxos. A espada de frente, o sabre que se curvava pela esquerda, a lança que raspava o chão, a lâmina voltada para Ayeong e até os passos que tentavam se enfiar entre as jaulas: quando tentou ler tudo, as energias diferentes se enredaram e se espalharam num único bloco.

A visão tremeu por um instante.

Como se esperassem aquela brecha, dois guerreiros se enfiaram no ponto cego de Pung, uma lâmina mirando o ombro de Ayeong, a outra o flanco dela.

— Ayeong!

Pung se lançou e se espremeu entre os dois, golpeou com a palma da mão a lateral da primeira lâmina e, torcendo o antebraço, escoou por pouco a que vinha atrás. Com o ruído de metal, a palma formigou como se fosse rasgar, e a ponta desviada cortou de raspão a barra da roupa de Ayeong.

Ayeong engoliu o fôlego, o rosto pálido, mas logo inverteu o punho da espada e cravou-o no plexo do guerreiro, e cerrou os dentes enquanto empurrava com a espada curta outra lança que vinha por sobre o ombro de Pung.

— Eu também sei lutar. Não tente enxergar tudo sozinho.

Diante daquelas palavras, Pung recompôs a respiração desordenada, e os olhos que viam os meridianos não eram um poder divino que revelasse tudo. Quanto mais cobiçasse, mais podia deixar escapar justamente a única lâmina que não podia escapar.

Pung abandonou com ousadia os fluxos na borda do campo de visão, e até as lâminas voltadas contra si ele deixou passar, desde que não fossem fatais de imediato. Quando escolheu agarrar apenas as energias dirigidas a Ayeong e às pessoas dentro das jaulas, um caminho nítido voltou a emergir entre as correntes emaranhadas.

Empurrou para cima com o cotovelo o sabre que vinha pela esquerda e, agarrando o ombro do soldado que se enfiou por baixo, atirou-o contra o que estava ao lado. Não perseguiu a espada que passou cortando sua gola. Em vez disso, chutou e quebrou a haste da lança que tentavam enfiar entre as grades de ferro, e golpeou o tornozelo do guerreiro que corria para a jaula onde a criança estava presa, derrubando-o no chão.

Assim que decidiu o que proteger, o corpo voltou a ficar rápido.

Ayeong não perdeu a brecha estreita aberta por Pung. Pressionou o ponto vital do soldado caído para cortar seus movimentos e, contra o que saltou da passagem lateral, girou o pulso fingindo arremessar a adaga e roubou-lhe o olhar. No instante em que o sujeito se retraiu, o punho de Pung alcançou seu peito, e com um som surdo o guerreiro foi jogado para trás.

No alto da escada, a troca de golpes entre Hyeonheo e Dokgo Muheun fazia as paredes de pedra ressoarem. A cada vez que a palma de Hyeonheo se derramava, as quinas da escada se despedaçavam e as vestes de seda de Dokgo Muheun tremulavam com violência, mas uma névoa venenosa amarelo-escura subia como serpente e barrava o caminho do velho.

Hyeonheo prendeu a respiração, contornou a névoa venenosa por fora e desferiu a palma; Dokgo Muheun torceu o corpo, escoando por pouco o impacto, e sacudiu as duas mangas, e finas agulhas envenenadas cintilaram sob as tochas.

Uma delas roçou a manga de Hyeonheo.

O tecido tingiu-se de um vermelho-escuro e a energia de Hyeonheo vacilou por um momento. Ele bloqueou de imediato, com os dedos, o ponto vital perto do ombro e ergueu a energia interna para expulsar o veneno, mas naquela brecha curta Dokgo Muheun recuou para o alto da escada desmoronada.

Pung conteve a vontade de correr até lá, pois se deixasse seu posto a muralha diante das jaulas desapareceria. Não lhe restava senão confiar em Hyeonheo e repelir a lança à sua frente.

A tranquilidade sumiu do rosto de Dokgo Muheun e, quando a palma seguinte de Hyeonheo roçou seu ombro, ele cambaleou e se agarrou ao parapeito, varrendo com olhos injetados de sangue o fundo da caverna. Esse olhar parou nas jaulas e nos potes enfileirados.

— Antes que deixar provas, é melhor enterrar tudo de uma vez!

Dokgo Muheun berrou e baixou a mão com força.

— Quebrem os potes! Não deixem nada aqui dentro com vida!

O coração de Pung despencou.

Em cada pote, que chegava à cintura de um homem, fervia uma energia venenosa amarelo-escura, e os sulcos do chão levavam para dentro das jaulas, e bastaria que um só se quebrasse para que os que há muito padeciam com o veneno não resistissem. Se todos se quebrassem, nem Ayeong e Hyeonheo, nem ninguém naquele subterrâneo, sairia ileso.

Alguns soldados que ouviram a ordem saíram da formação e correram na direção dos potes. Quando Pung tentou persegui-los, lâminas e lanças barraram seu caminho de uma só vez, e às suas costas ouvia-se a respiração áspera dos prisioneiros agarrados às grades de ferro.

Bastaria dar um passo para que aquelas lâminas passassem pelas costas de Pung e se derramassem sobre as jaulas.

O guerreiro que chegou diante do pote mais próximo ergueu o sabre com as duas mãos.

De costas para os prisioneiros, Pung não podia se mover.

Fim do capítulo 15

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