O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 9 — A Criança Sem Nome

No desfiladeiro do Riacho Negro, ao contrário do que dizia o nome, quase não se ouvia água.

Passada a estação das chuvas, o riacho mostrava o leito, e entre os seixos negros corria apenas uma água com dois nós de dedo de profundidade. O lado leste do desfiladeiro era um paredão como que talhado a prumo, e na encosta oeste emaranhavam-se espinheiros e pinheiros baixos. O caminho por onde as carroças passavam era uma única faixa entre os dois.

Kang Mujin encostou a palma da mão no meio do paredão.

Para além da pedra fria, sentia metal. O ferro granulado misturado à areia, a pirita encravada nas fendas da rocha, até uma ponta de flecha quebrada havia muito e enterrada na terra: tudo se prendia de leve às pontas dos seus dedos, cada coisa com seu próprio tamanho e sua própria profundidade.

Entre tudo isso, as doze cunhas de ferro que ele cravara junto com Doria destacavam-se nítidas.

Kang Mujin verificou o estado de cada uma. As pontas mordiam com exatidão o veio da rocha, mas, se as cravasse fundo demais, o paredão inteiro desabaria, e, se ficassem rasas, não deteriam nem a carroça da frente. O necessário não era uma avalanche que soterrasse pessoas, e sim um desmoronamento suficiente para cortar o caminho.

— A terceira soltou meia polegada.

Atrás de uma rocha mais abaixo, Doria bufou.

— Ehem. Você sente isso daqui?

— A martelada foi tosca.

— E quem foi que não me deixou pregar o olho desde ontem à noite?

Doria resmungou, mas bateu de novo na terceira cunha. Um golpe curto e pesado ressoou na pedra e empurrou a ponta de ferro para dentro da rocha, e a trepidação mínima que se prendia aos dedos de Kang Mujin desapareceu.

— Está bom.

— Tem bom paladar para ferro.

Doria pôs o martelo no ombro, e a barba estava esbranquiçada de pó de pedra.

Do alto do desfiladeiro veio o canto de um pássaro, três vezes.

Era o sinal combinado por Silvana.

O inimigo estava à vista.

Kang Mujin desceu a encosta. Rakan estava agachado no leito seco à beira do caminho, apertando com força a faca curta que lhe haviam consertado, mas a perna ferida ainda não se estendia por completo.

— Os dois de trás são meus.

Disse Rakan.

— Fique com um só.

— Por quê?

— Porque é preciso guardar perna para a volta.

As orelhas de Rakan se dobraram para trás, mas a boca, pronta a retrucar, fechou-se assim mesmo.

Um pouco adiante, Rosen aguardava. A espada trincada ficara um palmo mais curta. Kang Mujin extraíra a fenda e reforçara a alma com ferro de baixo teor de carbono trazido da mina. Como o conserto fora às pressas, baixara a dureza do fio em troca de garantir que a lâmina não quebrasse sob impacto.

Rosen desembainhou a espada e conferiu o fio uma última vez.

— Vou separar primeiro as carroças dos prisioneiros.

— Não saia antes do sinal.

— Entendido.

A resposta saiu firme, e não havia nela a hesitação que restara até a véspera.

O som de cascos entrou no desfiladeiro.

Primeiro surgiram quatro cavaleiros de armadura negra. Atrás vinham doze lanceiros e oito carroças cercadas de grades de ferro, e entre uma carroça e outra caminhavam prisioneiros presos por correntes. No fim da coluna vinham de novo lanceiros e cavaleiros.

Era mais que o dobro da escolta habitual.

Kang Mujin abaixou a respiração e leu o movimento dos metais.

Trinta e seis lâminas. Vinte e três lanças. Seis bestas. Doze agulhas de arremesso escondidas sob as armaduras. Os eixos das rodas estavam reforçados com aço ao modo do mundo demoníaco. Tinha muitas impurezas, mas o tratamento térmico era uniforme, diferente das armas usadas pelos soldados rasos da mina.

No meio da coluna havia outra presença.

Um demônio enorme montava um cavalo negro. Usava um elmo com ornamentos prateados entre os chifres, e no peito trazia gravado o símbolo de um olho vermelho com a pupila fendida na vertical. Era a marca de Grimoire Vargas, de que Rosen falara.

O cavaleiro demônio ergueu a mão e a coluna parou.

Cedo demais. Faltavam vinte passos para a carroça da frente alcançar as cunhas.

— Revistar a encosta à esquerda.

A voz do cavaleiro ecoou pelo desfiladeiro.

Seis soldados ergueram os escudos e se dispersaram. Dois foram para o leito seco, quatro para a encosta onde Kang Mujin se escondia. Não haviam avistado a emboscada. Era uma decisão que parava a coluna inteira apenas por suspeita.

Coisa digna de quem comanda uma tropa de elite.

Kang Mujin mediu de novo a posição das cunhas e a distância dos inimigos. Derrubar o paredão agora isolaria só a vanguarda. Esperar aumentava muito a chance de os batedores acharem Rakan primeiro.

O som de seixos secos pisados foi se aproximando.

Rakan abaixou o corpo, mas a ponta da faca não tremeu.

Um galho de pinheiro na encosta inclinou-se de leve. Silvana estava tensionando a corda do arco.

Kang Mujin fechou o punho.

As doze cunhas dentro do paredão estremeceram ao mesmo tempo.

Torcer à força o veio do ferro era diferente de martelar. Sem apoio nem bigorna, Kang Mujin prendia a força no miolo mole de cada cunha e empurrava a superfície dura como se fosse uma alavanca. Ao lidar com as doze de uma vez, as têmporas latejaram, e era como se agulhas em brasa se enfiassem entre os ossos dos seus dedos.

Ainda assim, a direção tinha de ser exata.

Não sobre as pessoas, mas sobre o caminho.

Kang Mujin abriu a mão e as cunhas de ferro giraram meia polegada cada.

Da rocha veio um estalo grave.

No instante em que o cavaleiro ergueu a cabeça, a base do paredão despencou sobre o caminho. Pedras do tamanho de uma cabeça bateram entre os cavaleiros da frente e as carroças, os cavalos empinaram e os lanceiros ergueram os escudos. A poeira engoliu o desfiladeiro.

A flecha de Silvana voou.

A primeira atravessou o vão entre o ombro e o pescoço de um cavaleiro da retaguarda. A segunda cravou-se no dorso da mão de um besteiro e impediu o disparo. A terceira cortou o chicote de quem conduzia uma carroça.

— Emboscada!

Rakan saltou do leito seco. Mesmo arrastando a perna ferida, o primeiro passo foi rápido. A lança de um batedor avançou contra ele, e Rakan girou meio corpo, prendeu a haste sob a axila e puxou. O soldado tombou para a frente, e a faca curta entrou pelo vão entre o elmo e o peitoral.

Ele não avançou sobre o segundo soldado.

Fiel ao que Kang Mujin dissera, tomou o escudo do caído, firmou o joelho e aguentou.

As bestas soaram.

Três virotes negros despencaram sobre Rakan.

Kang Mujin estendeu a mão para o ar. O ferro das pontas puxou seus dedos, mas faltavam força e distância para deter de frente a trajetória. Ele empurrou as três pontas para o lado.

Um se cravou no escudo. Os outros dois rasparam o ombro de Rakan e fincaram no cascalho.

Rakan mostrou os dentes.

— Isso aqui não conta como dívida!

— Como quiser.

Kang Mujin saltou para o caminho.

O martelo de Doria atingiu uma armadura antes dele. Com um som surdo, um lanceiro demônio voou de lado.

— Ehem! Essa armadura só tem de grossa!

— A junta direita é fina.

— Podia ter dito antes!

Doria abaixou o corpo e duas lanças rasparam o topo do seu elmo. O martelo subiu de baixo para cima e acertou o cotovelo de um soldado. A braçadeira amassou e a lança caiu.

Kang Mujin pisou na lança caída.

Sob a sola, sentiu o veio do aço. O tratamento térmico era bom, mas na junção entre a lâmina e a espiga havia um acúmulo de fósforo que formava uma linha fria e frágil.

Ele empurrou a força pela ponta do pé e a lâmina se soltou do cabo de madeira.

Kang Mujin não a apanhou com a mão. Virou a palma e a lâmina deslizou pelo chão, entrando entre os tornozelos dos soldados. Três perderam o equilíbrio.

— Agora!

Rosen saiu de trás da rocha. Passou por cima de um soldado caído e correu até as carroças, e a espada encurtada era até mais rápida no vão estreito entre elas. Bloqueou uma vez, girou o pulso para desviar a haste da lança e empurrou o inimigo com o ombro.

Silvana saltou sobre uma carroça.

A mão da elfa tocou as grades de ferro e um verde pálido se espalhou pelas pontas dos seus dedos. As trepadeiras da beira do caminho cresceram e envolveram as rodas. O cocheiro tentou baixar a espada, mas uma flecha atravessou o cabo da arma.

— Recuem para dentro da carroça.

Disse Silvana aos prisioneiros.

Kang Mujin sentiu a fechadura da primeira carroça. A estrutura interna, três linguetas e um disco giratório, era tão nítida quanto se estivesse na palma da sua mão. Arrancá-la à força, sem chave, entortaria também as grades e poderia ferir quem estava dentro.

Ele aproximou o indicador do polegar e o disco girou dentro da fechadura.

Clac.

A porta se abriu.

Mas os prisioneiros não se moveram. Olhavam as argolas de ferro no pescoço e as correntes no piso e apenas encolhiam o corpo. Eram olhos que não conseguiam acreditar na ordem de fugir.

Kang Mujin abriu a fechadura seguinte.

— Saiam. Nós seguramos o caminho.

Foi então que o cavaleiro de armadura negra esporeou o cavalo.

Em vez de fugir, investiu direto contra Kang Mujin, rasgando a poeira com a espada longa. Kang Mujin desviou para o lado e sacou a espada da cintura.

As duas lâminas se chocaram.

O peso era diferente.

O impacto subiu do pulso até o ombro. A lâmina do adversário era aço do mundo demoníaco, ferro cheio de impurezas dobrado muitas vezes para espalhar os pontos fracos. Era tosca, mas feita para durar muito tempo em campo de batalha.

O cavaleiro fez o cavalo girar.

— Alvo confirmado. Humano que deforma metal.

Não havia espanto no tom. Parecia conferir algo que já constava em um relatório.

— O general Grimoire ordenou sua captura com vida.

Kang Mujin firmou a espada em guarda baixa.

— Ele não veio em pessoa.

— O general se interessa menos pela evasão de um descartável do que por uma anomalia no sistema de produção. Você pode ser uma variável útil.

Chamava pessoas de descartáveis.

O olhar de Kang Mujin percorreu a armadura do cavaleiro. O peitoral era grosso, mas havia marca de conserto sob a axila esquerda. Uma placa de liga diferente fora sobreposta e fixada com três rebites, um remendo apressado. Se o impacto se concentrasse de um lado, os rebites sairiam primeiro.

Kang Mujin gastou menos palavras.

— Gente não é matéria-prima.

Ele deu um passo à frente.

A espada do cavaleiro veio de lado e Kang Mujin a recebeu com o dorso da lâmina, desviando-a. Faíscas saltaram diante dos olhos e, no mesmo instante, a sua mão esquerda se abriu.

Os três rebites do remendo saltaram para fora.

O peitoral se abriu.

Kang Mujin colou a espada ao corpo e desferiu uma estocada curta. A ponta passou pela fenda aberta. O corpo do cavaleiro enrijeceu.

— A captura com vida… era uma proposta eficiente.

Mesmo caindo, ele não ergueu a voz.

Kang Mujin retirou a lâmina.

— Recuso.

Uma trompa soou na retaguarda e os dois cavaleiros restantes recompuseram a formação. Os lanceiros se juntaram não em torno das carroças, mas da rota de fuga. Era um movimento para preservar a tropa sobrevivente e a informação, em vez de retomar os prisioneiros.

Nesse instante, o símbolo no peito do cavaleiro caído brilhou em vermelho.

Kang Mujin ergueu a espada.

A placa de ferro presa à armadura retinha calor. Ele não conseguia sentir a energia mágica, mas percebia a temperatura subir dentro do metal, desenhando um círculo regular.

Sobre o símbolo do olho vermelho ergueu-se uma figura translúcida.

Chifres angulosos, cabelo negro penteado para trás, uma armadura tão impecável quanto uma farda. A figura era uma cabeça mais alta que Kang Mujin, e aqueles olhos eram secos, como se lessem um livro de contas cheio de números e não um campo de batalha.

— O sinal vital do comandante da 7.ª Unidade de Transporte foi perdido.

Os demônios do desfiladeiro dobraram o joelho ao mesmo tempo.

— General Vargas.

O olhar de Grimoire Vargas se moveu e parou em Kang Mujin. Ao menos foi o que Kang Mujin sentiu.

— Confere com o relatório. Espécime de manipulação de metal não autorizada. Humano, do sexo masculino.

Grimoire parecia examinar, um a um, as carroças abertas, o paredão desabado e os soldados caídos.

— A probabilidade de recuperar o comboio é baixa. Que as forças remanescentes recuem levando os registros.

De dentro de uma carroça veio um soluço, mas Grimoire nem virou o rosto naquela direção.

— Os recursos carregados serão descartados.

Os demônios restantes tiraram esferas negras da cintura. Sob as carroças, os barris de óleo traziam o mesmo dispositivo de metal. Kang Mujin leu a estrutura no ato. Dentro de uma fina membrana de ferro havia pós minerais que pegavam fogo ao se chocarem, separados por uma divisória.

Pretendiam queimar também os prisioneiros.

— Doria! Embaixo das carroças!

— Já vi!

Enquanto o martelo de Doria arremessava o primeiro barril para fora da carroça, Silvana moveu as trepadeiras e arrastou o segundo até o riacho, e Rosen se atirou para baixo da terceira carroça.

Um soldado demônio golpeou a esfera contra o chão.

Kang Mujin cerrou as duas mãos.

As membranas de ferro sob as oito carroças amassaram ao mesmo tempo, e as divisórias que separavam os pós grudaram umas nas outras. A cabeça zumbiu e algo quente escorreu do seu nariz, mas deixar escapar uma só significava uma carroça em chamas.

A oitava membrana resistiu.

A espessura era diferente.

Kang Mujin cerrou os dentes e torceu o pulso. Achou o veio mais mole da membrana e empurrou a força para dentro, e com um estalo curto o dispositivo caiu no chão.

O fogo não pegou.

Rakan derrubou com o escudo o soldado que segurava uma esfera. Rosen rastejou para fora de baixo da carroça e ergueu a espada. A flecha de Silvana bateu numa rocha da rota de fuga, e o vento dos espíritos enrolou a poeira para o alto.

Os demônios remanescentes não lutaram mais. Viraram-se para dentro da poeira e recuaram para o sul do desfiladeiro.

A figura de Grimoire permaneceu até o fim.

— Você reivindica a posse dos recursos?

Perguntou ele a Kang Mujin.

Kang Mujin limpou o sangue do nariz com as costas da mão.

— Eles não pertencem a ninguém.

— Noção ineficiente. Sua ação reduzirá temporariamente o volume transportado na fronteira. Calcularei uma rota alternativa.

— Se mandar de novo, corto de novo.

A figura de Grimoire parou por um instante, mas a expressão não mudou.

— Nesse caso, classifico você como obstáculo, e não como variável.

A luz vermelha se apagou.

No desfiladeiro restaram apenas os gemidos dos feridos e a respiração pesada dentro das carroças.

Kang Mujin embainhou a espada e se aproximou da carroça mais próxima. As pessoas com argolas de ferro no pescoço recuaram para longe da sua mão. Havia humanos, havia elfos com as orelhas pontudas cortadas e havia bestas-humanas com o pelo arrancado em falhas.

Bem no fundo, uma criança pequena estava encolhida.

Entre os cabelos castanho-acinzentados despontavam orelhas curtas e redondas, mas não dava para saber de que povo era. A criança não olhava para o rosto de Kang Mujin. Olhava alternadamente a cintura e as mãos dele, verificando antes de tudo se havia arma, se ele segurava algo com que bater.

Kang Mujin pousou a espada fora da carroça e mostrou as mãos vazias.

— Pode sair.

A criança não se moveu.

Kang Mujin não a apressou. Abriu as fechaduras e soltou as argolas dos pescoços, uma a uma. Cada vez que a lingueta cedia, ouvia-se um estalo metálico, e a cada som os prisioneiros estremeciam.

Por último chegou a vez da criança.

A argola era pequena demais, e a marca de onde ela entrara na pele conforme o corpo crescia estava vermelha e inchada. Kang Mujin examinou a espessura do metal e envolveu a argola com as duas mãos.

— Está frio.

Sussurrou a criança.

Era a primeira vez que se ouvia aquela voz.

— Já vai acabar.

Ele não elevou a temperatura da argola. Abri-la à força esfolaria a pele. Em vez disso, apenas amoleceu a pequena mola dentro do trinco. O ferro impregnado de suor estava enferrujado e duro. Kang Mujin soltou a ferrugem seguindo o veio e empurrou a lingueta devagar.

Clac.

A argola se abriu.

A criança cobriu o pescoço com as mãos e ergueu os olhos para Kang Mujin.

— Vai de novo?

— O quê?

— Vai colocar de novo?

Kang Mujin pôs a argola no chão e pisou nela. A argola amassou até ficar chata.

— Não vou colocar.

A criança olhou longamente o ferro amassado e depois desceu com cuidado da carroça. Os pés descalços tocaram o cascalho e o corpo cambaleou.

Kang Mujin estendeu a mão.

A criança não a segurou de imediato. Só depois de olhar demoradamente, alternando entre a palma e o rosto dele, pousou apenas dois dedos.

Era uma mão pequena e fria.

Silvana cuidou dos feridos de outra carroça. A mão que segurava o arco estava firme como sempre, mas, a cada elfo com a argola entranhada no pescoço, as pontas dos seus dedos tremiam de leve. Doria juntou as correntes num só lugar, sem dizer nada, e a cada martelada um elo se partia.

Rakan caminhou entre os prisioneiros e parou diante de uma besta-humana lobo marcada a ferro. Sem dizer nada, mostrou a própria nuca. A outra pessoa ergueu a cabeça, e Rakan lhe entregou o cantil.

Rosen contou os sobreviventes.

— Sessenta e três. Dezessete não conseguem andar, e nove precisam de tratamento urgente. Temos de partir antes que o inimigo volte.

— Há caminho?

— Há um atalho até a aldeia abandonada a nordeste e um caminho seguro que contorna a floresta. Pensando nos feridos, é melhor escolher o atalho, mas precisamos de uma retaguarda para conter a perseguição.

Kang Mujin assentiu.

— Eu fico.

— Eu também fico.

Disse Rakan na hora.

— Proteja os feridos.

— Também tenho de proteger o seu lado.

A perna ferida tremia, mas Rakan não recuou.

Kang Mujin apontou para a pilha de correntes partidas.

— Carregue aquilo nas carroças.

— Correntes? Para quê?

— Vou transformá-las em ferramentas de lavoura.

Rakan se calou, e Doria alisou a barba.

— Esse ferro não vale nada. Muita ferrugem e impureza à beça.

— Basta dobrar e retirar.

— Vai gastar muito carvão.

— Árvores para cortar não faltam.

O canto da boca de Doria subiu por baixo da barba.

— Ehem. Então não há motivo para jogar fora.

Os dedos da criança se soltaram da mão de Kang Mujin. Ela correu até a coleira amassada e a ergueu com as duas mãos, mas devia ser pesada demais para o seu corpo, porque os braços cederam para baixo.

— Isto também.

— Isso você pode jogar fora.

A criança balançou a cabeça.

— Era meu.

Ninguém respondeu de imediato.

Kang Mujin dobrou um joelho diante da criança.

— Qual é o seu nome?

A criança fechou a boca. Era o rosto de quem ouve uma pergunta estranha.

— Havia alguma palavra com que te chamavam, não havia?

Perguntou Silvana, um pouco afastada.

A criança coçou a marca no pescoço e disse, curto:

— Treze.

No fundo da carroça havia caído uma placa de ferro com um número gravado. Treze. Era a placa que pendia da coleira da criança.

Kang Mujin apanhou a placa e a apertou entre os dedos. Os sulcos do número, batidos com tosquidão, desmancharam-se e ficaram lisos. Ele tirou da cintura um pequeno cinzel.

— Vamos gravar um novo.

— O quê?

Kang Mujin olhou a criança por um instante. Viu o rosto sujo de pó de carvão, as mãos que não largavam a argola cortada, os olhos que, mesmo com medo, observavam tudo.

— O nome que você escolher.

A criança ficou um tempo sem responder.

Ao longe, ao sul do desfiladeiro, a trompa soou de novo. A tropa que recuara chamava a unidade seguinte, e não dava para ficar ali muito tempo.

Enquanto Rosen punha as pessoas de pé, Silvana abriu o caminho que levava à floresta e Doria conferiu os eixos das rodas das carroças. Rakan carregou um ferido nas costas.

A criança observou as pessoas em movimento e depois segurou a manga de Kang Mujin.

— Aisha.

— Quem te chamava assim?

— Não sei. Ouvi num sonho.

Misturava o tratamento formal e o informal, mas a voz estava mais clara que antes.

Kang Mujin encostou o cinzel na placa. Sem martelo, gravou traço por traço, pressionando com o pomo da espada.

Aisha.

A letra era desajeitada, mas mais funda que o número.

Kang Mujin acrescentou num canto da placa uma pequena marca que lembrava um martelo e uma bigorna. Era o sinal que ele deixava nas peças que forjava.

— Agora é seu.

Aisha recebeu a placa e a envolveu com as duas mãos.

— Não vão tirar de mim?

Kang Mujin olhou para o sul do desfiladeiro.

Para além da poeira, uma massa difusa de metal se aproximava. Lanças, armaduras e ferraduras em número muito maior que o das carroças. A tropa substituta que Grimoire calculara já estava em marcha.

Kang Mujin ergueu a espada.

— Não conseguem.

Ele mandou Aisha para junto de Rosen. Enquanto Doria firmava o martelo na mão, Silvana contava as flechas restantes, e Rakan, depois de acomodar os feridos na carroça, foi teimosamente postar-se à direita de Kang Mujin.

As pessoas libertadas começaram a entrar pela trilha da floresta.

Kang Mujin ficou no meio do caminho e pisou numa corrente partida.

O ferro não mentia. Não dava para saber onde aquela corrente fora feita nem por quantos pescoços passara, mas uma coisa era certa. Se continuasse ali, voltaria a amarrar alguém.

Então era preciso derretê-la.

Não só a corrente, mas também a ordem que a considerava natural.

Para além do desfiladeiro, um estandarte negro surgiu à vista.

Fim do capítulo 9

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