O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 11 — O que foi erguido sobre a pedra de alicerce

No dia seguinte ao assentamento da primeira pedra de alicerce, um dos lados do terreno da fornalha, socado durante toda a noite, cedeu o equivalente a duas falanges de dedo.

Antes do nascer do sol, Kang Mujin pegou as cinzas da fogueira apagada e as espalhou sobre o local. O pó de cinza foi lentamente sugado por uma fenda ao sul. A água que vazava da camada úmida identificada na véspera havia aberto caminho por baixo da nova fundação.

Doria esfregou um punhado de terra entre os dedos e disse:

— Abandonar o terreno custa meio dia. Domar o curso da água, duas horas.

— Vamos domar a água.

Em vez de escolher outro lugar para a fornalha, os dois cavaram um sulco de drenagem até a rocha rasa a nordeste. Kang Mujin apontava a direção das fendas e Doria destacava as pedras grandes seguindo a veia. Sobre o mesmo sulco assentaram também o conduto de ar que traria o calor desperdiçado. O plano traçado na véspera encontrava hoje, pela primeira vez, a resistência da terra.

Nesse meio-tempo, Rosen deslocou com estacas o armazém, as moradias e a linha da muralha. Entre a pedra de alicerce e a fornalha deixou uma via de trabalho livre, e recuou para dentro de dez passos o trecho macio ao sul.

— Não podemos continuar escrevendo ‘posto do Dorso Negro’ no alto do livro de registros.

Doria resmungou que ainda não havia sequer uma parede, mas Kang Mujin olhou para a pedra de alicerce.

— Baluarte de Aço.

— Reto demais.

— Um nome não precisa ser curvo.

Rosen escreveu o nome no livro de registros. Definido o nome, cada um passou a se mover em sua tarefa sem precisar de mais explicações.

Enquanto Rosen preparava a planta de disposição e a lista dos materiais necessários, Doria calculava as cargas da base da fornalha e da muralha que ergueriam mais tarde. Silvana procurava argila refratária no riacho a leste e, com a arte dos espíritos, prendia nós de vigília nas árvores ao redor.

Rakan só voltou do reconhecimento ao sul quando o sol já subia. Havia orvalho nas pontas das orelhas de lobo e lama preta nas botas. Ele não entrou direto no acampamento. Deu primeiro uma volta pela periferia e só então se aproximou do grupo.

— Tem marcas de cascos além das duas colinas ao sul. Quatro montarias. De uns três dias. Foram para o oeste e depois escaparam para o sul.

Enquanto ele desenhava o terreno na terra, Kang Mujin recolheu a limalha presa na bota de Rakan. O pó grosso e vermelho-escuro era um fragmento caído da ferradura de um cavalo de guerra de demônio. Era ferro em que o carbono não penetrara de modo uniforme, e a veia guardava o traço de várias peças estampadas às pressas.

— Não é uma patrulha vinda nos observar.

— Como você sabe?

— A ferradura está gasta de muito uso. É um cavalo de guerra que correu longa estrada. Apenas passou por aqui.

Rakan encarou o sul.

— Ainda assim podem voltar.

— Vão voltar.

Kang Mujin falou com serenidade.

— Antes disso, precisamos decidir onde recebê-los.

Rakan sacou a espada de ponta quebrada e marcou pontos de vigia: dois na encosta sul e um na torre de sinais em ruínas.

— Quando houver mais gente, dividimos a vigília. Por ora, ninguém sai da distância em que dá para se ver.

Rosen apresentou, um após o outro, um plano para aproveitar os restos da torre de sinais e outro para reforçar a linha sul. Nesse meio-tempo, Silvana olhou para as colinas a oeste e ergueu o arco.

— Eu cuido do oeste. Vou pedir aos espíritos que distingam passos estranhos.

— Os espíritos também farejam demônio?

Perguntou Rakan.

— Os espíritos não farejam.

— Então o que eles veem?

— Eles sabem quando a floresta se incomoda.

Rakan ficou com cara de quem não entendeu, mas não perguntou mais.

Por volta do meio-dia, carroças apareceram na estrada ao norte. Treze adultos e quatro crianças, que haviam desmontado o acampamento provisório, chegaram como combinado, e Rosen distribuiu abrigo e comida. O trabalho de seis pessoas, que até a manhã preparava o terreno, só então se ampliou para uma obra de todos os colonos.

Kang Mujin os observou. Doria via primeiro o peso que a pedra suportava. Rosen examinava os caminhos por onde as pessoas se moveriam. Rakan procurava a brecha por onde o inimigo se infiltraria. Silvana erguia uma fronteira invisível.

Uma boa lâmina também não se fazia com um só tipo de ferro.

Era preciso engrenar naturezas diferentes sem dobrar nenhuma delas à força.

Kang Mujin começou a cavar o terreno da fornalha.

Dois pés abaixo apareceu a rocha. Ele fincou um cinzel de ferro e desceu o martelo.

Tlim.

A vibração subiu pelo pulso. O lado esquerdo da rocha era firme, mas no direito havia uma fissura fina, e uma pancada de força espalharia a rachadura ao longe.

Kang Mujin inclinou o ângulo do martelo.

Não com força, e sim curto.

Tlim. Tlim. Tlim.

O pó de pedra se desprendeu em lascas finas.

Doria se aproximou com um martelo maior.

— Arranhando desse jeito, quando é que você termina?

— Se quebrar, será preciso compactar tudo de novo.

— Basta bater só até o ponto em que não quebra.

O martelo de Doria desceu.

Tum.

A pedra ao lado da fissura se soltou num pedaço exato do tamanho de um punho, sem ferir a veia de baixo. No instante do contato ele torcera o pulso e escoara o impacto para o lado.

— Faça de novo.

— Quer que eu ensine?

— Preciso ver para saber.

O canto da boca de Doria subiu.

— Hum. Olhe bem. Não mostro duas vezes.

Quem dissera que não mostraria duas vezes repetiu o mesmo movimento cinco vezes. Quando Kang Mujin o reproduziu igual na sexta, Doria parou de rir e apontou com o queixo uma pedra maior.

— Aquela é sua.

Perto do almoço, o contorno do piso da fornalha estava definido.

Aisha catava cascalho da argila e juntava pedaços de carvão. Ninguém lhe pedira aquilo, mas o olhar da criança seguia o tempo todo o martelo de Kang Mujin.

Kang Mujin tirou a braçadeira de eixo que arrancara da carroça da caravana de escravos. Era ferro mole, quase sem carbono, insuficiente para uma lâmina, mas servia para pregos.

Ele enfiou a ponta da peça no fogareiro provisório. A superfície logo se acendeu em laranja, mas o centro continuava vermelho-escuro. Kang Mujin esperou o calor se espalhar por igual até o interior do ferro e só a retirou depois que a veia afrouxou. Duas marteladas para alongar, uma volta para acertar o quadrado, e um prego pequeno estava feito.

Aisha se aproximou.

— Isso não enferruja?

— Enferruja.

— Então por que fazer?

— Porque há trabalho a fazer antes de enferrujar.

Kang Mujin devolveu o prego ao fogo. Aqueceu-o ao rubro apenas o bastante para que a criança pudesse manejá-lo e estendeu um martelo pequeno.

— Eu que faço?

— Sim.

— Mas é pesado.

— É só segurar com as duas mãos.

Ele cortou do cabo o equivalente a duas falanges de dedo.

O primeiro golpe de Aisha errou.

Clanc.

O martelo bateu na borda da bigorna e os ombros da criança se encolheram.

— Mais uma vez.

O segundo roçou ao lado do prego, e o impacto o entortou.

— Estragou.

— Ainda está quente.

Kang Mujin recolocou o prego no lugar.

— Enquanto está quente, dá para consertar.

Aisha ergueu o martelo de novo. Dessa vez não se apressou. Envolveu o cabo com as mãos pequenas e firmou o pulso.

Clanc.

A cabeça do prego achatou um pouco.

— Não tenha medo do ferro!

Gritou Doria.

— Quem segura o martelo é o dono!

Kang Mujin balançou a cabeça.

— Não ter medo é diferente de bater à toa.

— Já está dando sermão na criança?

— Não interfira.

— Você nem tem uma fornalha!

Aisha olhou de um para o outro. O canto da boca subiu bem de leve.

O terceiro golpe acertou o centro. A cabeça do prego ficou mais grossa de um lado e a ponta saiu levemente torta, mas ainda assim bastava para prender duas tábuas.

Kang Mujin resfriou o prego na água. Subiu um fiapo de vapor.

— É meu?

— É do Baluarte de Aço.

Aisha correu com o prego até a pedra de alicerce e o encostou na placa de nome que Rosen erguera. Kang Mujin entregou o martelo à criança.

Uma vez.

Duas.

Três.

O prego entrou torto, mas não saiu.

Ao cair da tarde, a placa com o nome ‘Baluarte de Aço’ pendia ao lado da pedra de alicerce. A muralha não passava de uma linha no livro de registros, a fornalha só tinha piso, e as moradias se resumiam a algumas tendas.

Enquanto Rosen anotava a data no topo do livro de registros, Rakan sacudiu as estacas antes de sair em reconhecimento, e Silvana amarrou um nó de alerta na ponta da placa.

Doria parou no meio do terreno da fornalha e disse:

— A partir de amanhã, levantamos a parede.

— Hoje também dá.

— A argila ainda não secou. Se empilhar com pressa, racha por dentro.

— É verdade.

Doria olhou Kang Mujin de esguelha.

— Você concordar assim tão fácil me irrita ainda mais.

Nesse momento, Rakan, que subira a encosta sul, ergueu a mão. Ao voltar, estendeu um pedaço escuro de metal, um fragmento de ferradura do tamanho de uma falange.

— Isso não estava aqui de manhã.

Kang Mujin pegou o fragmento.

Estava morno.

Não era o calor de quem ficou ao sol. Nas pontas dos dedos ele prendeu o calor de atrito retido dentro da veia do metal e a tensão mínima da superfície de corte recém-torcida e arrancada. Era um pedaço quebrado havia pouco.

Ele olhou para as colinas ao sul. Estendeu os sentidos, mas o limite do alcance eram algumas pontas de flecha velhas e uma lâmina enferrujada enterradas ao pé da encosta. Além disso, tudo estava bloqueado como uma escuridão vazia, e ele não conseguia sentir por qual caminho haviam sumido os que passaram por ali momentos antes.

Rakan apontou o fragmento de ferradura.

— As pegadas seguem para o sul. Do pé da encosta em diante tem muita rocha e elas se perdem.

Doria ergueu o martelo.

— Vamos atrás?

— Não.

Kang Mujin examinou a marca dupla de pregos na face interna da ferradura. Ao contrário da ferradura gasta que vira de manhã, neste fragmento a impressão dos pregos cravados havia pouco estava nítida. Para ser o rastro casual de um cavalo de guerra de passagem, tanto a hora quanto a distância até o acampamento eram próximas demais.

— Deixe que vejam.

— Ver o quê, se não tem nada aqui?

Kang Mujin olhou, um após o outro, a fornalha com apenas o piso assentado, a pedra de alicerce e o prego torto que Aisha cravara.

— Terão visto que algo começou.

Ele pousou o fragmento de ferradura ao lado do terreno da fornalha. Amanhã aquele pedaço de metal também entraria no fogo.

Kang Mujin baixou os olhos para a fornalha ainda sem fogo.

O primeiro fogo aceso ali não derreteria apenas ferro.

Fim do capítulo 11

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