Deus Marcial

Capítulo 14 — Infiltração

O interior da passagem era úmido e tinha um cheiro adocicado de sangue. Nas paredes, pequenas lamparinas pendiam a intervalos regulares, e no chão se acumulavam, camada sobre camada, marcas de corpos arrastados e sulcos de rodas de carroça. Não era um atalho de uso passageiro, mas um caminho batido ao longo de muitos anos para transportar pessoas e mercadorias em segredo.

Pung reuniu energia nos olhos para não perder os fluxos de energia dos homens que seguiam à frente. Além da parede de pedra, quatro correntes oscilavam, e duas delas se sobrepunham à pulsação tênue das pessoas carregadas nas costas. Ao ver aquela luz que se apagava, Pung mordeu os lábios.

‘Aguentem só mais um pouco, por favor.’

Quando a passagem dobrou à esquerda, vozes baixas chegaram da frente.

— Contando os que trouxemos hoje, o número bate?

— Faltam dois. A anciã mandou completar antes de o dia raiar.

— Aquele sujeito do Culto Demoníaco com o sabre vermelho já foi embora, então agora a labuta sobra só para nós.

A ponta dos pés de Pung enrijeceu por um instante. Mesmo na escuridão, ele sentiu o gesto de Hyeonheo se virando, e Ayeong também engoliu a respiração. Se havia um homem do Culto Demoníaco portando um sabre vermelho, era grande a chance de ser o sujeito do sabre vermelho-escuro que haviam encontrado na véspera. Ainda não dava para afirmar que fosse a mesma pessoa, mas o fato de que gente do Culto Demoníaco entrava e saía da mansão acabava de ser confirmado pela boca dos próprios sequestradores.

O que ia à frente estalou a língua.

— Cuidado com a boca. Seja lá o que aquele homem tenha conversado com a anciã, não é da nossa conta. Trate de cuidar direito da mercadoria que vai ser entregue ao Culto Demoníaco. Por causa da confusão de ontem à noite, a guarda foi dobrada.

— Aquele velho a quem chamam de veterano era tão importante assim?

— Não vá querer fuçar nem o nome dele. A anciã disse que cuidaria disso pessoalmente.

Pung pressionou com o polegar o anel dourado que trazia no dedo. Ficava difícil crer que não houvesse ligação alguma entre a mansão e o ataque do homem do sabre vermelho-escuro contra Hyeonheo. Só não havia como saber se ele participara dos sequestros ou se brandira a lâmina para proteger os segredos da mansão. Ao lembrar até das palavras que o homem dissera antes de partir, de que viria conferir o que Pung protegia, a dúvida apenas se aprofundou.

Hyeonheo ergueu dois dedos e apontou para a escuridão da bifurcação. Pung seguiu a energia dos que iam à frente e balançou a cabeça. A direita estava bloqueada. Só para a esquerda o fluxo de energia continuava.

Os três seguiram os sequestradores mantendo distância. Pung estendeu sua energia mais fina que uma folha de papel para tatear os movimentos adiante, enquanto Hyeonheo examinava os dispositivos escondidos nas paredes e no chão. A cada cruzamento por onde passavam, Ayeong espalhava um pouco de um pó branco medicinal, quase imperceptível, uma marca para não perderem o caminho na hora de conduzir as pessoas para fora.

Não demorou para que linhas finas de energia surgissem no campo de visão de Pung. Fios de metal enterrados sob o piso de pedra ligavam-se a sininhos dentro da parede, e ao lado deles havia pequenos orifícios bem juntos, de onde jorrariam agulhas envenenadas ao primeiro passo em falso. Os sequestradores pisaram exatamente na terceira pedra, e só nela.

Pung segurou a manga de Hyeonheo para detê-lo e apontou para o chão.

— Há fios debaixo daquela pedra. Nas paredes dos dois lados também há energia venenosa impregnada.

Hyeonheo examinou o chão e disse em voz baixa:

— Se tivéssemos entrado sem saber, seríamos descobertos no primeiro passo.

Os três atravessaram a armadilha pisando nas mesmas pedras que os sequestradores, e, ao cruzar por último, Pung sentiu o anel prateado tremer de leve. O anel deixava escapar uma energia mínima, como se fosse puxado para o fundo da passagem. Era uma reação parecida com a de quando apontara para o norte, mas agora parecia responder à energia venenosa, e não a uma direção.

‘Está seguindo o veneno? Ou procurando alguém atingido por ele?’

Não houve tempo para buscar resposta. As energias adiante afundaram de repente e se turvaram atrás da parede de pedra. Pung apressou o passo e, no fim da passagem, surgiu uma escadaria que descia. Lá embaixo ecoou o som pesado de um portão de ferro se abrindo.

— Duas mercadorias novas.

À voz do sequestrador, alguém respondeu com rispidez:

— Joga na jaula de dentro. E não mistura com os que tomaram a droga hoje.

Pouco depois, correntes de ferro se chocaram e a porta se fechou. A presença dos homens se afastou pela passagem do lado oposto, e só quando os passos sumiram por completo Hyeonheo desceu a escada.

Ao lado do portão de ferro pendia uma placa do tamanho de uma palma. Sob o desenho de um lobo negro com os dentes à mostra, havia dezessete riscos traçados em tinta vermelha. Pung achou que se parecia com a marca vista na lista dos carregadores do mercado, mas, como a observara de longe, era difícil ter certeza.

Ayeong apontou para a placa e sussurrou:

— Esse símbolo… não é igual ao da placa que achamos antes?

— É bem provável que seja o mesmo bando.

Hyeonheo respondeu apenas isso e encostou o ouvido no portão de ferro. Lá dentro não se sentia a presença de guardas, mas, numa direção diferente daquela por onde os três haviam entrado, várias energias se entrelaçavam.

Pung observou a energia venenosa de um amarelo escurecido que escapava pela fresta da porta. Misturado a ela havia também um resquício tênue de energia vermelho-escura. A textura lembrava a energia demoníaca que ele vira no sabre brandido pelo homem do sabre vermelho-escuro, porém era muito mais turva e viscosa. Podiam vir da mesma raiz, mas não era um vestígio que permitisse afirmar tratar-se da energia de uma única pessoa.

Hyeonheo pressionou com a palma as dobradiças do portão de ferro. Quando as pontas dos dedos carregadas de energia interna se moveram devagar, o metal enferrujado cedeu sem um ruído, e os três abriram, a duras penas, uma fresta por onde cabia uma pessoa.

Além da porta estendia-se um corredor baixo e comprido, com vários quartos pequenos de ambos os lados, e em cada porta pendia um bilhete com o nome de uma erva e uma data. A princípio Pung pensou tratar-se de um depósito de ervas, mas, no instante em que se aproximou, sentiu a respiração de pessoas lá dentro e seu rosto endureceu.

Na primeira porta estava escrito ‘Hwangjeong, três dias’, e lá dentro um homem de meia-idade jazia com as mãos e os pés amarrados. Na segunda havia um bilhete com ‘Baekchul, cinco dias’, e uma mulher pálida ofegava encostada à parede. Estavam classificando gente com nomes de ervas medicinais.

Ayeong cobriu a boca com a mão trêmula.

— Como é que se dá um nome desses… a um ser humano?

Pung também não teve resposta. Eram pessoas que um dia tiveram, cada uma, um nome e uma família. E, no entanto, ali eram chamadas apenas pela droga que lhes haviam feito ingerir e pelo número de dias que haviam resistido. Para quem não enxerga gente como gente, os sequestrados não passavam de mercadoria a ser transportada, testada e descartada.

Hyeonheo examinou a tranca do quarto mais próximo e balançou a cabeça.

— Se abrirmos agora, o alarme dispara. Primeiro é preciso cortar o mecanismo.

Pung puxou ainda mais energia para os olhos. Os fios finos de metal ligados a cada porta convergiam para um cômodo pequeno no fim do corredor, e em volta dele se assentavam as energias de quatro pessoas. Dava para dominá-los de frente, mas bastaria um deles tocar no alarme para que a mansão inteira despertasse.

— Eu entro primeiro.

— Você já usou os olhos tempo demais.

Como dissera Hyeonheo, uma dor quente latejava nas têmporas de Pung. De tanto perseguir dezenas de correntes de energia ao mesmo tempo, as bordas de seu campo de visão haviam se turvado, e um cheiro de sangue rondava a ponta de seu nariz. Ainda assim, os fluxos de energia dos que estavam presos eram mais fracos que isso, e era certo que, quanto mais hesitassem, mais fundo o veneno penetraria.

— Ainda consigo ver. Os fios do alarme se juntam na parede esquerda daquele cômodo. Basta cortar os fios primeiro.

Hyeonheo observou o rosto de Pung por um instante e assentiu em silêncio. Ayeong tirou do peito da roupa as pílulas antídoto e o estojo de agulhas.

— Quando cuidarem dos guardas, eu examino as pessoas.

Os três avançaram até o fim do corredor. Hyeonheo encostou primeiro os dedos na fresta da porta e contou as respirações lá dentro, enquanto Pung apontava, um a um, os fluxos de energia dos quatro homens do outro lado. Dois estavam sentados à mesa, um cochilava encostado na parede, e o último estava de pé perto dos fios do alarme.

Hyeonheo dobrou três dedos.

Três.

Dois.

Um.

Quando a porta se abriu sem ruído, a manga de Hyeonheo rasgou a escuridão. Antes que o homem ao lado dos fios do alarme conseguisse estender a mão, teve o pulso quebrado, e Pung leu o fluxo de energia do mais próximo e acertou o ponto vital onde o peito se liga ao ombro. Assim que o corpo do sujeito desabou sem força, Ayeong cravou depressa uma agulha na nuca de outro.

O último guarda abriu a boca, mas os dedos de Hyeonheo roçaram abaixo de sua garganta e o grito não veio. Mesmo depois que os quatro caíram quase ao mesmo tempo, o único som que restou no cômodo foi o de uma cadeira balançando de leve.

Pung correu direto até a parede e examinou os fios do alarme. Era um arranjo em que tocar errado em um deles puxava os outros, então, enquanto Hyeonheo segurava as peças de ligação para impedir qualquer movimento, Pung cortou os fios um a um com a faca. Quando o último fio pendeu, frouxo, ouviu-se em sequência o som das trancas do corredor se soltando.

Clec, clec.

Pung abriu as portas e entrou, e a cena que encontrou lá dentro lhe tirou o fôlego.

A caverna subterrânea estava repartida em pequenos compartimentos por grades de ferro, e em cada jaula havia pessoas presas como animais. Todas tinham os olhos turvos, como se entorpecidas pela droga, e estavam tão emagrecidas que as juntas dos ossos saltavam à vista. Uma permanecia imóvel, encostada na parede. Outra murmurava sem parar palavras incompreensíveis.

De um lado da caverna enfileiravam-se potes que chegavam à altura da cintura de um homem. Em cada pote uma energia de amarelo escurecido se contorcia, e os sulcos abertos ao longo do chão levavam até o interior de cada jaula. Não bastava fazê-los ingerir o veneno: pelo visto também soltavam a fumaça, para arruinar aos poucos o corpo daquela gente.

Ayeong agarrou as grades de uma jaula e olhou para dentro. O rosto sempre atrevido empalideceu, e logo os olhos se marejaram.

— Isso… é coisa que um ser humano faça?

— Até a fera para de caçar quando está de barriga cheia.

A voz de Hyeonheo saiu baixa, mas nela havia uma ira que Pung jamais lhe ouvira.

O olhar de Pung parou diante de uma jaula pequena. Um menino, ainda criança, estava encolhido no canto, abraçado aos próprios joelhos. No instante em que viu a respiração rasa do menino, veio-lhe à mente a imagem da velha que soluçava apertando contra o peito o sapato do neto desaparecido.

Pung agarrou as grades.

— Menino.

A criança ergueu a cabeça devagar. Os olhos sem foco passaram por Pung, mas não houve sinal de reconhecimento. Pung queria arrancar as grades naquele instante e tomar o menino nos braços, só que antes precisava avaliar a energia venenosa espalhada por toda a caverna e o estado das pessoas. Movê-las às cegas poderia matar aqueles cujos fluxos de energia já estavam rompidos.

Pung reuniu a força que restava nos olhos e percorreu as jaulas. Quando inúmeros fluxos de energia invadiram seu campo de visão de uma só vez, doeu como se a cabeça se partisse. Em um, o pulso do coração estava fraco. Em outro, a energia venenosa se acumulava em torno do dantian. Nos dois recém-trazidos o veneno ainda não havia penetrado até os pulmões, mas alguns dos que estavam presos havia muito tempo pareciam correr risco caso nada fosse feito de imediato.

Ayeong segurou o ombro trêmulo de Pung.

— Não tente ver tudo de uma vez. Aponte primeiro quem está em perigo.

Controlando a respiração ofegante, Pung foi indicando um por um com o dedo. Ayeong distribuiu o antídoto recebido de Hyeonheo, e Hyeonheo desbloqueou os pontos vitais dos que conseguiam se mover sozinhos. Mas os prisioneiros passavam de vinte, e quase metade nem sequer conseguia ficar de pé sem apoio.

Talvez sentindo a presença de alguém, o velho da jaula mais próxima abriu os olhos embaçados.

— …Quem é? Vieram… me levar de novo?

Pung ajoelhou-se e ficou na altura dos olhos do velho.

— Não. Viemos resgatar vocês.

O velho olhou para Pung por um longo momento e balançou a cabeça sem força.

— Não adianta. Quando a lua encher… eles nos mandam para além da montanha. Ninguém que foi uma vez conseguiu voltar.

Além da montanha ficava o território do Culto Demoníaco, o que batia com o que os sequestradores haviam dito antes, sobre entregar gente ao Culto Demoníaco. Aquele lugar era ao mesmo tempo a prisão onde mantinham os sequestrados e a oficina onde arruinavam seus corpos para adequá-los a alguma técnica oculta desconhecida.

— O senhor sabe por que levam essas pessoas?

— Disseram que é material. Que só os que sobrevivem… podem ser usados…

A voz do velho tremeu, fina, e, no instante em que ouviu aquilo, Pung cerrou os punhos com tanta força que as palmas formigaram. Descera da montanha querendo conhecer o vasto mundo, e o canto do mundo que de fato encontrou era mais escuro e mais cruel que a toca de um bicho do mato.

Mesmo assim, não podia desviar o rosto. Aquelas pessoas também tinham um lar para onde voltar, e alguém ainda devia estar esperando diante daquela porta. Com força ou sem ela, todo ser humano deveria poder decidir, com os próprios pés, para onde ir. Pung pensou que isso não era diferente da liberdade que ele mesmo desejava.

— Vou tirar todos vocês daqui, sem falta.

Os lábios do velho tremeram de leve.

— Fujam depressa. Hoje… é o dia em que a anciã vem.

— Que anciã?

— A da Casa Dokgo…

Antes que o velho terminasse a frase, do outro lado da caverna ecoou um bater de palmas lento.

Plás. Plás. Plás.

Pung virou-se no ato e se postou entre Ayeong e as jaulas. Hyeonheo deu um passo à frente e arregaçou as mangas, e da galeria oposta, mergulhada na escuridão, dezenas de correntes de energia se revelaram de uma só vez. Guerreiros até então escondidos cercavam, em fileiras cerradas, o espaço entre os potes e as jaulas.

Pung cerrou os dentes. Não havia como saber se os vigiavam desde o momento em que puseram os pés no subterrâneo, ou se existia outro mecanismo além dos fios do alarme. Uma coisa era certa.

Eles haviam entrado bem no meio de uma armadilha.

Quando as palmas cessaram, da escuridão brotou o riso de uma pessoa idosa.

A mão que, nos bastidores, manipulava as trevas de Nohachon estava enfim prestes a se revelar.

Fim do capítulo 14

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