O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 21 — O Rumor da Ordem de Mobilização

Na névoa da madrugada, o que entrou pelo portão norte não foi o aríete inimigo, e sim três carroças queimadas.

Os refugiados empurravam as carroças cobertos de cinza e lama, e na última iam sacos de carvão meio queimados e uma placa de medição de ferro derretida e grudada. Quatro fornos de carvão do norte e duas oficinas de conserto de rodas haviam sido atacados na mesma noite. Em vez de golpear as muralhas, o exército do Mundo Demoníaco cortou primeiro a garganta do combustível e do transporte que levavam ao Baluarte de Aço.

Quando Kang Mujin pôs a mão sobre a placa de medição, sentiu sulcos de rodas de bitolas diferentes e três eixos grossos. Na borda retorcida pelo fogo restava metade do selo vermelho-escuro do Grimoire.

Rosen abriu sobre a mesa três bilhetes de procedências distintas. Os relatos enviados por um carregador da rota comercial do norte, um caçador do povoado da mina abandonada e um cocheiro do mercado da fronteira tinham vindo por caminhos diferentes, mas apontavam a mesma direção e a mesma hora. Os armazéns haviam sido abertos, a guarnição descera para o sul, e carne seca e rodas de carroça tinham sumido do mercado.

A ordem escrita sob o selo era mais curta.

Designa-se o Baluarte de Aço como alvo prioritário de eliminação no plano de conquista do norte. Classifique-se a mão de obra recuperável; descartem-se os recursos de resistência.

— A vanguarda que se destacou do corpo principal está a nove ou dez dias de distância. O corpo principal vem logo atrás.

Rosen sobrepôs os tempos de deslocamento dos três relatos. — Se queimaram os fornos de carvão externos e as estradas antes das muralhas, o que vem depois são máquinas pesadas e carroças de suprimento, juntas.

Doria virou a placa de medição chamuscada. — Três eixos significa um aríete revestido de chapa de ferro ou uma torre móvel. E terem tentado reduzir primeiro o nosso fogo quer dizer que enxergaram direito.

Rakan confrontou o registro de refugiados com o livro de efetivos. As equipes de combate regulares que podiam entrar de imediato na linha eram trinta e oito; as de reserva em treinamento, vinte e três. Mesmo acolhendo mais gente dos arredores, os que aprenderiam a formação em dez dias não passavam de cinquenta e poucos.

— Mesmo que aceitemos gente, não há lanças para pôr nas mãos deles.

Doria repassou a situação das forjas. Numa delas a temperatura oscilava; outra estava abarrotada de consertos de ferramentas agrícolas. Acima de tudo, com quatro fornos de carvão queimados, o combustível que tinham obrigaria a apagar metade das forjas em três dias.

Antes do livro de armas, Kang Mujin virou as rodas das carroças queimadas. Do lado de dentro do aro não havia cortes de lâmina, e sim marcas de brasa a intervalos iguais. Antes de incendiar as carroças, o exército do Mundo Demoníaco havia impregnado eixos e aros com óleo de ignição retardada, e mesmo nas carroças sobreviventes restava um resíduo preto grudado.

— Se usarmos as carroças restantes como estão, elas queimam de novo.

Os refugiados recuaram as mãos de uma só vez. Kang Mujin separou os aros e cortou fora as partes contaminadas, e mandou Doria construir dois fornilhos móveis baixos, capazes de secar até carvão molhado. Rakan não prendeu as equipes regulares apenas ao treino de armas: dividiu-as entre a escolta da rota do carvão e a busca por brasas remanescentes.

— Se a vanguarda chega em dez dias, não deveríamos fazer lanças primeiro? — perguntou Rakan.

— Se o fogo apagar em três dias, não haverá lança nenhuma.

O primeiro objetivo deixou de ser o número de armas e passou a ser reabrir a rota do combustível.

Ao meio-dia daquele dia, Kang Mujin foi pessoalmente até os fornos de carvão queimados. O inimigo havia queimado telhados e depósitos, mas não conseguira eliminar todo o carvão duro do fundo dos fornos. Os mineiros removeram as paredes de terra desabadas, e os refugiados que já tinham lidado com carroças escolheram eixos intactos e montaram plataformas de transporte improvisadas.

No instante em que ia abrir o segundo forno, três fios finos de arame prenderam a ponta dos dedos de Kang Mujin. Era um dispositivo de retardo ligado a um jarro de óleo do lado de dentro da porta. Se o anel de ferro fosse puxado, o óleo se derramaria sobre as brasas restantes sob a pilha de carvão e queimaria até a equipe de recuperação.

Ele afastou as pessoas e começou por aliviar a tensão dos arames. Doria levou o jarro para uma cova de terra, e os batedores de Rakan encontraram o mesmo dispositivo em outros dois pontos.

O terceiro já estava meio acionado. O óleo caía gota a gota no fundo do forno, e dentro da parede de terra uma brasa vermelha clareava e escurecia como se respirasse. Se jogassem água, o forno quente racharia e soterraria até o carvão que sobrara.

Kang Mujin mandou os refugiados trazerem areia molhada e chapas largas de ferro. Rakan esvaziou o lado de onde soprava o vento, e Doria bloqueou o caminho do óleo com a placa de eixo arrancada de uma carroça. Kang Mujin não cortou os arames: transferiu a força tensionada, uma a uma, para três pequenas cunhas. Quando a última cunha recebeu a tensão, o jarro parou de se inclinar.

— Agora posso cortar?

Rakan ergueu a faca, mas Kang Mujin balançou a cabeça.

— Primeiro se mata o fogo de fome.

A areia molhada preencheu as frestas do forno, e as chapas de ferro desviaram o curso do óleo para a cova de terra. Só depois que Doria prensou e selou a boca do jarro com uma tenaz é que Kang Mujin cortou os arames, um a um. Entre as pessoas que prendiam a respiração espalhou-se, tardio, o cheiro de queimado, mas as chamas não subiram.

Quando o dono do forno se ajoelhou e tentou revolver o carvão restante com as mãos nuas, Kang Mujin segurou-lhe o pulso.

— Primeiro é preciso preservar as suas mãos.

Ele distribuiu luvas e ancinhos longos e dividiu a equipe de recuperação entre o interior e o exterior do forno. Os de dentro retiravam o carvão; os de fora conferiam saco por saco o cheiro de óleo preto. Nos sacos impregnados amarravam um cordão vermelho e os mandavam não para as forjas, mas para o tonel de recolhimento do óleo incendiário.

Recuperar os fornos de carvão não se encerrava em apagar o fogo. Era preciso deixar também uma ordem de trabalho que não voltasse a arder e marcas pelas quais qualquer um reconhecesse o perigo.

— Eles calcularam até mesmo o nosso retorno.

— Então, da próxima vez, quem calcula primeiro somos nós.

Antes de o sol declinar, um forno voltou a abrir. O carvão aproveitável dava apenas uma carroça e meia, mas, ao pôr carvão molhado e madeira mal queimada nos fornilhos móveis, surgiu combustível para secar durante a noite. A forja da oficina de rodas também ressuscitou um pequeno fole, e passou a ser possível consertar pinos de eixo em plena estrada.

A primeira carroça que voltou ao Baluarte de Aço não trazia só carvão. Entre os catorze refugiados recém-chegados havia mineiros e cocheiros, e cada um escreveu de próprio punho no registro o que sabia fazer. Kang Mujin pousou sobre a bancada uma ponta de lança sem ornamento algum.

— A partir de amanhã, ninguém faz uma lança inteira sozinho.

Doria olhou alternadamente para a ponta de lança e para as mãos desconhecidas.

— A rota do combustível está salva, e agora você quer repartir as mãos.

— É o primeiro fracasso que vai definir o padrão.

Por ora havia uma única ponta de lança, e a tabela de processos continuava em branco. No dia seguinte, no meio do estragar e do consertar o ferro com mãos de verdade, seria preciso encontrar os padrões de comprimento, de largura e de têmpera.

Ao norte, o metal leve da vanguarda descia para o sul mais depressa que o corpo principal. Antes que o fogo recuperado apagasse, era preciso criar também o modo de repartir esse fogo pelas mãos de cinquenta pessoas.

Kang Mujin pousou a primeira barra de material ao lado da forja.

Fim do capítulo 21

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