Deus Marcial

Capítulo 22 — Sem Nome (無名)

Na placa de nome do lado oposto constavam apenas a seita e a geração.

— Discípulo de primeira geração da Seita Cheongseong.

De um lado das arquibancadas espalhou-se uma exclamação contida e, embora nenhum nome tivesse sido chamado, os que reconheceram o traje azul de Cheongseong trocaram sussurros entre si. Ouvia-se também que era o discípulo que, nas eliminatórias, derrotara três homens seguidos com a espada veloz.

Pung desviou o olhar da urna do sorteio à procura do adversário, e o discípulo de Cheongseong, de pé abaixo da plataforma de duelo, não se deixou abalar pelo alvoroço: conferiu primeiro a correia da espada. Era meio palmo mais alto que Pung, e no dorso de suas mãos estavam firmemente gravadas as marcas de quem empunha a espada há muito tempo; não exagerava a própria presença nem a escondia de propósito.

Quando os olhos se encontraram, o discípulo de Cheongseong saudou primeiro, punho contra a palma.

— Desejo um bom combate.

Na saudação breve não havia nenhum traço de desdém, e Pung respondeu, retribuindo a saudação.

— Aprenderei muito.

O olhar do adversário se abrandou muito pouco. Ainda assim, seus passos rumo à plataforma de duelo eram impecavelmente regulares e silenciosos.

Pung, subindo a escada atrás dele, tinha consciência do toque do lado de dentro da gola; o pedaço do livro que Ayeong havia costurado estava preso junto ao peito esquerdo. Por fora não se notava, mas bastaria um roçar da ponta de uma espada para o tecido se abrir e o papel aparecer. Precisava dar conta de tudo: não ferir ninguém no duelo, proteger o livro e esconder o anel e a visão dos meridianos.

Se deixasse escapar um só desses pontos, a razão de ter vindo até ali vacilaria.

Já na plataforma de duelo, o discípulo de Cheongseong desembainhou a espada e soltou os punhos duas ou três vezes; o canto da lâmina foi curto e límpido, e o fio não reluzia em excesso nem sob o sol. Era uma espada que preferira o equilíbrio afeito à mão aos ornamentos feitos para ofuscar os olhos em combate real.

Pung ficou de pé, de mãos vazias, acertando a respiração enquanto percorria a arena com os olhos. Namgung Hwi estava entre os outros participantes, de braços cruzados, olhando naquela direção, e um pouco afastada encontrava-se Jegal Soso, com o leque fechado na mão. Hyeonheo, nas arquibancadas comuns, vestindo um manto acinzentado, não chamava atenção, mas seu olhar ia e vinha entre a ponta dos pés e os ombros de Pung.

Assim que seus olhos encontraram os de Pung, Ayeong apontou sem ruído para a gola esquerda, num aviso para que tomasse cuidado. Ao lado, Makdong mantinha a boca bem fechada, e aquele silêncio pouco habitual revelava toda a tensão; Songjin, por sua vez, estava entre os oficiais da lei, abaixo do estrado, examinando não a plataforma de duelo, mas os assentos ao redor. Parecia querer descobrir quem demonstrava interesse por Pung.

O árbitro olhou alternadamente para os dois.

— Render-se ou sair da plataforma de duelo é derrota. Golpes mortais e venenos letais estão proibidos.

O discípulo de Cheongseong baixou a ponta da espada, e Pung também abriu as mãos frouxamente, repartindo o peso por igual entre o pé da frente e o de trás.

— Comecem!

O grito caiu, mas o discípulo de Cheongseong não avançou de imediato: deu meio passo com o pé esquerdo, observou primeiro a reação de Pung e então ergueu a espada à altura do ombro. A ponta apontou para o pescoço de Pung, desceu até o peito e passou em seguida ao punho; era um movimento para medir a distância sem revelar qual seria o alvo verdadeiro.

Pung não abriu a visão dos meridianos e deslocou-se de lado com passos comuns, movendo ombros e cintura o mínimo possível para que também o fluxo de força aprendido com Hyeonheo não transparecesse. Só depois de ver essa escolha é que o adversário estendeu a primeira estocada.

Foi rápido.

A espada, que parecia um golpe reto, dobrou-se de viés no meio do caminho e fechou a rota de fuga à direita de Pung; ele não recuou o tronco, apenas puxou o pé esquerdo para trás e saiu da linha da lâmina, e a ponta cortou o ar deixando uma folga generosa. O discípulo de Cheongseong não veio atrás e recolheu a espada de imediato.

Das arquibancadas não veio reação alguma; devia ter parecido apenas que os dois haviam se testado com um golpe cada.

Pung pensava diferente: a primeira estocada não fora um ataque para exibir velocidade. O adversário vira qual pé Pung recuava primeiro, para que lado se voltavam o tronco e o olhar, e havia grande chance de que, a partir do segundo golpe, mirasse esse hábito.

O discípulo de Cheongseong voltou a entrar e, desta vez, a ponta da espada tremulou como se tivesse se dividido em três; Pung, porém, não seguiu as imagens residuais e olhou o punho e o ombro. No instante em que girava o corpo para a direita, julgando bastar esquivar-se da única linha central, o ímpeto da espada morreu de repente.

Não era um ataque.

O pé dianteiro do discípulo de Cheongseong varreu o chão e tomou o lado externo de Pung. A espada, propositalmente desacelerada, era a isca para fazê-lo recuar; o verdadeiro objetivo estava em tomar o espaço da plataforma de duelo.

Pung percebeu tarde demais, quando já cedera meio passo; à esquerda ainda havia folga, mas, se se movesse apenas para aquele lado, o livro dentro da gola ficaria perto da espada do adversário. Para não demonstrar hesitação, Pung engoliu a respiração num átimo e girou para a direita.

O brilho da lâmina tornou a florescer.

A espada do discípulo de Cheongseong era rápida sem jamais se apressar. Ora abria um corte amplo para encurralar Pung, ora recolhia o ímpeto um instante antes de atingi-lo, e, quando Pung tentava escapar por um espaço vazio, emendava uma estocada curta como se estivesse à espera. Era uma espada acostumada a expulsar o adversário dentro das regras.

Pung não foi tocado pela lâmina, mas também não conseguiu se esquivar com folga. Como não usava a visão dos meridianos, as mudanças da ponta da espada só se revelavam por inteiro no último instante, e quanto mais insistia nos passos comuns, menos opções lhe restavam. Três, quatro vezes, recuando seguidamente, a linha branca da borda da plataforma de duelo chegou perto de seus calcanhares.

Makdong, sem se dar conta, apoiou a mão no joelho e tentou se levantar, mas Ayeong o segurou pela manga. Ayeong não disse nada, e ainda assim havia força naquela mão; Hyeonheo, sem sequer alisar a barba, olhava apenas para o pé esquerdo de Pung.

Pung não se forçou a avançar: o adversário certamente esperava também por isso. A espada do discípulo de Cheongseong sempre deixava um caminho meio aberto e, cada vez que Pung escolhia aquela brecha, vinha a mudança seguinte; nas duas primeiras vezes pareceu coincidência, mas quando a mesma isca se repetiu numa terceira forma diferente, a lógica enfim se fixou.

A rapidez da espada era só a casca.

Aquele homem criava um lugar em que o adversário acreditava estar seguro e, no instante em que o pé se movia para lá, já lançava a espada seguinte; não era uma técnica emendada na outra, mas uma sequência contínua de variações que se completava encaixando as escolhas de Pung. Parecia-se com deixar de propósito uma única saída de fuga ao tocar a caça na montanha.

Quando se deu conta disso, o espaço atrás de seus calcanhares não chegava a um palmo.

O discípulo de Cheongseong ergueu a espada; a respiração não se desordenara, e no olhar tampouco havia descuido.

— Se recuar, acabou.

Não era uma frase para apressar a vitória, e sim um aviso; parecia oferecer a chance de render-se sem se ferir por acidente.

Em vez de responder, Pung pressionou o chão com a ponta do pé, e a sensação do papel dentro da gola ficando úmido de suor era estranhamente nítida. Ali, se abrisse por completo a visão dos meridianos, talvez pudesse atravessar com facilidade as variações do adversário, e, se tomasse emprestada a força do anel dourado, não seria difícil empurrá-lo junto com a espada.

Naquele instante, porém, centenas de pessoas veriam seus movimentos, e não apenas Namgung Hwi e Jegal Soso: alguém ligado ao código do livro também podia estar naquela arena. Revelar a natureza daquele poder custaria algo mais caro que o campeonato.

Pung começou a puxar a energia para os olhos e parou; em vez disso, expirou longamente e recordou a espada que vira até então. Repassou, um a um, para onde o adversário o havia atraído, como mudavam ombro e cotovelo no momento anterior à estocada verdadeira, em que ângulo o pé dianteiro pressionava o chão.

Não era possível saber tudo.

Ainda assim, uma coisa ele sabia: o discípulo de Cheongseong acreditava que Pung escolheria o caminho deixado aberto.

Pung baixou o ombro esquerdo muito de leve. Foi um movimento como que para proteger o lado onde estava o livro, igual ao hábito que ele deixara transparecer sem querer algumas vezes ao esquivar-se da espada. O olhar do discípulo de Cheongseong desceu até a ponta dos pés de Pung e voltou.

A espada se moveu.

Era uma estocada ao peito. Se Pung girasse para a esquerda, a linha da lâmina acompanharia em direção à gola; se saísse pela direita, o pé passaria para fora da plataforma de duelo. A opção de saltar para cima seria bloqueada pela variação seguinte, um corte ascendente.

Com passos comuns, não havia caminho.

Pung esperou até o fim e, antes que a ponta da espada chegasse perto do corpo, veio o átimo em que o ímpeto do discípulo de Cheongseong passava da estocada para a variação seguinte. Foi um instante curtíssimo, mas também a brecha em que ataque e isca se sobrepunham e atrapalhavam um ao outro.

Só então Pung moveu o pé.

Não foi para trás nem para os lados. Sem pisar na linha branca da borda da plataforma de duelo, curvou o pé dianteiro para dentro como uma meia-lua e penetrou por baixo do braço armado do adversário. Não era o passo aprendido com Hyeonheo desdobrado por inteiro, mas o modo de pisar de quem atravessa as rochas estreitas de uma trilha de montanha, acrescido apenas de uma direção de força.

Os olhos do discípulo de Cheongseong se arregalaram e ele torceu logo o punho para recolher a espada, tentando barrar a entrada de Pung com o cotovelo; Pung, no entanto, também não leu aquilo por completo. Quando o ombro esquerdo pareceu prestes a ser bloqueado por uma reação mais rápida do que o previsto, torceu a cintura e infiltrou-se uma polegada mais para dentro.

A espada não tocou nada.

Pung endireitou o corpo entre o cotovelo e o tronco do adversário e, com a mão direita, amparou o punho que segurava a espada. Torcê-lo à força poderia lesionar o osso, de modo que, em vez de pressionar um ponto vital com os dedos, empurrou-o de leve para cima, na direção em que o punho não conseguia produzir força. Ao mesmo tempo, a mão esquerda parou diante da gola do adversário, sem tocar-lhe o ombro.

O centro de gravidade do discípulo de Cheongseong oscilou para trás; era uma postura em que bastaria um passo de Pung para lançá-lo fora da plataforma de duelo.

Mas Pung não empurrou.

— Parem!

Antes que caísse o grito do árbitro, o discípulo de Cheongseong soltou a espada primeiro. A lâmina cravou-se de viés no piso da plataforma de duelo e tombou, e ele examinou alternadamente a mão detida de Pung e a linha branca às suas costas.

— Perdi.

A arena silenciou.

Pung recolheu de imediato as duas mãos e recuou; não estava cansado a ponto de sentir as pernas fraquejarem, mas a respiração saía mais áspera do que esperava. Por ter concentrado a mente em esconder a visão dos meridianos e o anel, tivera de suportar muitas vezes mais movimento do que de costume, e, se a entrada final tivesse atrasado meio passo, teria fracassado.

O discípulo de Cheongseong apanhou a espada do chão. No rosto, antes da amargura da derrota, surgiu primeiro a dúvida de quem não se convencera; ainda assim, não estendeu o punho da espada a Pung nem reclamou: limpou a lâmina e a guardou na bainha.

— No instante em que julguei ter fechado o caminho, foste tu quem apagou esse caminho.

— Percebi tarde. Se tivesse sido pressionado só um pouco mais, teria caído.

Ouvindo a resposta de Pung, o discípulo de Cheongseong olhou-o por um momento e saudou com o punho.

— Não tomarei essas palavras como consolo. Da próxima vez, não te darei nem a brecha de perceber tarde.

— Se nos encontrarmos de novo, também eu perceberei mais depressa.

Os dois trocaram as devidas cortesias.

O árbitro ergueu o braço de Pung.

— Vencedor, Danpung!

Só então um burburinho se espalhou pelas arquibancadas. No início, muitos diziam que o discípulo de Cheongseong havia encurralado um rapaz sem nome até a borda da plataforma de duelo, mas quanto ao último golpe as opiniões se dividiram. Alguns diziam que ele escorregara por acaso para dentro da guarda da espada; outros afirmavam que aguardava aquele instante desde o começo.

Pung achava que nenhum dos dois lados acertava. Se soubesse desde o início, não teria sido tão acossado; se fosse acaso, não teria conseguido parar sem machucar o punho do adversário. Compreendera tarde e, no fim, apenas escolhera.

Ao descer da plataforma de duelo, foi Ayeong quem se aproximou primeiro e, em vez de parabenizá-lo pela vitória, conferiu com os olhos a gola esquerda de Pung antes de perguntar em voz baixa:

— Está tudo bem?

— Sim. Nada foi tocado.

— A espada foi para aquele lado até o fim, fiquei com o coração na mão.

Pung conteve a vontade de tocar a própria gola e assentiu; num lugar em que as pessoas olhavam, não podia conferir a posição do livro.

Makdong tentou enfiar o rosto entre os dois e parou diante do olhar de Ayeong.

— Eu pensei que o irmão tivesse se deixado encurralar de propósito. Mas, pela sua cara, parece que o perigo era de verdade.

— Foi difícil demais para ter sido de propósito.

— Não diga isso por aí. Já se espalhou até a metade da cidade que um mestre sem nome brincou com a espada veloz de Cheongseong.

Quando Makdong apontou os arredores com o queixo, viam-se participantes lançando olhares de esguelha a Pung; os que até pouco antes desconheciam seu nome agora confirmavam uns com os outros as duas sílabas: ‘Danpung’.

Hyeonheo aproximou-se depois e examinou a respiração de Pung.

— Fizeste bem em aguentar sem olhar.

O elogio ficou por aí.

— Mas, se tua mente é tomada apenas por esconder, o corpo diz a mentira. Aquele discípulo de Cheongseong deve ter percebido que estavas atento à gola.

Pung, alarmado, baixou a voz.

— Terá percebido também que era por causa do papel?

— Isso ele não saberá. Mas quem tem olhos aguçados certamente viu que procuravas proteger o lado esquerdo.

O olhar de Hyeonheo voltou-se para Jegal Soso, que não se limitava, como os demais, a rever a cena final do combate. Batendo com a ponta do leque fechado no próprio punho, parecia examinar alternadamente o antes e o depois do momento em que Pung mudara de movimento na borda da plataforma de duelo. Era o rosto de quem tentava julgar se aquilo fora acaso.

Namgung Hwi olhava para um ponto ainda mais simples: levou o olhar diretamente ao lugar por onde Pung se infiltrara e mediu o ângulo em que estivera o discípulo de Cheongseong e o comprimento da espada. Não havia escárnio nem admiração e, pouco depois, ao ser chamado para sua vez, ele desviou os olhos de Pung e subiu à plataforma de duelo.

Sua espada era mais rápida do que diziam os rumores, mas ele não esmagou o adversário só com velocidade: no primeiro choque conferiu a reação, no segundo estreitou a rota de fuga, e com a terceira estocada arrancou-lhe a arma, encerrando o combate. Quando o adversário cambaleou, a ponta da espada também parou no mesmo instante.

Pung não se apressou em procurar brechas; mais do que o resultado de terminar em três golpes, o que lhe pesava era o fato de que, durante esses três golpes, quase nada fora mostrado ao adversário. Também lhe parecia entender um pouco por que, na triagem preliminar, Namgung Hwi observara juntas as mãos de Pung e as pegadas do examinador.

O julgamento só poderia vir depois de enfrentá-lo pessoalmente.

Songjin não se aproximou de Pung depois do duelo; apenas, enquanto dava alguma instrução a um oficial da lei, percorreu um a um, como quem memoriza, alguns assentos de onde observavam Pung. Não dava para saber qual deles tinha ligação com o ‘Grou Branco’, mas, uma vez que a vitória de Pung atraíra interesse, o rumor podia ser ao mesmo tempo uma lâmina e uma isca.

Os duelos prosseguiram até a tarde. A espada de flor de ameixa da Seita Hwasan parecia desordenar-se sem jamais perder o centro, e o guerreiro da Família Dang de Sacheon, em vez do veneno proibido, prendeu os pés do adversário com uma arte refinada de armas ocultas. Pung guardou nos olhos apenas os fluxos necessários, sem abrir fundo a visão dos meridianos, e, conforme aprendera no primeiro duelo, esforçou-se por distinguir o que via daquilo que acreditava saber.

Quando o sol começou a pender para além do muro oeste, definiu-se o último vencedor do primeiro dia e, assim que a anciã anunciou que os confrontos do dia seguinte seriam divulgados pela manhã, os participantes saíram da arena em grupos.

Pung caminhou atrás de Hyeonheo e Ayeong, ouvindo o que se dizia às suas costas. A história de que a espada veloz de Cheongseong não conseguira tocar sequer uma gola, a de que ele fizera a espada cair com as mãos nuas, a de que um mestre sem nome surgido da fronteira ocultava sua identidade — todas já se multiplicavam em formas diferentes.

Makdong estalou a língua e riu.

— Esta noite, o nome do irmão vai aparecer pelo menos uma vez em cada estalagem da cidade.

Pung não conseguiu rir. Ganhar um nome faria crescer também a justificativa para perseguir as trevas de Nohachon, mas, atrás desse nome, aumentariam os olhos dispostos a cavar os rastros do livro e do anel. A primeira vitória não era um fim, e sim a entrada de um caminho mais estreito e perigoso.

Antes mesmo que o sol do primeiro dia se pusesse, o nome de Danpung, até então desconhecido, já se espalhava para fora da arena.

Fim do capítulo 22

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