O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 13 — Os que se reúnem

Mesmo depois de vencer toda a encosta, o velho ainda levou um bom tempo para conseguir abrir a boca.

O pescoço exposto sob o casaco puído estava ressecado, e nos sapatos a lama havia endurecido em camadas grossas. Atrás dele subiam em fila carroças quebradas e gente exausta; a maioria era humana, mas entre eles vinham também uma mãe coelha-fera de orelhas castanho-amareladas caídas com seu filho e um homem semi-humano de um dos chifres quebrado.

Eram vinte e três ao todo.

No Baluarte de Aço havia vinte e três: os cinco adultos que primeiro prepararam o terreno e Aisha, mais os treze adultos e as quatro crianças que se juntaram depois. Só com eles as mãos já mal davam conta da forja, das valas de drenagem e das tendas, e da noite para o dia somava-se exatamente o mesmo número de gente.

Rakan postou-se a uns dois passos dos recém-chegados. A mão estava perto do punho da espada, mas não a sacou.

— Encontrei-os no vale ao norte. Disseram que vieram atrás da fumaça.

O olhar do velho passou por Kang Mujin e Doria e parou na forja. Nos olhos que fitavam o fogo, antes do medo transparecia a fome. Eram os olhos de quem havia muito não via um fogo que não se apagasse.

— Aqui é… o Baluarte de Aço?

Rosen fechou o livro e deu um passo à frente.

— É assim que o chamamos. De onde vieram?

— Da aldeia de Brena. Ficava a três dias ao norte.

Kang Mujin viu as orelhas de Rakan se deitarem um pouco para trás. Parecia ser um nome que ele conhecia.

Rosen perguntou.

— É um lugar onde havia uma aldeia?

— Agora não há mais.

O velho tirou do peito a lâmina quebrada de uma enxada. O meio da lâmina estava derretido e enegrecido, e a superfície da fratura era áspera, como se tivesse sido torcida à força.

— Vieram uns sujeitos de armadura negra. Mandaram entregar o grão. Levaram no ano passado, levaram também na primavera. Quando dissemos que não havia mais, começaram a contar as pessoas.

Os dedos do velho se fecharam sobre a lâmina.

— Disseram que levariam gente no lugar do grão.

A mulher que estava atrás da carroça tapou os ouvidos da criança, e a criança, sem entender o motivo, ergueu os olhos para a mãe.

Kang Mujin pegou a lâmina que o velho estendia.

Era aço doce, de baixo carbono. Anos golpeando terra e pedra haviam gasto o fio, e havia sinais de que o dono a aquecera no fogo algumas vezes para endireitá-la e seguir usando. Na parte quebrada restava uma torção que o uso como ferramenta de lavoura jamais produziria: alguém golpeara a lateral com uma peça larga de ferro e depois pisara em cima até dobrá-la.

Ainda que as pessoas calassem, no ferro quebrado permanecia a força que o quebrara.

O ferro não mentia.

— Foram só estes que conseguiram fugir?

Perguntou Kang Mujin.

O velho balançou a cabeça.

— Nos dispersamos. Uns foram para o sul, outros se esconderam na floresta. E os que foram capturados… são muitos.

Kang Mujin olhou por um instante para a lâmina e a pousou ao lado da forja.

— Dá para consertar.

Os lábios do velho se entreabriram, mas Kang Mujin não explicou mais nada.

Rosen examinou um a um os rostos daquela gente.

— Os feridos, deem um passo à frente. Crianças e idosos vão descansar na tenda da esquerda. Não bebam muita água de uma vez; tomem meia tigela por vez.

Ninguém se moveu de imediato.

— A comida não é farta. Mas também não vamos mandar ninguém embora com fome. Hoje descansem; a partir de amanhã dividiremos o trabalho conforme o que cada um souber fazer.

O velho perguntou com cautela.

— Vão nos aceitar?

— Não posso expulsar ninguém sem sequer saber quem chegou.

O tom de Rosen era cortês, mas não deixava margem.

— Vou anotar nome, terra natal, o que sabem fazer e a família que veio junto. Quem estiver armado também me diga. Não vamos confiscar nada. Só preciso saber, à noite, em qual tenda há armas.

O homem do chifre quebrado estreitou os olhos.

— É para cobrar imposto, por acaso?

— O único imposto que se pode cobrar aqui agora é lama e pedra.

Rosen apontou para a terra vazia a oeste.

— E, por sorte, precisamos muito das duas coisas.

Risadas curtas escaparam aqui e ali, e os ombros enrijecidos baixaram um pouco.

A coelha-fera perguntou.

— Quem não puder trabalhar é expulso?

A criança em seus braços tinha as faces vermelhas, talvez de febre.

— Este não é um lugar tão miserável a ponto de pôr uma pá na mão de crianças e doentes.

Rosen chamou Aisha.

— Aisha, posso lhe pedir água e panos limpos?

— Aham. Quer dizer, sim.

Quando Aisha correu até o barril de água, a coelha-fera reparou nos chifres curtos e na cauda dela e afrouxou um pouco o abraço em torno da criança.

Isso bastou.

As pessoas começaram a se mover.

Rakan puxou a carroça encosta acima, e a cada volta da roda torta o eixo gemia com aspereza. Doria ouviu o som e estalou a língua.

— Vieram três dias puxando isso? É um milagre a roda não ter abandonado o dono.

Ele enfiou a cabeça debaixo da carroça, mas assim que a ponta da barba se sujou de lama, recuou na hora.

— Kang Mujin, olhe você.

— Por que eu?

— Minha barba ficou suja de terra.

— Já ficou.

— Justamente, não pode sujar mais.

Doria sacudiu a barba e voltou para a forja. Diante da própria forja não admitia interferência de ninguém, mas passou adiante o conserto da carroça sem hesitar.

Kang Mujin agachou-se ao lado da carroça.

O aro que prendia a roda era de ferro de baixa pureza e, esticado de um lado, afastava-se da madeira a distância de um dedo. O pino do eixo também estava gasto quase pela metade; daquele jeito, sairia na próxima encosta.

Quando ele encostou a palma no aro, a textura fria e áspera espalhou-se por sua mão, e ele sentiu a tensão acumulada no ferro concentrada ao longo do círculo deformado. Podia fechá-lo na hora com seu poder. Mas empurrar à força o ferro esticado faria o outro lado saltar; era preciso aquecê-lo no fogo, reduzir o comprimento e reequilibrar o círculo para que aguentasse muito tempo.

— Descarreguem a carga.

O dono da carroça moveu os sacos às pressas, e de dentro rolaram alguns punhados de feijão seco e tigelas de madeira. Tudo o que possuíam não enchia sequer uma carroça.

Kang Mujin retirou o aro e o pôs na borda da forja. Esperou até que o brilho vermelho-escuro percorresse a peça inteira por igual e o levou para a bigorna.

Tang. Tang. Tang.

Recolhendo aos poucos a parte esticada, bateu três vezes e girou. Bateu mais três vezes. Se o círculo não ficasse equilibrado, a roda se gastaria sempre a partir do mesmo ponto.

As pessoas se juntaram, atraídas pelo som do martelo.

Quando Kang Mujin encaixou o aro em brasa em torno da roda, Doria, que já havia trazido um balde sem que ninguém notasse, derramou a água.

Tssss.

O vapor subiu, e o aro, ao esfriar, contraiu-se e mordeu com firmeza a roda de madeira.

— O pino do eixo também precisa ser trocado.

O dono da carroça curvou-se.

— O pagamento… não tenho nada agora.

— Quem pediu alguma coisa?

— Mas ferro não é coisa rara?

— Se a carroça quebrar, perde-se também a carga que ela levaria.

Doria atirou-lhe uma barra curta de ferro.

— Não faça bom demais. A carroça vai acabar fugindo sozinha.

— Não é esse tipo de ferro.

— Era piada.

— Eu sei.

Doria soltou um “hum” e alisou a barba.

Kang Mujin aqueceu a barra. Não amoleceu só a superfície: esperou o calor penetrar até o centro e, quando a fibra do ferro afrouxou, bateu a barra quadrada em oito faces e depois a arredondou. Na ponta deixou um ressalto para impedir que escapasse.

Encaixou o novo pino, cravou a cunha, e a roda girou sem folga.

O dono da carroça girou a roda várias e várias vezes.

— Parece nova.

— Nova não é.

Kang Mujin sacudiu a fuligem das mãos.

— É coisa que se conserta e se continua usando. Passe óleo com frequência.

Quando o homem tentou tirar o saco de feijão da carroça, Kang Mujin o impediu.

— Dê às crianças.

— Não posso simplesmente aceitar.

— Então trabalhe.

Rosen aproximou-se com o livro.

— Sabe lidar com carroças?

— Eu era carpinteiro na aldeia. Também fazia rodas.

— Ótimo. Precisamos de gente para levantar as moradias. Seu nome?

— Marten.

Rosen anotou no livro.

Marten. Humano. Carpinteiro. Família de três.

Atrás dele, as pessoas esperavam a vez.

O velho disse chamar-se Hamon; lavrara a terra a vida inteira e sabia erguer muros de pedra. A coelha-fera era Sea, e sabia distinguir ervas medicinais; Kurn, o semi-humano de chifre quebrado, criava cabras e trabalhava couro.

A ordem das perguntas de Rosen era a mesma para todos.

Nome. Família. O que sabe fazer. Onde está ferido.

Não havia campo algum que perguntasse a condição social.

— Não vai anotar de que senhor éramos súditos antes?

Perguntou Hamon.

A pena de Rosen parou por um instante.

— Esse senhor alimenta e protege vocês agora?

Ninguém respondeu.

— Se for preciso, anoto depois. Por ora, anotemos primeiro o que serve para sobreviver.

Kang Mujin olhou o livro de Rosen.

Também uma forja não se ergue começando pela parede externa. Primeiro vêm o caminho do ar e o da chama, e se a base não aguenta, o ornamento só acrescenta peso para desabar.

Rosen conhecia a ordem certa de reunir pessoas.

Naquela manhã, diante da bigorna empilharam-se de uma só vez foices sem fio, pás amassadas e panelas furadas. Em vez de gastar ferro novo, Kang Mujin preservou as partes sãs e ressuscitou primeiro as ferramentas de lavoura. A Aisha, que perguntava pelas trincas invisíveis, mandou tocar a espiga da foice.

— O ferro não fala.

— Quando quebra, fala bem alto. Entender antes disso é o que faz um artesão.

Antes do meio-dia, Rosen trouxe as contas.

— Mantendo a ração como está, dá seis dias.

O som do martelo cessou. A alegria de ter o dobro de braços esbarrou na realidade de ter o dobro de bocas para alimentar.

Kang Mujin dividiu em três montes as peças à espera de conserto.

— Hoje só consertamos as ferramentas para a lavoura e o armazém. Marten, levante a estrutura do armazém antes das moradias; Hamon, assuma o curso d'água e os campos a oeste. Até abrirmos a rota de comércio ao sul, dobramos a guarda na fronteira norte.

Ditas as palavras, as habilidades daquela gente logo viraram postos. O carpinteiro escolheu as peças retas; o velho que erguia muros de pedra começou removendo o solo mole; Sea e Silvana separaram as ervas comestíveis das venenosas. Rakan carregou a maior das pedras nas costas e subiu a encosta norte, apontando a direção em vez de falar.

Hamon recebeu a enxada consertada.

— Será que dá para fazer uma lavoura de novo?

— Basta fazer.

Quando a lâmina encurtada revolveu a terra pela primeira vez, os que esperavam vieram atrás. Diante da ferraria restaram a foice do humano, a faca de couro do povo-fera e a panela do semi-humano, e, dentro do fogo, tudo era o mesmo ferro.

Depois do pôr do sol, no primeiro forno comunitário ferveu um caldo ralo de feijão. Faltavam tigelas, e as pessoas fizeram fila com copos de madeira e tampas de panela; Rosen pôs crianças e doentes na frente, e ninguém contestou.

Aisha sentou-se ao lado da forja e tomou uma colherada do caldo.

— Ficou um monte de gente.

— Ficou.

— Amanhã vem mais?

Kang Mujin não respondeu.

A fumaça era visível de longe. Se houvesse quem procurasse o fogo, viria.

E o mesmo valia para quem quisesse apagá-lo.

Rosen fincou uma tábua ao lado da pedra de alicerce e escreveu os itens com carvão.

Água.

Alimento.

Abrigo.

Trabalho.

Vigília.

Hamon apontou para a última palavra.

— Quem faz a vigília?

Rakan pousou a tigela vazia e levantou-se.

— Hoje eu faço a ronda.

Kang Mujin viu a lama impregnada nas botas dele e o cansaço dos braços que haviam carregado pedras.

— O lado oeste fica comigo.

— Ferreiro cuida é do fogo.

— Do fogo cuida Doria.

Doria ergueu as sobrancelhas.

— Quem decidiu isso?

— Acabei de decidir.

— Hum. Bem, a forja é minha, então não é palavra errada.

Silvana também pousou a tigela.

— Eu assumo as colinas do leste. De lá se enxerga até a trilha da floresta.

Rosen anotou na tábua os três nomes e os horários, e marcou também onde ficariam as tochas e o percurso da ronda.

Não havia leis grandiosas nem muralhas altas.

Mas as pessoas sabiam a ordem da ração, tinham onde dormir e já sabiam que trabalho assumiriam no dia seguinte. Com a chegada dos refugiados, o Baluarte de Aço deixou de ser um pequeno canteiro de obras e começou a tomar a forma de uma comunidade.

A noite desceu.

O fogo da forja baixou, e entre as tendas espalhou-se o som de respirações regulares. A carroça consertada ficou junto ao terreno do armazém, e a enxada de Hamon estava encostada na pedra de alicerce.

Kang Mujin caminhou devagar pela encosta oeste.

Ao estender seu sentido do ferro, os metais dentro do baluarte emergiram como brasas na escuridão.

Os pregos que seguravam as tendas.

O ferrolho da forja.

As três lâminas que as pessoas declararam.

A espada de Rakan em movimento.

As pontas de flecha de Silvana subindo as colinas do leste.

Kang Mujin parou.

Lá embaixo, a noroeste, sentiu um metal estranho.

Ferro envolto em madeira e couro movia-se rente ao chão. Quando um passava, outro o seguia atrás; ao contrário do passo desordenado dos refugiados, mantinham intervalos constantes e seguravam as peças firmes para que o metal não batesse contra metal.

Kang Mujin inclinou-se e pousou a mão no chão.

Para além da terra fria propagava-se um tremor mínimo.

Seis.

Não, eram sete.

À frente vinha um sabre curvo na bainha, e os três de trás portavam pontas curtas de lança. Bem atrás, arrastava-se um objeto cravejado de pregos de ferro.

Não era um instrumento para carregar carga.

Era uma rede para capturar pessoas.

Kang Mujin ergueu-se.

Na escuridão ao norte, a espada de Rakan mudou bruscamente de direção.

Logo depois soou um assobio curto e grave.

Era o sinal de alerta.

A mesma força que quebrara a lâmina da enxada do velho aproximava-se agora daquele fogo.

Fim do capítulo 13

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