Às costas de Kang Mujin, que se preparava para entrar na passagem, Silvana falou em voz baixa.
— Se o sinal se cortar por completo, ou se você não voltar antes de o sol baixar, eu vou atrás.
Kang Mujin assentiu brevemente.
Doria, agachado à sombra de uma rocha, encarava a boca da galeria. Em outros dias teria tido algo a dizer sobre tudo, das escoras da mina até a cor do minério, mas agora apenas esfregava o cabo do martelo de viagem com a mão grossa.
— Bata duas vezes bem forte aí dentro. Se for preciso abrir caminho, eu vou.
— Espero que não seja preciso.
— Hunf. Numa mina não se diz uma coisa dessas. Se não desabar, ótimo; se desabar, a gente abre direito.
Kang Mujin abaixou o corpo e entrou na galeria.
A uns vinte passos da entrada a luz do sol se interrompeu, e em seu lugar a luz avermelhada das lamparinas de minério penduradas na parede lambia fracamente o chão encharcado. A galeria era estreita o bastante para que dois adultos só passassem de lado, e o teto tão baixo que até Doria teria de curvar as costas. Nas escoras de madeira havia mofo preto, e por toda parte se viam marcas de rocha estourada sob pressão, e não era apenas por a mina ser usada havia muito tempo. Na pressa de seguir o veio, as escoras tinham sido erguidas espaçadas demais, e as fendas por onde a água se infiltrava nunca foram vedadas: uma estrutura que punha a produção diária à frente da vida de quem extraía o minério.
Kang Mujin encostou a mão esquerda na parede.
O metal cravado na pedra veio ter à sua palma. O veio de ferro se estendia em diagonal para baixo como uma faixa de um vermelho escuro, e ao lado dele havia pirita de má qualidade misturada a um pouco de cobre. Pelo chão havia talhadeiras partidas e lâminas de picareta gastas, e mais fundo ele sentia dezenas de argolas de ferro, cada uma se movendo a uma velocidade diferente. As rápidas, as lentas, as que quase não se moviam. Ao seguir a vibração das correntes, os passos e as picaretadas das pessoas chegaram à ponta de seus dedos, e eram mais numerosos do que Silvana havia contado.
Kang Mujin avançou até a primeira bifurcação, prendendo a respiração. Da direita vinha o som de rodas de vagonete raspando os trilhos; da esquerda, uma voz áspera e o estalo de um chicote rasgando o ar.
— Encham três vagonetes antes da próxima troca de turno. Os espécimes que não atingirem a cota ficam excluídos da ração de comida.
O tom era sereno, e talvez por isso mesmo o teor da ordem soasse ainda mais nítido.
Kang Mujin colou o corpo a uma reentrância da parede e observou o interior. Dois demônios de pele vermelha e chifres curvados para trás estavam sob uma tocha, e no peito traziam armaduras de placas de ferro estampadas com o mesmo brasão que ele vira na floresta. Era a marca de três fileiras de correntes descendo de uma torre com chifres.
Um dos demônios empurrou com o pé o ombro de um velho humano ajoelhado. O velho tentou se levantar, agarrado ao cabo partido de uma picareta, mas a argola de ferro no tornozelo estava presa por uma corrente curta e ele não conseguiu se erguer direito.
— A ferramenta quebrou.
— Foi por isso que sua produtividade caiu.
— Me dê uma picareta nova e eu encho.
— A perda da ferramenta também é por sua conta.
O demônio soltou o chicote da cintura.
Kang Mujin sentiu a lâmina de picareta partida caída no chão. A têmpera do ferro era grosseira e o carbono estava concentrado de um lado, mas bastaria tê-la aquecido e martelado uma única vez como se deve, antes do uso, para que não quebrasse daquele jeito.
No instante em que o chicote se ergueu, Kang Mujin dobrou os dedos.
A lâmina de picareta saltou do chão e golpeou o cabo do chicote, e a mão do demônio se torceu para o lado. Antes que ele sequer gemesse, Kang Mujin saiu caminhando da escuridão.
— Quem é você?
O outro demônio sacou um alfanje. No momento em que a lâmina deixou a bainha, Kang Mujin leu a espessura daquele ferro e o estado de sua têmpera: o dorso era duro demais e pela espiga se espalhavam fissuras invisíveis a olho nu.
Ele abriu a palma da mão e o alfanje parou na mão do demônio. Quando o outro forçou o braço, a lâmina estremeceu, mas Kang Mujin empurrou a têmpera do metal na direção contrária e, com um estalo curto, a espiga se partiu e a lâmina caiu no chão.
Kang Mujin encurtou a distância e golpeou o plexo do demônio com o martelo. A armadura de placas afundou para dentro, o adversário cuspiu o ar e caiu, e então o demônio do chicote tentou alcançar a trompa de chifre presa à cintura.
A fivela de ferro do cinto se retorceu de repente, e enquanto a argola que prendia a trompa se fechava sobre seus dedos, Kang Mujin avançou e golpeou-lhe o queixo de baixo para cima com o cabo do martelo.
Com os dois demônios caídos no chão, o velho ergueu os olhos para Kang Mujin, e as olheiras fundas e os lábios rachados tornavam difícil adivinhar sua idade.
— O senhor… não é da guarda?
Em vez de responder, Kang Mujin agachou-se diante do tornozelo do velho. A argola de ferro estava endurecida por sangue velho e pó de minério, e no fecho, em lugar de buraco de chave, havia uma cunha cravada: uma estrutura feita para fechar depressa e não abrir com facilidade.
Ele apertou a cabeça da cunha com o polegar.
O ferro vibrou de leve e cedeu para dentro, o encaixe da argola se soltou, e Kang Mujin a abriu para os lados com cuidado, para não tocar na ferida.
— Consegue andar?
O velho olhou para o tornozelo em carne viva e depois se levantou, apoiando-se na parede.
— Se for preciso andar.
— A saída fica para trás. Não saia ainda, e avise os outros em silêncio.
Os lábios do velho se moveram, mas nenhum som saiu, e em vez disso ele tentou pegar o alfanje do demônio caído.
Kang Mujin pisou na lâmina antes.
— Deixe isso aí.
— E se eles acordarem?
Kang Mujin passou a mão pelas armaduras dos demônios, e as bordas das placas de ferro se esticaram, encaixaram-se umas nas outras, envolveram braços e pernas e grudaram nos trilhos do chão. Os dois demônios ficaram presos à linha do vagonete, armadura e tudo.
— Não vão levantar.
O velho recuou para a escuridão, olhando para trás várias e várias vezes.
Kang Mujin encostou de novo a mão na parede, e todo o ferro da galeria se apresentou mais nítido do que antes. As espadas e lanças em posse dos guardas eram treze ao todo, os molhos de chaves nas cinturas eram cinco, e no lado da oficina de superfície havia três bestas reunidas. As argolas de ferro dos escravos, porém, passavam de quarenta, e Kang Mujin empurrou o sentido um pouco mais longe. Além da cordilheira ao sul, num ponto claramente afastado dos outros sinais, havia uma lança sozinha, e, pela ausência quase total de movimento, parecia ser uma sentinela guardando um posto de observação fora da entrada. Como não parecia ter relação com o que acontecia dentro da galeria, Kang Mujin empurrou aquele sinal para um canto da mente e voltou a se concentrar no interior.
Entre todos, um deles se movia de forma especialmente violenta.
Era a galeria inferior à esquerda. Cada vez que a corrente era puxada e afrouxava, uma das argolas se torcia mais do que as outras, e ao lado dela três pontas de lança balançavam depressa.
Kang Mujin apressou o passo.
A inclinação ficou mais íngreme e o ar, mais viciado. Cheiro de água, de suor e de ferro enferrujado se misturavam, e no chão havia manchas de sangue endurecidas em preto junto com pó de minério. Ao chegar à câmara mais abaixo, ouviu xingamentos sobrepostos a um rosnado de fera.
Um homem com orelhas de lobo estava de joelhos.
Sob os cabelos cinzentos emaranhados, uma das orelhas estava rasgada, e no tronco nu havia camadas e camadas de marcas de chicote. No pescoço trazia uma grossa coleira de ferro, e as correntes das mãos e dos pés estavam presas a uma estaca no centro da câmara. Ainda assim, três soldados demônios cercavam o homem em semicírculo sem se atrever a chegar perto.
Aos pés dele havia um cabo de lança partido.
— Abaixe a cabeça, escravo.
O demônio à frente pressionou o ombro dele com a ponta da lança, e, em vez de se curvar, o homem arreganhou os dentes.
— Você só sabe falar comigo porque tem uma coleira no meu pescoço.
A ponta da lança perfurou o ombro e o sangue escorreu, mas o homem não recuou: empurrou o corpo para a frente até a corrente ficar tensa.
— Chega perto uma vez só. Eu arranco sua garganta com os dentes.
O demônio recolheu a lança e chutou o peito do homem. O corpo tombou para trás e a marca negra a fogo no pulso direito ficou à mostra. O brasão queimado no ferro era o mesmo da armadura, e sobre a cicatriz já cicatrizada havia sinais de uma nova queimadura sobreposta. A cada troca de mina e de companhia mercante, a marca de propriedade fora gravada de novo no mesmo lugar.
A mão de Kang Mujin se fechou sobre o cabo do martelo.
Um dos demônios percebeu a presença e virou a cabeça.
— Quem…
Kang Mujin pisou firme no chão.
Os velhos trilhos de ferro que cruzavam a câmara se sacudiram, três pregos de fixação saltaram da pedra e voaram como flechas, atravessando a haste da lança e a manopla do demônio que se virara primeiro, e cravando-os na parede.
Os outros dois avançaram ao mesmo tempo.
Na câmara estreita, as lanças eram longas. A ponta da esquerda buscou primeiro o peito, e a da direita entrou na diagonal para cortar a retirada, mas Kang Mujin se enfiou meio passo para dentro e empurrou a haste da primeira lança com o cotovelo. Ao mesmo tempo puxou para baixo o ferro da ponta, que se cravou no chão, e, pisando naquela haste, golpeou com o martelo o dorso da mão do adversário.
Com o som de ossos se partindo, a lança caiu.
A lâmina do segundo demônio roçou seu flanco. Kang Mujin torceu o corpo, mas o casaco se rasgou ao longo e a ponta fria abriu um corte raso na pele, e o adversário não desperdiçou a brecha: recolheu a lança para golpear de novo.
Kang Mujin não agarrou a lâmina com a mão nua; ergueu a palma e sentiu o ferro lá dentro. O ferro de má qualidade fora endireitado à força, e a têmpera estava estirada para um dos lados, de modo que ele concentrou a força no ponto mais frágil e torceu. A ponta da lança se dobrou de lado, a postura do demônio desmoronou, e o martelo de Kang Mujin passou pela articulação do cotovelo e parou junto à têmpora.
Desviando do corpo que tombava, Kang Mujin foi direto até o demônio preso à parede. Quando o adversário abriu a boca, a gorjeira da armadura se ergueu e fechou-lhe o queixo, e, com o cabo do martelo afundando no plexo, o demônio revirou os olhos e amoleceu.
A câmara ficou em silêncio.
O homem-fera lobo, ainda caído, encarava Kang Mujin, e seus olhos eram de um castanho-dourado; ainda que a fome lhe tivesse escavado as bochechas, só o olhar não havia embotado.
— O que um humano faz aqui?
— Vim soltar as correntes.
— Existe humano que briga com demônio?
— Eu não sou um demônio.
Kang Mujin sentou-se diante dele e examinou primeiro a coleira de ferro no pescoço. Por dentro havia saliências que mordiam a carne, numa estrutura em que a ferida se abria mais quanto mais se puxasse à força. Abrir o ferro em si não era difícil, mas aplicar toda a força de uma vez faria as saliências enferrujadas raspar a carne.
— Não se mexa.
— O que você vai fazer?
— Abrir.
Kang Mujin leu com a ponta dos dedos a temperatura e a espessura da coleira e dividiu a força em várias direções. Primeiro afrouxou a parte encaixada, depois enrolou as pontas das saliências para dentro, arredondando-as, e então abriu a argola devagar, acompanhando a curva do pescoço.
O ferro frio caiu no chão.
O homem não esfregou o pescoço. Em vez disso, ficou observando em silêncio as correntes dos pulsos e dos tornozelos se soltando uma a uma e só depois que a última argola caiu abriu e fechou os dedos algumas vezes.
— Qual é o seu nome?
— Por que perguntar o nome de um escravo?
— Porque você não é um escravo.
As orelhas do homem se moveram muito de leve, e ele percorreu com o olhar o rosto de Kang Mujin, os demônios caídos e as argolas abertas a seus pés.
— Rakan.
— Sou Kang Mujin.
— Então, Kang Mujin. Você vai abrir as portas e mandar todo mundo fugir?
— É essa a intenção.
Rakan soltou um sopro curto, como se aquilo fosse absurdo, um som mais parecido com tosse do que com riso.
— Você sabe quantos estão presos aqui?
— Quarenta e dois.
Dessa vez o olhar de Rakan mudou.
— Como você sabe disso?
— O ferro não sabe se esconder.
Kang Mujin se pôs de pé.
— Se conseguir se mover, reúna os outros. E confirme quantos podem lutar.
Rakan também se levantou, apoiando-se na parede. As pernas, presas por correntes durante tanto tempo, cederam uma vez, mas ele tomou o cabo de lança de um demônio caído e o usou como bengala.
— Você fala como quem dá ordens.
— É um pedido.
— Dá no mesmo.
Rakan resmungou, mas foi imediatamente para a galeria ao lado, e alguns passos adiante perguntou, sem olhar para trás:
— E se nos pegarem durante a fuga?
— Não vou deixar que peguem.
— Como é que eu vou acreditar nisso?
Kang Mujin juntou as armas dos demônios caídos e as pressionou com a mão, e as pontas de lança e os alfanjes se entortaram e se fundiram num único bloco.
— Veja e decida.
Rakan aguçou as orelhas por um instante e voltou a andar.
Kang Mujin saiu da câmara e percorreu o ferro da galeria. Os guardas que derrubara primeiro continuavam presos aos trilhos e as tropas da superfície não se moviam, mas, talvez por se aproximar a hora da troca de turno, ao longe dois molhos de chaves começaram a se deslocar na mesma direção.
Não havia muito tempo.
Ele foi atrás da argola de ferro mais próxima. Em cada galeria, humanos, homens-fera e demi-humanos de chifres estavam caídos diante da rocha ou de pé com a picareta na mão, e, quando Kang Mujin surgia, uns recuavam e outros escondiam as argolas, dizendo que era uma armadilha dos demônios. Kang Mujin não dava explicações longas: dobrava os joelhos, examinava os ferimentos e abria o ferro.
De uma criança com o pulso inchado, partiu a argola ao meio e a retirou de lado; a argola de um velho, em que pele e ferrugem estavam grudadas, ele lavou primeiro com água para amolecer o sangue seco e só então abriu. Os mecanismos de travamento eram todos diferentes, mas a fatura era igualmente grosseira, de modo que dava para abrir sem chave, embora abrir sem ferir a pessoa exigisse mudar a direção da força a cada vez.
Por volta da vigésima, o suor escorria pelas têmporas de Kang Mujin. A bênção do ferro lhe dizia o estado do metal, mas o que mudar e como cabia a ele decidir, e em cada argola a espessura da carne e a posição da ferida eram diferentes, e um erro mínimo na força poderia machucar até os ossos já enfraquecidos. Ele se apressava, mas não apressava as mãos.
— O próximo.
Quando Rakan voltou com as pessoas, havia mais força em sua voz do que no início.
— Vinte e três conseguem andar. Onze se movem com apoio. O resto tem de ser carregado nas costas. Em condições de lutar… sete, contando comigo.
Atrás dele estavam mineiros humanos, homens-fera javali e mulheres demi-humanas de pequenos chifres, e a maioria segurava picaretas ou cabos partidos, mas cada um empunhava sua arma de um jeito.
Kang Mujin falou enquanto abria a última argola.
— O primeiro é não lutar. Mandem os feridos para a bifurcação perto da entrada.
— E deixamos a guarda para trás?
— A tropa do turno seguinte está descendo.
— Então é por isso mesmo que temos de barrar.
— Se colidirmos aqui, a rota de fuga fica bloqueada.
Rakan repuxou os lábios e mostrou os dentes, mas não contestou, como se tivesse julgado que Kang Mujin entendia da estrutura da galeria melhor do que ele.
— Então o que você vai fazer?
Kang Mujin olhou para os trilhos no chão. Os vagonetes carregados de minério estavam parados na rampa que subia até a área de triagem, e os freios estavam enferrujados, mas os eixos ainda serviam. Se os guardas dentro da galeria se juntassem num só ponto, seria possível bloquear o caminho.
— Vou ter de fazer barulho.
Kang Mujin reuniu as correntes que havia soltado. Correntes de comprimentos diferentes se moveram como se rastejassem pelo chão, passaram entre os eixos dos vagonetes e as escoras e se enrolaram com firmeza, e ele desentortou com as mãos duas das travas de freio, deixando apenas uma engatada.
— Levem as pessoas. Se vier um estrondo lá de cima, colem-se na parede.
— E você?
— Vou chamar os guardas que restam.
Rakan barrou-lhe o caminho.
— Vai fazer tudo sozinho?
— A passagem é estreita.
— Eu também sou estreito.
Rakan reajustou o cabo da lança com o ombro ferido, e só de estar de pé as pernas já lhe tremiam, mas não havia nele sinal de recuo.
Kang Mujin olhou para ele por um instante e então pegou o alfanje curto de um demônio caído, e a lâmina era mal equilibrada e o punho pequeno para a mão de Rakan, mas era o melhor entre o que tinham ali. Ele passou os dedos pelo dorso da lâmina, fechando as fissuras microscópicas, e entregou a arma a Rakan.
— Bloqueie apenas quem vier por trás.
Rakan tomou o alfanje.
— Isso não é ordem, é pedido, não é?
— É isso mesmo.
— Então fica anotado como dívida.
De longe se aproximava o som de passos pisando chapas de ferro.
Kang Mujin empurrou um vagonete vazio e o deixou parado no meio da galeria. Pouco depois, quatro guardas demônios apareceram além da curva da passagem, e atrás deles vinham dois soldados com bestas.
O demônio da frente notou as argolas abertas.
— Soem o alar…
Kang Mujin golpeou a lateral do vagonete com o martelo.
Uma vibração grave e surda se espalhou por toda a galeria, e ao mesmo tempo as argolas de ferro das lamparinas de minério penduradas no teto se soltaram e caíram, e, com as luzes apagadas, a câmara mergulhou num instante na escuridão.
As cordas das bestas estalaram.
Kang Mujin sentiu as duas pontas de flecha e estendeu a mão. Uma se cravou na lateral do vagonete, mas a outra não teve a trajetória completamente desviada e roçou seu braço, e uma dor quente se espalhou, mas ele não recuou: empurrou o vagonete para a frente.
Os guardas ergueram as lanças para travar as rodas.
Kang Mujin soltou a corrente enrolada no eixo, e o vagonete, incapaz de vencer o próprio peso, começou a descer a rampa, ganhando velocidade a cada batida das rodas nos trilhos.
— Saiam da frente!
Os demônios se jogaram para as galerias laterais, mas os dois da frente não escaparam e foram empurrados pela chapa dianteira do vagonete contra a caixa de carga no fim da linha.
Estrondo!
A rocha ressoou, poeira despencou do teto, e um estrondo que devia ter chegado até lá fora percorreu a galeria em toda a sua extensão. No meio daquela vibração, Kang Mujin sentiu vagamente que o sinal da lança solitária, que rondava além da cordilheira ao sul, oscilou de repente e parou por completo. Como se a mão que a segurava a tivesse largado, a lança ficou onde estava e não se moveu mais, e era uma sensação estranha, mas a passagem diante de seus olhos vinha primeiro, de modo que Kang Mujin não se prendeu àquele eco e mergulhou na poeira.
Um demônio caído tentou sacar a espada da cintura, mas a bainha estava grudada na armadura e não se moveu, e, quando o martelo desceu sobre seu pulso, um grito irrompeu.
Um soldado que se refugiara na galeria lateral investiu com a lança.
Kang Mujin inclinou a cabeça e desviou da lâmina. Enquanto a ponta lhe roçava a bochecha, ele se enfiou por baixo da haste e empurrou o peito do adversário com o ombro; em seguida enganchou a cabeça do martelo na joelheira e puxou. O demônio perdeu o equilíbrio e Rakan avançou por trás.
O alfanje penetrou entre a armadura e o braço, e Rakan não conseguiu empurrar até o fim por causa dos ferimentos, mas se jogou com o corpo e prensou o adversário no chão.
— Eu disse para bloquear só quem viesse por trás!
— Você veio para a frente.
— Só tem esse caminho aqui!
Enquanto Rakan rosnava, o besteiro restante terminou de recarregar, e o som da corda engatando no gatilho ressoou baixinho na escuridão.
Kang Mujin leu a direção, mas na linha de tiro estava Rakan.
Ele fechou a mão e o gatilho da besta se entortou, impedindo o disparo. No instante em que o soldado, atrapalhado, sacudiu a arma, uma flecha veio da entrada da galeria, atravessou o corpo da besta e a cravou na parede.
— Todos abaixem a cabeça!
A voz de Silvana ressoou através da poeira. Em seguida uma segunda flecha voou e atravessou o ombro do demônio que investia, e Doria vinha correndo, quase batendo a cabeça no teto baixo, brandindo o martelo de viagem.
— Hunf! Que sinal mais escandaloso!
Quando o martelo dele afastou para o lado o escudo do último guarda, Kang Mujin entrou pela brecha aberta e golpeou de baixo para cima o peitoral da armadura, e as placas de ferro se dobraram para dentro e o demônio caiu cuspindo o ar.
Kang Mujin verificou imediatamente o metal ao redor.
Nas passagens próximas não havia nenhuma arma em movimento, e só depois de confirmar isso ele voltou a pensar na lança do sul que parara havia pouco. A lança fora abandonada no posto de observação, mas a adaga na cintura e os pregos das botas da sentinela que deixara aquele lugar se afastavam depressa na direção do posto ao sul. O que ele precisava alcançar naquele momento eram as mais de quarenta pessoas que ainda restavam na escuridão.
— Há quarenta e dois na galeria de baixo. Muitos estão feridos.
Silvana vasculhava a escuridão sem afrouxar a corda do arco, e talvez tivesse entrado direto depois de ouvir a colisão do vagonete, pois sua respiração estava um pouco acelerada, mas a voz não vacilava.
— Os três guardas da entrada foram dominados. Ainda não era o pôr do sol, mas interpretei aquele som como o sinal.
— Fez muito bem.
Doria olhou alternadamente para o vagonete destroçado e os trilhos entortados, e depois alisou a barba com aspereza.
— É a primeira vez que vejo um artesão usar vagonete como sinal. Que pena do eixo.
— Dá para consertar.
— Claro que tem de consertar.
Ele resmungou, mas foi direto para a galeria de baixo. Ao encontrar um velho humano que subia carregando um ferido nas costas, tomou-lhe em silêncio a carga e a picareta, e Silvana, alternando entre o élfico e a língua comum do continente, conduziu as pessoas até a entrada.
Rakan recuperava o fôlego encostado na parede. A ponta do alfanje em sua mão tocava o chão, e o suor frio que escorria da testa descia pelo queixo e se infiltrava na velha cicatriz de coleira em seu pescoço.
Quando Kang Mujin se aproximou, ele ergueu a cabeça.
— Também tinha guarda lá fora?
— Parece que tinha.
— E aquela elfa e aquele anão são seus?
— São meus companheiros.
Rakan ficou um tempo observando Silvana e Doria carregarem os feridos e então virou com a ponta do alfanje a própria argola de ferro caída a seus pés.
— Isso acabou mesmo?
— Aqui, sim.
— Existem outras minas.
A voz de Rakan baixou, e ele ergueu a cabeça e olhou para o fundo escuro da galeria.
— Eu também fui vendido de outro lugar. Antes de vir para cá, as jaulas estavam cheias de gente. Não são só os demônios. Tem quem entregue os outros por dinheiro, e tem quem abra caminho para eles.
Kang Mujin não interrompeu suas palavras.
O fim de uma argola não fazia a corrente inteira desaparecer. As armaduras de placas daquela mina, as armas numeradas, os turnos fixos e as cotas de produção eram todos rastros de uma organização maior, e a sentinela que sumira em silêncio momentos antes também levaria essa notícia até algum ponto dessa organização.
Kang Mujin pegou do chão uma argola de ferro, e por dentro estavam ressecados o sangue e os pelos de Rakan, e ao lado do fecho havia o brasão da torre com chifres, gravado em miniatura.
— Depois me conte o que você sabe.
Rakan estreitou os olhos.
— Depois?
— Primeiro vamos sair.
Kang Mujin virou-se e tomou às costas o ferido mais próximo, uma criança pequena de chifres, tão leve que pesava menos do que um saco de minério. No pulso da criança havia a marca vermelha deixada pela argola de ferro retirada.
As pessoas saíram da galeria em fila. Os que haviam passado muito tempo na escuridão, ao ver a luz da entrada, chegaram a diminuir o passo, e alguns taparam os olhos e se deixaram cair ali mesmo. Ninguém, porém, chorou alto nem comemorou: apenas respiraram o ar de fora, conferiram o rosto uns dos outros e apalparam várias vezes os pulsos libertos.
Kang Mujin permaneceu na galeria até o fim, conferindo o movimento do ferro, e juntou num só lugar as armas dos demônios caídos, entortando-as até se fundirem, e fixou as armaduras aos trilhos para que braços e pernas não se movessem. Onde faltava reforço metálico nas escoras da mina, ele cortou trilhos partidos e os aplicou como remendo, pois libertar as pessoas não podia significar deixar que a galeria desabasse e as engolisse.
Quando saiu, o sol pendia sobre a serra a oeste.
Silvana, que amarrava a ferida de um dos feridos, olhou para Kang Mujin; Doria, sentado numa rocha ao lado da entrada, sacudia a poeira do martelo; e Rakan observava a mina um pouco mais afastado. No pescoço lhe restava a marca da coleira e no pulso a marca a fogo repetida, mas ao menos agora não havia mais nenhum ferro preso a seu corpo.
Kang Mujin tirou do bolso o elo de corrente que recolhera na floresta e a argola que acabara de abrir na mina, e eram ferros de tamanhos diferentes, mas traziam o mesmo brasão estampado.
Doria olhou para aquilo e torceu a barba.
— Foram feitos no mesmo lugar.
— Foram.
Silvana parou as mãos que atavam a bandagem.
— Isso quer dizer que não termina numa mina só?
Kang Mujin apertou os dois elos sobrepostos, e o ferro frio se chocou dentro de sua mão, produzindo um som grave.
— A corrente segue adiante.
Quando ele se voltou para a mina, o brasão da torre com chifres gravado na rocha acima da entrada afundava, negro, na sombra do entardecer.
— Vou ter de seguir até o fim.
Não havia como saber o paradeiro da sentinela que escapara para o sul. Onde quer que chegasse a notícia que ele levava, ainda naquela noite alguém saberia que esta mina estava vazia.
Participe da discussão