O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 6 — A Emissária da Floresta

As sobrancelhas de Doria se contorceram.

— Observar?

— Isso mesmo.

Silvana deu um passo para dentro da forja. A bota tocou o pó de pedra, mas quase não houve som, e o olhar dela percorreu a fornalha, a bigorna e as tenazes penduradas na parede antes mesmo de chegar a Kang Mujin, detendo-se um pouco mais diante das sete placas fracassadas sobre a bancada.

— Os senhores de orelhas compridas chamam de missão diplomática vir bisbilhotar a fornalha alheia?

— Não recebi ordem de roubar técnicas.

— Então o que pretende ver?

— Vou confirmar se este humano é mesmo o homem dos rumores.

Silvana encarou Kang Mujin de frente.

— Ouvi dizer que ele dobrou o grande mestre de Stonebeam, que manuseia metal derretido com as mãos nuas e que forjou uma espada capaz de partir rochas.

Doria bufou de escárnio.

— As três coisas estão erradas.

— Imaginei que estivessem.

— O quê?

— Os rumores dos que têm vida curta costumam crescer mais depressa que os fatos.

Enquanto Doria apertava a mão que segurava o martelo, Kang Mujin ergueu com a tenaz a peça de teste que estava sobre a bigorna e a devolveu à fornalha. O ferro não esperava por conversas, e a temperatura interna já estava caindo.

— Observe.

Kang Mujin segurou o cabo do fole.

— Mas, se atrapalhar o trabalho, terá de sair.

Os olhos de Silvana se estreitaram muito de leve.

— Diz o mesmo a uma emissária do Conselho dos Anciãos?

— Diante da fornalha, somos todos iguais.

Doria deixou escapar uma risada por entre a barba.

— Dessa eu gostei. A fornalha é minha, então a decisão final é minha. Se atrapalhar, eu mesmo a ponho para fora.

Silvana olhou por um instante de um para o outro e recuou para junto da parede da forja.

— Seguirei as regras.

Quando Kang Mujin moveu o fole, o ar penetrou entre as camadas de carvão e a chama subiu por um instante antes de baixar. Como a borda da peça de teste começava a clarear primeiro, ele girou a tenaz e voltou o dorso mais grosso para o coração do fogo. Nas pontas dos dedos, a temperatura do ferro chegava mais nítida que a cor, e a diferença entre a superfície e o centro ainda era grande. Se a tirasse agora, a parte de fora se soldaria e a de dentro racharia.

Doria também examinou a luz do fogo.

— Mais um pouco?

— Vou soprar dez vezes mais.

— Nove bastam.

— O carvão é novo. São dez.

Doria não respondeu. Quando o décimo sopro entrou, ele arrancou a tenaz e retirou a peça de teste.

O martelo desceu.

Clang. Clang. Clang.

Do lado oposto, Kang Mujin pressionava as quinas com um martelo pequeno. Quando Doria unia as fibras com toda a força, ele abria caminho para que os vazios restantes no interior escapassem, e a fibra do metal, invisível aos olhos, era sentida na mão como uma corrente de água. Se batesse fundo demais, as camadas deslizavam, e se batesse fraco, restavam impurezas.

Enquanto os martelos dos dois soavam alternadamente, Silvana não disse nada.

Quando Kang Mujin mergulhou a peça na água, subiu vapor. Ele a retirou antes de esfriar por completo, deixou o calor residual evaporar a umidade e desbastou a superfície com a pedra de amolar. Então surgiu um padrão tênue e uniforme.

Doria a examinou contra a luz da lamparina.

— Melhor que antes.

— Há uma sobreposição na borda.

— Onde?

Kang Mujin apontou com a ponta da unha uma fresta mais fina que um fio de cabelo. Doria olhou demoradamente e estalou a língua.

— Hum. E você vai e acha isso de novo.

Silvana se afastou da parede.

— Posso ver?

Doria não estendeu a peça.

— Entende de ferro?

— Sei ao menos por que uma ponta de flecha se quebra.

— Isso não basta.

Kang Mujin tomou a peça da mão de Doria e a entregou a Silvana.

— Não a quebre. Ainda preciso registrá-la.

Silvana recebeu o pedaço de ferro com as duas mãos e examinou, um após o outro, o padrão da superfície e as duas marcas gravadas.

— Qual delas é a sua?

Kang Mujin apontou a linha quebrada duas vezes que formava a cabeça e o cabo de um martelo, e o traço curto no centro, logo abaixo, que formava a bigorna.

— É como diziam. Ouvi que deixa uma marca em cada coisa que faz.

— Deixo meu nome naquilo por que respondo.

— E não para espalhar sua fama?

— Se quebrar, é preciso saber quem fez errado.

O dedo de Silvana parou sobre a marca. Ela logo devolveu a peça, e a expressão era a mesma do início, mas o tempo em que olhou para Kang Mujin ficou um pouco mais longo.

— O Conselho dos Anciãos desconfia do ferro humano.

— Há um motivo?

— Os humanos derrubam as árvores da floresta para fazer carvão e revolvem a terra para arrancar minério. Quando obtêm mais ferro, querem mais terra. Quando obtêm mais terra, voltam a procurar mais ferro.

Doria bufou pelo nariz.

— Reconheço a ousadia de falar mal de minas diante de um anão.

— Os anões cumprem o pacto que firmaram com a montanha. Ao menos sabem até que profundidade podem derrubar.

— E os humanos não sabem?

— Muitas vezes souberam e ainda assim não pararam.

Silvana prosseguiu, voltada para Kang Mujin.

— Você fez ferramentas de lavoura para uma vila humana e transmitiu um novo método aos anões. Os anciãos se perguntam qual será o próximo passo. Se derrubará as árvores da floresta para multiplicar as fornalhas, ou se procurará nossos veios de prata.

— Uso apenas o necessário.

— E quem define o necessário?

— Quem usa e quem paga o preço.

— A floresta não pode dizer o preço dela.

Kang Mujin não retrucou. Também na vida anterior, muitas árvores se consumiam para obter uma fornada de bom carvão, as minas revolviam o solo e os fornos cuspiam fumaça. Fazer um objeto era também fazer desaparecer a matéria sob outra forma.

Ele pousou a peça de teste ao lado das fracassadas.

— Então veja e julgue.

Silvana não assentiu.

— É o que pretendo.

A partir daquele dia, ela permaneceu perto da forja. De manhã, observava Kang Mujin escolher o carvão. À tarde, acompanhava as mãos que separavam o minério junto com Doria. E também estava ali quando um lavrador da vila apareceu com uma enxada quebrada.

A lâmina da enxada tinha a ponta afinada e o meio rachado. Kang Mujin não acrescentou ferro novo. Dobrou a parte gasta para recuperar a espessura e temperou apenas a ponta do gume, num banho curto.

O lavrador perguntou:

— Não seria melhor fazer uma nova de uma vez?

— O cabo está inteiro e o corpo ainda serve.

— Eu posso pagar.

— Não é preciso.

Kang Mujin deixou uma pequena marca sob a lâmina da enxada. Silvana ficou calada até o lavrador ir embora e só perguntou quando caiu a noite.

— Se tivesse feito uma nova, poderia ter cobrado mais.

— Derreter ferro que ainda serve é desperdício.

— Não há como saber até quando você agirá assim.

— Isso nem eu sei.

Os olhos de Silvana baixaram, frios.

— Está dizendo que não confia em si mesmo?

— As pessoas mudam. Os objetos ficam. Então basta olhar o que fica.

Kang Mujin lavou as mãos sujas de pó de carvão.

— Duram mais que as palavras.

No terceiro dia, Kang Mujin desceu com Doria até o riacho ao pé da montanha. Pretendia construir um novo tanque para acertar a temperatura da água de têmpera, e Silvana os seguiu, mantendo sempre a mesma distância.

A floresta se estendia entre a trilha montanhosa dos anões e o território élfico. Sob as coníferas grossas, a luz do sol se partia em fios finos, e Silvana caminhava sem pisar no caminho, escolhendo os vãos entre raízes e pedras. Sempre que roçava com as pontas dos dedos um galho pendente, as folhas se moviam de leve.

Kang Mujin examinava o lugar do tanque quando parou.

Sentiu metal.

Além da encosta a nordeste, várias pontas de flecha balançavam depressa, e junto delas havia placas de ferro de armaduras e uma corrente grossa. O movimento não era regular. Sempre que o metal pesado da frente parava, os elos leves de trás se chocavam entre si.

Era uma coluna arrastando gente.

Entre elas havia três pontas de flecha com prata na liga. Tinham o formato fino e longo que os elfos usam.

No mesmo instante, Silvana ergueu a cabeça e levou a mão ao arco.

— Os espíritos estão inquietos.

— É a nordeste.

— O que há lá?

— Seis armaduras. Uma corrente. Pelo menos três pessoas sendo arrastadas.

O rosto de Silvana endureceu.

— Como sabe?

— O ferro está se movendo.

Kang Mujin prendeu no cinto o martelo que trouxera para o tanque, e Doria sacou o machado pequeno.

— Vamos ver.

Silvana já encaixava a flecha na corda.

— Eu vou na frente.

Quando ela correu para o interior da mata, o som dos passos desapareceu logo. O manto verde apareceu duas vezes entre as árvores e então se misturou à floresta sem deixar rastro.

Kang Mujin e Doria cruzaram a encosta sem perder o movimento do metal. Enquanto a distância diminuía depressa, a corrente raspava o chão a cada quatro passos e, de vez em quando, quando a coluna parava, uma das armaduras se virava para trás.

Logo o caminho apareceu entre as árvores.

Seis soldados armados, de pele escura como se esfregada com cinza, arrastavam três elfos. Chifres curvados para trás a partir da testa e armaduras cinzentas saltaram à vista, e os pulsos dos prisioneiros estavam ligados por uma única corrente. O elfo mais atrás mancava de uma perna e sangrava no tornozelo.

O demônio que ia à frente puxou a corda.

— Mantenham o ritmo. Se a mercadoria se estragar, recebemos menos.

O elfo caído cerrou os dentes e se levantou.

Silvana estava agachada num galho acima do caminho. A mão esquerda que segurava o arco tremia. Não era por causa do vento.

Kang Mujin sentiu a estrutura das armaduras. Eram lamelares, com placas de ferro unidas por tiras de couro, grossas no peito, mas abertas nas axilas e atrás dos joelhos. As armas eram quatro sabres curvos e duas lanças, todas bem conservadas, com os gumes até untados de óleo.

Não eram simples bandidos.

Quando Silvana soltou a corda, a flecha atravessou o dorso da mão do demônio da frente, e a alça da corrente caiu no chão.

— Emboscada!

Os demônios se dispersaram no ato. Dois se colaram aos prisioneiros, três ergueram os escudos para cobrir o alto, e o último puxou uma trompa de chifre.

Kang Mujin estendeu a mão.

O aro de ferro que cercava a ponta da trompa vibrou como se estivesse sendo puxado dentro da mão dele. Quando ele torceu o sentido, o aro fino se contraiu e esmagou o bocal.

O demônio soprou, mas nenhum som saiu.

Doria irrompeu de baixo do caminho.

— Uns sujeitos que só sabem brandir correntes agora andam armados de ferro!

O machado cravou na borda de um escudo e o impacto empurrou um dos demônios.

Kang Mujin correu direto para os prisioneiros. Um demônio de sabre bloqueou o caminho e golpeou de lado, mas ele recuou meio passo, escapou da trajetória e bateu com o martelo no dorso da lâmina.

Clang!

O impacto subiu pelas pontas dos dedos. A lâmina era dura, mas fora resfriada bruscamente demais, e uma das fibras que iam do gume ao cabo já estava rompida.

Quando Kang Mujin bateu no mesmo ponto outra vez, o sabre se partiu em dois.

No instante em que o demônio olhou para a lâmina quebrada, Kang Mujin empurrou o peito dele com o ombro e o derrubou. Foi atrás logo em seguida e desceu a cabeça do martelo na lateral do elmo, e o corpo do demônio amoleceu.

Uma lança veio de lado.

Kang Mujin puxou a corrente. Os elos estendidos no chão se ergueram como uma serpente e enrolaram a haste, e a ponta da lança se desviou a um palmo do flanco dele. Conseguia sentir o metal, mas não movia a haste de madeira, então torceu o corpo mantendo a corrente esticada.

Quando o demônio da lança perdeu o equilíbrio, uma flecha se cravou na fresta da armadura abaixo do pescoço.

Silvana encaixou a flecha seguinte, e a mão dela já não tremia.

Os três demônios restantes mudaram de formação. Enquanto dois seguravam Doria, um ergueu a lâmina contra os prisioneiros.

— Se chegarem perto, eu descarto a mercadoria!

Os passos de Kang Mujin pararam.

O demônio encostou o gume no pescoço do elfo. A corda do arco de Silvana se retesou, mas prisioneiro e inimigo se sobrepunham e não havia ângulo.

— Larguem as armas.

O demônio disse.

Kang Mujin pousou o martelo, e Doria, rangendo os dentes, baixou o machado.

O canto da boca do demônio subiu.

Kang Mujin sentiu o interior da lâmina. O gume estava encostado no pescoço do elfo, e no cabo havia um pino fino de ferro, do comprimento de duas falanges.

Ele regulou a respiração uma vez e fechou a mão.

O pino entortou para o lado e o cabo estourou dentro da mão do demônio. No instante em que os dedos se abriram, Kang Mujin chutou o martelo do chão com o peito do pé e o agarrou.

Um passo.

O martelo acertou o cotovelo do demônio.

Dois passos.

O martelo, na volta, subiu contra o queixo, e o demônio tombou para trás.

Quando o machado de Doria empurrou um escudo para o lado, duas flechas de Silvana voaram em sequência. A primeira atravessou a fresta da armadura na coxa, a segunda, o pulso que segurava a lâmina.

O último demônio fugiu.

Kang Mujin não o perseguiu. Estendeu a mão para a corrente caída no chão. Os elos deslizaram pelo caminho e enrolaram o tornozelo do fugitivo, e o demônio caiu de cara no chão.

Doria se aproximou devagar e bateu na nuca dele com as costas do machado.

— Eu estava no meio de um trabalho na minha fornalha. Agradeça a sua sorte.

A floresta silenciou.

Kang Mujin recolheu primeiro as armas dos demônios caídos. Todos ainda respiravam, e só depois de confirmar que nenhum tinha condições de voltar a lutar ele se aproximou dos prisioneiros.

Os três elfos tentaram recuar, mas a corrente repuxou e os pulsos de uns sacudiram os dos outros.

— Vou procurar a chave.

Quando Kang Mujin falou, o elfo da frente balançou a cabeça.

— Eles a engoliram. Para que não fugíssemos…

Kang Mujin segurou a corrente.

Era ferro frio e áspero. Usada muitas vezes, tinha o interior dos elos gasto, muitas impurezas e soldas malfeitas. Abri-la à força machucaria os pulsos.

Em cada elo, ele procurou o ponto onde a fibra estava rompida, pressionou com o polegar e o indicador e empurrou o metal devagar para os dois lados.

Criic.

Quando o elo se abriu com um atrito abafado, os elfos prenderam a respiração.

Kang Mujin soltou as correntes dos três, um a um, e por fim examinou o tornozelo do elfo ferido. Dentro do ferimento havia cravado um pequeno fragmento de ponta de flecha.

Quando aproximou os dedos, a posição do fragmento com prata na liga ficou nítida.

— Vai doer um pouco.

— Já dói o bastante.

O elfo respondeu com voz seca.

— Então serei rápido.

Kang Mujin moveu o metal exatamente pela direção em que ele havia entrado. Ajustou o ângulo aos poucos para não revolver mais a carne, e a ponta da flecha saiu junto com o sangue.

Silvana se ajoelhou e pousou a mão sobre o ferimento. Ela sussurrou algo em élfico grave, as folhas ao redor se inclinaram todas de uma vez, e uma luz verde-clara escorreu por entre os dedos até o sangue parar.

— São a patrulha do Freixo do Oeste.

A voz de Silvana estava mais baixa do que antes.

— Perdemos contato com eles há dois meses.

Um dos elfos resgatados reconheceu o emblema de prata dela e levou a mão trêmula ao peito.

— Emissária. Há outros.

— Onde estão?

— Na mina da fronteira. Não são só elfos. Humanos, homens-feras… havia também crias de raças com chifres e caudas.

Kang Mujin baixou os olhos para o elo aberto.

Por dentro havia manchas de um vermelho escuro, sobrepostas em camadas. Não eram marcas recentes, o que significava que a mesma corrente vinha prendendo os pulsos de muita gente.

Silvana amparou o ombro do prisioneiro.

— Quantos são?

— Não sei. Havia gente também no fundo das galerias. Faziam extrair minério até de noite. Quem caía não voltava para fora.

O vento passou entre as árvores.

Kang Mujin examinou as armaduras dos demônios capturados. Por dentro das placas peitorais estava estampado o mesmo brasão, uma torre com chifres da qual desciam três fileiras de correntes, e as armas traziam até números gravados.

Era tropa abastecida e movida por ordens.

A caça a escravos não era crime de uns poucos. Alguém planejava, distribuía equipamento e administrava as rotas de transporte.

Kang Mujin apanhou um dos sabres dos demônios. Na seção quebrada apareciam grãos grosseiros. Era ferro forte, mas tratado com pressa. Marca de quem cortou tempo para produzir muito.

Silvana olhou para ele.

— Você não perguntou o motivo.

— Que motivo?

— Por que era preciso salvá-los.

Kang Mujin pousou o sabre.

— Porque estavam presos.

— E nem eram humanos como você.

— A corrente de ferro não escolhe raça.

Os dedos de Silvana que seguravam o arco se abriram devagar. Ela ficou um tempo sem dizer nada e então se voltou para os seus, os que haviam sido resgatados.

— Preciso levá-los pela estrada do Conselho dos Anciãos. É preciso tratá-los e ouvir seus testemunhos.

— Vá.

— Venha comigo também.

Kang Mujin olhou para Silvana.

— A observação terminou?

— Não. Mas já tenho motivo de sobra para relatar o que observei.

Ela falava ainda com voz formal. O rosto não era o de quem perdeu a desconfiança dos humanos, mas, ao contrário de quando pisou pela primeira vez na soleira da forja, agora o corpo dela não se interpunha entre Kang Mujin e os resgatados.

— Vou apresentá-lo ao Conselho dos Anciãos. Nem todos os anciãos concordarão com o meu julgamento.

— Não importa.

— E a nossa desconfiança em relação aos humanos também não desaparecerá de uma vez.

— Não precisa desaparecer.

Silvana ouviu aquilo em silêncio.

— Você não quer a confiança dos outros?

— Confiança não se recebe por pedir.

Kang Mujin pegou o elo aberto e o guardou na bolsa presa à cintura.

— Ela se forja e se acumula.

Doria, amarrando juntos os demônios caídos, se meteu na conversa.

— Isso demora mais que o ferro. Nem a têmpera pega na teimosia dos orelhudos.

Silvana olhou para Doria, mas não revidou. Em vez disso, o canto dos lábios se mexeu de um modo quase imperceptível, e Kang Mujin não teve certeza se aquilo era um sorriso.

Eles ampararam os feridos e voltaram à vila dos anões, e os demônios capturados foram trancados numa câmara de pedra separada. Doria declarou que não aceitaria interferência de ninguém diante da fornalha, fez e entregou apenas as facas e pinças necessárias ao tratamento e fechou a porta.

Quando a noite já ia alta, Silvana veio até a forja.

Kang Mujin desbastava a seção do elo, e um pó preto caía sobre a pedra de amolar.

Silvana abriu sobre a bancada um velho mapa de couro. Entre o leste da floresta e a cordilheira da fronteira havia uma linha vermelha traçada.

— Cruzei os testemunhos dos meus.

Ela apontou um ponto do mapa.

— É bem provável que a mina para onde o bando de caçadores ia seja esta.

Kang Mujin olhou o mapa. Ficava a dois dias da floresta. Pela trilha da montanha levaria três dias, e cortando pelo vale dava para chegar em um dia e meio.

— E a guarda?

— Vinte, só os confirmados. Na prática devem ser mais. Não dá para saber quantos estão dentro das galerias.

Silvana não tirou o dedo do mapa.

— Se eu relatar ao Conselho dos Anciãos, abrirão uma deliberação. Levará tempo decidir se enviam uma patrulha ou se primeiro reforçam a defesa da floresta.

— Quanto tempo?

— Quinze dias, no melhor caso.

Kang Mujin parou de amolar. As manchas no interior do elo apareceram sob a luz do fogo.

Em quinze dias, o ferro podia esquentar e esfriar dezenas de vezes. O corpo de quem estava preso nas galerias não aguentaria tanto.

— Mostre-me o caminho.

O olhar de Silvana se deteve nas mãos dele.

— Pretende ir sozinho?

Do fundo da forja veio a voz rouca de Doria.

— Quem disse que ele vai sozinho?

A porta se abriu e Doria apareceu com um martelo de viagem e ferramentas pequenas de fornalha às costas.

— Se é mina, deve ter ferro. Não suporto ver gente extraindo de qualquer jeito.

Kang Mujin pousou o martelo ao lado do elo.

Silvana olhou de um para o outro e, pouco depois, traçou com o dedo uma linha sobre o caminho do vale no mapa.

— Por aqui é possível evitar os postos de vigia dos demônios.

— Pode nos guiar?

— Sou emissária do Conselho dos Anciãos. Devo colocar a segurança dos meus acima de tudo.

Ela dobrou o mapa e o guardou junto ao peito.

— Por isso, vou junto.

O carvão desabou dentro da fornalha e uma pequena faísca subiu.

Kang Mujin pegou, um a um, as tenazes, o martelo e a faca curta pendurados na parede, e por último enfiou o elo aberto no fundo do bolso.

Antes que a madrugada chegasse, os três partiram rumo à mina.

Fim do capítulo 6

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