— Aquele veio… é diferente de um lado para o outro, mas está unido.
Os velhos juízes levaram as duas espadas direto para a bancada de testes. Na prova de flexão, a lâmina larga de Doria suportou o peso e voltou reta, e a de Kang Mujin curvou-se mais fundo, mas o fio rígido e o dorso tenaz repartiram a carga.
Na prova de corte, a diferença ficou nítida. A espada de Doria despedaçou couro e feixes de palha como se fossem armadura, e a de Kang Mujin cortou seis camadas de couro numa linha só, sem grandes movimentos. Nenhuma das duas apresentou falha.
Doria apontou para uma grossa barra de ferro que não constava dos itens oficiais.
— Corte aquilo também.
Kang Mujin pôs a mão na primeira barra e baixou a espada.
— Tem um defeito. Troquem por uma nova, por favor.
Quando cravou o cinzel, uma linha negra escondida veio à tona. Doria trouxe da própria forja uma barra nova, tirada três dias antes.
— Se esta também tiver defeito, começo destruindo a minha forja.
— É bom ferro.
A espada de Kang Mujin penetrou até a metade da barra no primeiro golpe. O fio não lascou, e o impacto escoou pela linha de fronteira até o dorso. Quando ele bateu de novo no mesmo ponto, a barra se partiu.
Doria examinou pessoalmente a barra partida e o fio de Kang Mujin. Não negou o fato: a sua própria espada era mais pesada e melhor para quebrar armaduras, mas a de Kang Mujin, que separara e depois unira as naturezas do fio e do dorso dentro do mesmo material e do mesmo prazo, havia resistido a limites mais amplos.
O velho juiz declarou:
— O vencedor deste duelo é Kang Mujin.
O pátio silenciou, e nem vivas nem vaias saíram de imediato. Como um mestre da casa Stonebeam fora derrotado por um humano forasteiro, os anões olharam primeiro para Doria, como se esperassem saber por qual boca deviam aceitar aquele fato.
Doria contemplou a espada de Kang Mujin por um bom tempo, o queixo endurecido sob a barba, e a mão direita foi até a cintura e parou. Parecia raiva, e também parecia que ele refazia mentalmente as marcas de martelo que lhe haviam escapado, e Kang Mujin não o apressou. A derrota era um bloco de ferro que ninguém podia receber no lugar do outro, e tocá-lo quente só deixava queimadura.
Doria finalmente falou.
— Eu disse que minha espada não tinha falha.
— É verdade.
— A sua tem falhas. O cabo nem está acabado, e um dos lados do fio precisa ser afiado de novo.
— É verdade.
— E mesmo assim eu perdi.
Kang Mujin pensou por um instante.
— Os usos eram diferentes.
— Não se esquive com essa frase.
A voz de Doria engrossou. Ele caminhou até a bigorna, pegou a própria espada, tomou também a de Kang Mujin e pôs as duas lado a lado.
— Eu fiz a melhor espada que sei fazer. Você fez outra espada, aquela em que o ferro é capaz de se tornar.
Doria bateu no peito com o punho.
— Doria, da casa Stonebeam, reconhece diante de testemunhas. Nesta têmpera, eu perdi.
A declaração foi feita uma só vez, mas as paredes de pedra em volta do pátio pareceram devolvê-la. Os discípulos de Stonebeam baixaram os martelos primeiro, e até os artesãos das outras forjas soltaram as mãos das bancadas. Os olhares que até havia pouco procuravam defeitos na espada do humano forasteiro iam e vinham entre a barra de ferro cortada e o fio intacto.
O velho juiz trocou a posição das duas espadas. Passou a placa de vencedor, que estava diante da espada de Doria, para a frente da espada de Kang Mujin, e cravou fundo uma marca de martelo na placa de registro. Ao som da lousa de pedra ressoando, um jovem aprendiz na beira do pátio endireitou as costas sem perceber.
Foi o momento em que Doria selou a derrota, empenhando o próprio nome e a própria casa. Só então explodiu o murmúrio dos anões, e entre a surpresa e o descontentamento espalhou-se uma breve exclamação de espanto. Até os que viam Kang Mujin como atração de feira já não conseguiam apontar para a espada dele como quem aponta para um espetáculo.
A respiração dos anões se soltou de uma vez, mas Doria não parou por aí, e ele se plantou diante de Kang Mujin. Sua altura chegava ao peito de Kang Mujin, mas os ombros forjados diante da fornalha eram largos como rocha.
— Quero aprender o seu modo de ver o ferro.
— O modo de ver é difícil de ensinar.
— Eu sei. E sei também que você vê com as mãos, não com os olhos.
Doria apontou para a mão direita de Kang Mujin.
— Ainda assim, deve haver uma ordem no martelar. Deve haver a hora de tirar do fogo, deve haver um jeito de deixar o carbono, e há de haver um motivo para você passar a argila.
— Há.
— Ensine.
Os anões em volta murmuraram, pois não parecia coisa leve um artesão da casa Stonebeam pedir ensinamento a outro ferreiro.
Kang Mujin olhou para Doria. Havia pó de carvão emaranhado na barba, o avental estava queimado em vários pontos, e sobre os calos do dorso da mão sobrepunham-se cicatrizes antigas de queimadura. Não havia como a derrota não doer, mas Doria não desviava os olhos da espada, e era um bom artesão.
— Em troca, tenho uma condição.
Doria arregalou os olhos.
— Condição?
— Eu também vou aprender.
— O quê?
— Na barra de ferro que você fez quase não sobraram marcas de martelo. O seu modo de dobrar e soldar também é diferente do que eu conhecia. E o caminho do ar na sua fornalha era bom.
A boca de Doria se abriu um pouco.
Kang Mujin prosseguiu.
— Basta ensinarmos um ao outro.
Houve um breve silêncio, e então Doria jogou a cabeça para trás de repente.
— Kuahahaha!
A risada bateu na parede da montanha e ecoou, e Doria deu um tapa forte no braço de Kang Mujin com a mão grossa.
— Você entende do gosto do ferro! Ótimo. Tire da minha forja tudo o que conseguir tirar. Eu também vou arrancar de você até o último punhado de argila.
Kang Mujin sacudiu o braço dormente.
— Diante da fornalha, eu não vou atrapalhar.
A risada de Doria parou de repente.
— Isso é óbvio. Diante da minha fornalha, quem pega a tenaz errada não tem mestre nem nada.
— Comigo é igual.
Os dois se encararam por um instante, e quando Doria estendeu a mão, Kang Mujin a apertou. O contato de calo contra calo era mais certo que palavras.
A partir daquele dia, os dois passaram a dividir uma mesma fornalha. Doria mostrava o seu método de dobrar o ferro, apontando a direção por onde as impurezas escapavam e o ponto em que o martelo tocava por último. Kang Mujin ensinava a mistura da argila e a ordem da têmpera diferencial, e ia dizendo, a cada vez, os defeitos internos que percebia graças à bênção. Os corpos de prova rachavam, entortavam e perdiam o veio, vezes sem conta. Doria abria com as próprias mãos um sulco em cada peça fracassada, deixando ali registrada a causa.
— Guarde tudo. O ferro que falhou fala mais.
Passados alguns dias, saiu um corpo de prova em que a têmpera diferencial de Kang Mujin se somava ao aço de onde o método de dobra de Doria havia expulsado as impurezas. A linha de fronteira estava mais difusa que na espada anterior, mas o impacto se espalhava de forma mais uniforme. Doria cravou o brasão de Stonebeam numa das pontas e estendeu o cinzel.
— Marque a sua também.
Kang Mujin gravou, ao lado do brasão, uma linha quebrada que lembrava um martelo e uma bigorna.
Toc. Toc. Toc.
As duas marcas ficaram lado a lado no mesmo pedaço de ferro. Doria não vendeu nem escondeu aquele corpo de prova, e o deixou sobre uma prateleira do depósito.
Kang Mujin concentrou-se em tirar da fornalha o oitavo corpo de prova. A cor era um laranja claro, as chamas na superfície não se alongavam, e a temperatura interna havia subido por igual.
— É agora.
O martelo de Doria desceu.
Cang.
No instante em que as fagulhas se espalharam entre os dois, Kang Mujin sentiu um leve sinal de metal fora da ferraria.
Era lá embaixo, na trilha da montanha, e três peças leves de metal balançavam no mesmo intervalo. Diferente das ferraduras de um cavalo, moviam-se no ritmo dos passos de alguém. Uma delas eram pontas de flecha finas e compridas, outra era uma espada curta à altura da cintura. A última era um ornamento de prata em forma de folha.
Doria também parou o martelo.
— O que foi?
Enquanto Kang Mujin olhava para além da porta aberta, o anão que guardava a trilha subiu correndo.
— Temos visita!
— Quem é, para você gritar assim no meio do trabalho?
— É um elfo. E ainda por cima traz o brasão do Conselho dos Anciãos.
Doria alisou a barba.
— O que os senhores de orelha comprida vieram fazer até aqui?
Kang Mujin devolveu o corpo de prova ao lugar com a tenaz, e o ferro ainda não havia esfriado.
Nesse momento, uma sombra longa e silenciosa cobriu a entrada da ferraria. Uma elfa de manto verde-escuro estava parada além da soleira, com um arco às costas e, no peito, um distintivo de prata em forma de folha. O olhar dela passou primeiro por Doria e parou sobre o corpo de prova em que estava gravada a marca de Kang Mujin.
— Vim encontrar o humano chamado Kang Mujin.
Era uma voz lenta e nítida.
Kang Mujin pôs o ferro em brasa sobre a bigorna.
— Sou eu.
Os olhos da elfa se voltaram para ele, e neles havia mais dúvidas a esclarecer do que boa vontade.
— Sou Silvana Eilen, emissária do Conselho dos Anciãos dos elfos da floresta.
Ela disse.
— Recebi a ordem de observá-lo.
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