O cavalo que surgiu da curva do caminho arfava com a respiração misturada de espuma, e o homem sobre ele, envolto num manto puído, puxou as rédeas. Assim que reconheceu o grupo e a carroça, desceu da sela de imediato. Sobre a cota de malha havia placas de ferro de tamanhos e tons diferentes, e no escudo do braço esquerdo via-se nítida a marca de algo que fora raspado.
Ele parou a dois passos de Kang Mujin, com a mão direita perto da espada na cintura, mas não a sacou.
— Vieram da mina?
Antes de responder, Kang Mujin examinou o equipamento do homem. A armadura era velha, mas não tinha ferrugem, e as correias de couro guardavam marcas de óleo recém-aplicado. A borda do escudo havia rachado várias vezes e fora reforçada com pregos de ferro. Eram objetos que o dono cuidava todos os dias.
— Viemos.
O olhar do homem percorreu a carroça carregada de correntes rompidas e os libertos parados atrás dela. Quando viu Rakan, com a cicatriz da coleira de ferro no pescoço, seu maxilar se enrijeceu, mas logo afastou a mão da espada e mostrou as palmas vazias.
— Sou Rosen Cardier. Fui cavaleiro da marca ocidental, e agora percorro os postos que restaram, enviando refugiados para o leste.
‘Fui.’
Kang Mujin ouviu o passado colado àquela palavra. Um homem de armadura inteira e espada à cintura não dizia que era cavaleiro, dizia que fora.
A flecha de Silvana continuava apontada para o peito de Rosen.
— Por que nos seguiu?
— Mandei uma patrulha para o lado da mina e confirmamos fumaça negra. Logo depois vimos um soldado demônio fugindo pela estrada sul. Ele nos leva pouco mais de duas horas de vantagem. Se alcançar a cavalaria do posto sul, o relato chega ao comando avançado de Grimoire antes do meio-dia de amanhã, e, se for rápido, ao anoitecer uma tropa de perseguição fecha esta estrada.
Rosen moveu o olhar como se contasse o número do grupo e depois o trouxe de volta a Kang Mujin.
— Eu precisava saber quem tinha atacado a mina.
— E o que pretendia fazer depois de saber?
— Se fossem inimigos, detê-los. Se fossem refugiados, guiá-los.
Rakan ergueu a faca curta. Era um objeto feito às pressas na mina, mas, na mão dele, parecia uma espada de lâmina curta.
— Se formos inimigos, vai nos deter sozinho?
— Posso ganhar tempo.
A resposta de Rosen foi serena e não soou como bravata, mas Kang Mujin sentia a fissura escondida dentro da espada dele. No meio da lâmina corria uma trinca mais fina que um fio de cabelo, e na espiga, estreitada por tantas afiações, o impacto se acumulara. Não estava a ponto de quebrar naquele instante, mas não havia como garantir que aguentasse até o próximo combate.
Era uma espada parecida com o dono.
Kang Mujin perguntou.
— Sabe a quem pertenciam os que guardavam a mina?
— Ao exército de invasão da fronteira do mundo demoníaco. Mais precisamente, estão sob a jurisdição do general Grimoire Vargas.
Silvana puxou um pouco mais a corda do arco.
— Está dizendo que um general demônio administra uma mina em terras humanas?
— Já é difícil chamá-las de terras humanas.
A voz de Rosen não se alterou, mas os dedos que apertavam a borda do escudo estavam brancos.
— Dos senhores da marca ocidental, três morreram e dois fugiram. O único que restou guarda os portões em troca de tributo. E não são só as minas. Há fazendas e serrarias. Transportam até pessoas como se fossem mercadoria.
— Krrm.
Doria alisou com aspereza a ponta da barba.
— E os reis humanos, sabendo disso, o que estão fazendo?
— Repetem apenas que estão reunindo tropas.
— E enquanto isso o povo da fronteira vai sendo arrastado?
— Sim.
Doria fez menção de cuspir, viu os feridos e virou a cabeça. Da mão que apertava o cabo do martelo veio um estalo seco.
Rakan soltou a alça da carroça.
— Grimoire.
A voz que pronunciou aquele nome era baixa. Quando Kang Mujin se virou, o pelo da nuca de Rakan estava eriçado, e ele encarava Rosen cobrindo com a palma esquerda a marca a ferro do pulso direito.
— Foi ele que nos levou?
— Não deve ter saído pessoalmente à caçada.
Rosen não desviou o olhar.
— Mas é ele quem define as licenças de captura e as cotas. De qual aldeia levar quantas pessoas, em qual mina alocar quantas.
Rakan mostrou os dentes.
— Quer dizer que anotam o número de gente num livro de contas.
— Sim.
— Os mortos também?
Rosen ficou um instante calado.
— São registrados como perdas.
Assim que se virou, Rakan socou a árvore à beira do caminho. A casca seca caiu em chuva, e o pano enrolado no pulso voltou a ficar vermelho, como se a ferida tivesse aberto.
Kang Mujin parou diante dele.
— Abra a mão.
— Isso importa agora?
— Importa, se quiser segurar uma espada.
As orelhas de Rakan se dobraram para trás, mas o punho se abriu, e na palma havia calos antigos. Diferentes dos que o cabo da picareta deixa, a carne endurecida se sobrepunha entre o polegar e o indicador e abaixo do dedo mínimo. Dava para reconhecer uma mão que segurara espada por muito tempo.
Kang Mujin tirou um pano limpo da bolsa na cintura e enfaixou a mão de Rakan.
— Usava espada?
— Antes de ser capturado.
— Que tipo de espada?
— Longa e pesada. Minha tribo não usava escudo.
— Devem ter sido capturados por isso.
Os olhos de Rakan se estreitaram, e Doria engoliu o riso dentro da barba.
— Esse humano não tem dó nem piedade quando se trata de ferro.
— Não está errado.
Rakan respondeu com secura e estendeu a faca curta que recebera na mina.
— Essa aqui é leve.
— Foi feita às pressas.
— Mesmo assim segurou os golpes.
Kang Mujin pegou a faca e examinou a lâmina e a espiga. Por ter sido consertada às pressas a partir do sabre curto de um demônio derrubado na mina, a fibra do metal estava irregular, e o dorso, que recebera vários impactos, entortara um pouco. Ainda assim, o aro de ferro enrolado na espiga não se soltara. Para um objeto improvisado, cumprira bem o seu papel.
Ferro feito para aguentar o agora só precisava aguentar o agora. Depois bastava devolvê-lo ao fogo e transformá-lo em algo melhor.
Kang Mujin devolveu a faca.
— Da próxima vez faço uma de verdade.
Rakan baixou os olhos para a lâmina.
— E o preço?
— Pague quando puder trabalhar.
— Então o favor é dívida e a faca é dívida.
— Eu nunca cobrei favor algum.
— Fui eu que cobrei.
Rakan enfiou a faca no cinto.
— Por isso vou junto.
— Sem nem saber para onde vamos.
— Você também não sabe.
Kang Mujin não conseguiu responder de imediato. Até ali, se havia estrada, ele caminhava. Se havia ferramenta quebrada numa aldeia, ele consertava. Se havia minério aproveitável, ele ficava. Bastavam-lhe uma boa forja e ferro.
Mas o som das correntes sobre a carroça não era leve, e, a cada passo, quando os elos batiam uns nos outros, parecia que as picaretas deixadas na mina vinham atrás.
— Faça como quiser.
Diante da resposta, Rakan bufou.
— Não pensei em pedir permissão.
Rosen, que ouvia a conversa, dobrou um joelho e examinou o chão da estrada. Depois de tocar com a mão o sulco fundo deixado pela roda da carroça, apontou para a trilha da montanha a nordeste.
— Vamos primeiro ao meu acampamento. Daqui, mesmo levando os feridos, chega-se em pouco mais de duas horas. É um posto vazio, mas tem telhado e poço, dá para descansarem.
Silvana perguntou.
— Não pretende nos juntar lá e depois chamar tropas, pretende?
— É natural que desconfiem.
Rosen soltou a espada da cintura, pousou-a no chão e depositou também o escudo.
— Eu vou à frente. Cedo meu cavalo aos feridos. Se ainda assim não confiarem, podem amarrar minhas mãos.
Kang Mujin apanhou a espada pousada no chão.
Foi então que, pela primeira vez, a expressão de Rosen se desfez.
— Vou examinar a espada.
— Agora?
— Ela vai quebrar em breve.
Quando Kang Mujin a desembainhou, finas rachaduras apareceram vagamente sobre a lâmina escura. Eram fissuras difíceis de achar a olho nu, mas, ao pressionar a face com o polegar, a fibra do metal se abriu sob a ponta de seus dedos. Marcas de ter sido aquecida vezes demais, de ter sido endireitada à força sem martelo, de ter sido temperada às pressas depois que a temperatura caiu, tudo lhe chegou, uma após a outra.
— Quem a consertou?
— Fui eu.
— Não havia ferreiro?
— Havia.
O olhar de Rosen se afastou da lâmina.
— Ele ficou para trás depois de despachar a última leva de refugiados.
Foi uma resposta curta. Kang Mujin não perguntou mais nada, embainhou a espada e a devolveu.
— Não receba golpes fortes com ela. O meio da lâmina está partido por dentro.
— Quanto tempo vai aguentar?
— Se não lutar, dura muito.
— E se eu tiver de lutar?
— Pode ser uma vez, podem ser dez. O ferro não mente, mas também não conta o futuro.
Rosen recebeu a espada e a prendeu à cintura.
— Nesse caso, vou considerar que é uma só.
— Comece procurando um jeito de aguentar dez.
Kang Mujin pegou as rédeas do cavalo e as entregou ao velho libertado, e Rosen ajustou a sela sem dizer nada. Silvana saiu na frente para inspecionar a trilha na mata, e, enquanto Doria batia no eixo traseiro da carroça para verificar seu estado, Rakan voltou a segurar a alça mais pesada.
— Está ferido.
Diante da observação, Rakan bufou.
— E também sou um devedor.
— Se as pernas cederem, a carroça tomba junto.
— Então segura do lado.
Kang Mujin observou o andar de Rakan. A cada vez que o pé direito pisava, o joelho vacilava. Era difícil aguentar meio dia só com teimosia.
Quando ele pousou a mão no aro de ferro da roda, a sensação fria e áspera do metal penetrou em sua palma. O aro, a cavilha do eixo e a corrente que amarrava a carga se ligavam numa só estrutura, e a força aplicada em cada parte se fazia sentir como linhas grossas e finas. Kang Mujin distribuiu por igual a tensão do aro enquanto inclinava minimamente a cavilha do eixo, e fez com que os elos da corrente se encaixassem entre si e contivessem o balanço da carga.
O centro de gravidade da carroça deslocou-se um pouco para a frente. A força de puxar não desapareceu, mas a resistência que arrastava para trás a cada volta da roda diminuiu.
Os ombros de Rakan subiram de leve.
— Ficou mais leve.
— Não deixe tombar.
— Falar com jeito mata?
— Quando o ferro me obedecer, eu tento.
Doria riu abertamente.
— Esse aí conhece o gosto do ferro!
O grupo chegou ao posto vazio antes de a escuridão cair. Até que o relato do soldado fugitivo alcançasse o comando avançado e a primeira tropa de perseguição fechasse a estrada, restava pouco mais de um dia. Rosen virou uma ampulheta, pendurou-a sob o beiral e cravou que, antes de cair o último grão de areia, era preciso mover os feridos e liberar a estrada nordeste. O muro de pedra estava desmoronado até a altura da cintura, metade da paliçada apodrecida, e no lugar onde ficava o sino de alarme pendia apenas uma corda grossa. Ainda assim, a água do poço era limpa, e no alojamento que conservava o telhado havia palha seca empilhada.
Kang Mujin fez entrar primeiro os feridos. Enquanto Silvana trazia ervas da mata e lavava os ferimentos, Doria arrancou a porta quebrada e a rachou em lenha, e Rakan, depois de ignorar três vezes o pedido para se sentar, carregou baldes de água até acabar escorregando de costas contra a parede.
— Estou inteiro.
Rakan falou primeiro.
Kang Mujin não respondeu e olhou para as pernas dele. A coxa tremia mesmo parada.
— Não olhe.
— Não olho porque quero.
— Então?
— Olho para saber que espada preciso fazer.
Rakan baixou os olhos para as próprias pernas e estalou a língua.
— Que seja pesada. Não venha com desculpa de perna para me dar uma leve.
— Decido depois que voltar a andar.
Kang Mujin foi até a fornalha, arrancou a chapa de ferro enferrujada encravada entre as pedras, sacudiu a cinza e, nas partes rachadas, aplicou pedaços de corrente achatados. Como a entrada de ar era estreita e a chama pendia para um lado, alargou também o canal de sopro, e o fogo ficou bem mais estável.
Ele pôs na fornalha duas espadas de demônio recolhidas na mina. Não era bom ferro. O minério não fora refinado o bastante e restavam enxofre e fósforo, e a distribuição de carbono também era irregular. Ainda assim, cortando as partes onde as impurezas se acumulavam e dobrando o metal várias vezes, haveria uso para ele.
Doria agachou-se diante da fornalha.
— E o martelo?
— Tenho um que trouxe da mina.
— A tenaz?
— Basta endireitar os grilhões.
— E a bigorna?
Kang Mujin apontou o marco de pedra tombado na entrada do posto.
As sobrancelhas de Doria se contorceram.
— Vai fazer lâminas em cima de uma pedra?
— Não são lâminas.
— Então o quê?
Kang Mujin retirou a espada em brasa.
— Enxadas e foices. Servem para abrir caminho e erguer paliçadas, e, se eles chegarem primeiro, dá para segurar o cabo mais curto e se defender.
Doria o encarou por um instante e soltou o ar pelo nariz.
— Está bem. Mas o controle do fogo fica comigo.
— O senhor não dizia que não aceita interferência diante da forja?
— Foi você que entrou na minha forja.
Os dois martelaram ferro noite adentro. Quando Kang Mujin escolhia e cortava as partes com impurezas, Doria dobrava o metal restante, e o martelo curto e pesado do anão nunca batia três vezes no mesmo ponto. Sentindo o calor que escorria de dentro do metal e a direção de suas fibras, Kang Mujin indicava onde o martelo devia cair.
— Um pouco mais à esquerda.
— Eu sei.
— Então bata.
— Existe uma coisa chamada respiração, ora!
As palavras eram rudes, mas o martelo era exato. A corrente virou o corpo de uma foice, e as espadas dos demônios viraram lâminas de enxada e machadinhas. Os cabos foram talhados de madeira sã escolhida na paliçada caída, e em cada peça pronta Kang Mujin deixou uma pequena marca perto da espiga.
Os libertos, sentados em volta do fogo, assistiam a tudo sem que ninguém falasse alto. Apenas o velho que recebeu a primeira foice pronta bateu na lâmina com a unha, e dela saiu um som claro.
— O que devo fazer com isto?
— O que o senhor quiser.
Kang Mujin pôs no fogo a próxima lâmina de enxada.
— Pode arar um campo, pode construir uma casa.
— E se os demônios voltarem?
O martelo parou.
Kang Mujin olhou a cor do ferro dentro da fornalha. Ainda era um laranja escuro, não era hora de bater. Com mais fogo, a fibra do metal se afrouxaria, e só então o martelo poderia tocá-lo sem parti-lo.
— Nessa hora, é preciso detê-los.
O velho envolveu a foice com as duas mãos.
— E nós conseguiríamos detê-los?
Em vez de responder, Kang Mujin empurrou as brasas para dentro. Quando a temperatura da fornalha subiu, a fibra do ferro amoleceu e se preparou para receber o martelo.
— É preciso fazer com que consigam.
Rosen, que observava do lado de fora, entrou devagar, limpou a poeira da mesa com a manga e abriu um mapa velho. Era um mapa com marcas de chuva e de sangue, o canto oeste consumido pelo fogo, e alguns nomes de lugares riscados com traços negros.
— Minha terra natal era aqui.
Rosen apontou uma pequena fortaleza deslocada para oeste do centro do mapa.
Marca de Cardier.
Sobre aquele nome também havia um traço negro.
— Ficava a três dias da fenda do mundo demoníaco. Não era terra fértil, mas havia veios de ferro e uma muralha que guardava a passagem norte. Minha família guardou aquele lugar por seis gerações.
O dedo de Rosen moveu-se da fortaleza para a estrada sul.
— No primeiro ano desceram matilhas de feras demoníacas. No ano seguinte apareceram demônios armados, e depois veio um emissário.
— Um emissário?
Rakan perguntou, ainda encostado na parede.
— Propôs rendição. Disse que garantiria o título de senhor feudal se entregássemos metade da produção da mina e duzentos habitantes por ano.
— E então?
— Meu pai queimou o documento do emissário.
Rosen falou com serenidade.
— Três meses depois o castelo caiu.
Uma faísca saltou, mas Rosen não fechou os olhos.
Kang Mujin olhou a posição da fortaleza no mapa. Era onde três estradas se encontravam, um ponto estratégico que ligava as minas da cordilheira norte, a planície leste e o rio ao sul. Não fora atacada por simples represália a um documento queimado. Os demônios queriam as estradas e o ferro, e incluíam até as pessoas no cálculo como meio de produção.
— E o que aconteceu com os moradores?
Silvana perguntou.
— Parte foi evacuada para o leste. Os que ficaram no castelo, em sua maioria, morreram ou foram capturados. Eu recebi ordem de escoltar o último comboio de refugiados.
— E cumpriu a ordem.
Rakan disse.
— Não consegui guardar minha terra.
— Mas os que saíram vivos, foi você que guardou.
O olhar de Rosen voltou-se para Rakan, e, quando este ajustou o pano enrolado no pulso, a marca a ferro do pulso direito ficou à mostra.
— Eu não consegui fugir. E acabei assim.
Ele bateu com o dedo na cicatriz negra e retorcida.
— Se houve gente que você tirou de lá viva, isso basta. Pare de bancar o morto.
Rosen ficou um tempo sem dizer nada e então endireitou o corpo.
— Um conselho rude.
— É de graça.
Kang Mujin tirou o ferro da fornalha.
O martelo desceu.
Uma vez.
O ferro vermelho se alargou.
Duas vezes.
A quina áspera se dobrou.
Ao terceiro golpe, as fibras emaranhadas do metal se alinharam numa só direção, e Kang Mujin parou de bater. Girou o ferro e aproximou do fogo a parte menos aquecida. Batido o necessário, era preciso aquecer de novo. Martelada apressada estraga o ferro.
Ele pousou a tenaz e olhou para Rosen.
— Por que veio pessoalmente só porque uma mina foi atacada?
Rosen apontou a estrada leste no mapa.
— A fogueira de sinal do posto sul acaba de subir uma vez. Significa que o soldado fugitivo alcançou a cavalaria. São doze horas até o comando avançado, e de lá a cavalaria de perseguição leva mais seis para chegar aqui. No mais tardar, temos de esvaziar este lugar antes de o sol declinar amanhã.
Silvana perguntou.
— Com que rapidez virá a tropa de perseguição?
— Se for rápido, amanhã ao pôr do sol. Mas há algo que se move antes disso.
Rosen moveu o dedo ao longo de uma estrada marcada com pontos no mapa. A linha que começava na mina ao norte e a que vinha de uma pequena aldeia ao sul se uniam numa passagem a oeste.
— É a caravana de escravos. Carrega o ferro da mina e os prisioneiros recém-capturados, e cruza a fronteira a cada três dias. Depois de amanhã, de madrugada, deve atravessar o desfiladeiro do Riacho Negro.
Rakan se ergueu da parede. O joelho vacilou, mas ele se firmou com a mão no muro.
— Quantos estão sendo levados?
— Só de carroças confirmadas, são oito.
— E a escolta?
— Em tempos normais, uns vinte homens. Mas, como a mina foi atacada, é bem provável que tenha sido reforçada.
Rosen olhou para Kang Mujin.
— Há até boatos de que tropas de elite com o emblema de Grimoire Vargas se juntaram a eles.
A mão de Silvana sobre o arco enrijeceu, e Doria, sem dizer nada, estreitou a entrada de ar da fornalha.
Kang Mujin examinou no mapa a largura e o declive do desfiladeiro. À esquerda da estrada corria o Riacho Negro, e à direita erguia-se um paredão a pique. Com oito carroças, a coluna não teria como não se esticar. Cortando a frente e a retaguarda, a escolta teria dificuldade de se mover toda de uma vez.
— Quantas vias de acesso existem?
Como se esperasse a pergunta, Rosen traçou mais duas linhas na borda do mapa.
— Além da estrada de carroças, de frente, há uma trilha de caçadores que sobe pelo penhasco. É rápida, mas cavalo não passa. A outra sobe contra a corrente do riacho. Não seríamos vistos, mas, se chover, a água sobe.
— Existe alguma ponte de ferro?
— Na entrada do desfiladeiro há uma velha ponte de vagonetes. A caravana não a atravessa, passa por baixo dela.
Kang Mujin marcou com o dedo a posição da ponte. Sendo uma estrutura de ferro, poderia sentir os pinos de fixação e a carga e movê-la até certo ponto, mas não dava para incluí-la no plano sem antes verificar seu estado com os próprios olhos.
Seu olhar percorreu o interior do alojamento. Havia muitos feridos, e não era possível colocar de novo em risco os que haviam sido libertados. Rakan mal conseguia andar direito, a espada de Rosen estava trincada, as flechas de Silvana não eram muitas, e nem ele nem Doria tinham sequer uma bigorna decente.
Doria examinou o rosto de Kang Mujin.
— Está pensando em ir?
— Ainda não.
Kang Mujin tirou a mão do mapa.
— Há algo a fazer antes.
Ele estendeu a mão para Rosen.
— Dê-me sua espada.
Rosen baixou os olhos para a espada na cintura.
— Não me disse para não lutar?
— Com essa espada, sim.
Rosen soltou lentamente a espada e a entregou.
Kang Mujin desembainhou a lâmina, conferiu de novo a fissura e empurrou a parte trincada para dentro da fornalha. Não havia tempo de forjar uma espada nova. Cortar em volta da trinca deixaria a lâmina curta demais, então precisava escolher, entre o ferro trazido da mina, a parte em que o carbono estava distribuído por igual e soldá-la ali. Não podia fazer uma espada perfeita, mas podia fazer uma espada que voltasse viva.
Rakan aproximou-se cambaleando, com a faca curta recebida na mina na mão.
— Faça a minha também.
— Descanse.
— Não quero.
— Suas pernas ainda estão bambas.
— Justamente. Então faça com que eu me aguente na espada, já que não é nas pernas.
Kang Mujin olhou nos olhos de Rakan. O que restava ali não era só raiva. As pessoas das oito carroças, que ele ainda nem havia encontrado, já estavam sobre seus ombros.
— A razão de querer vir junto é a dívida?
— É.
Rakan não hesitou.
— Salvou minha vida na mina e ainda pôs uma lâmina na minha mão. Antes de pagar essa dívida toda, não vou embora.
— E quem decide quando ela estiver paga?
— Eu.
— Mesmo que leve a vida inteira?
Rakan estendeu a faca curta na direção de Kang Mujin.
— Então sigo a vida inteira.
Kang Mujin não perguntou mais. Não era teimosia que se quebrasse com palavras, e ele também não encontrou motivo para quebrá-la.
Ele estendeu a mão.
— Dê aqui.
Rakan lhe confiou a faca curta.
— Se consertar isso, a dívida aumenta em mais uma.
— Desta vez vou cobrar adiantado.
— O quê?
— Que volte vivo.
Rakan mostrou as presas.
Dessa vez era claramente um sorriso.
Kang Mujin pôs as duas lâminas lado a lado na fornalha. A espada de Rosen tinha a fibra cansada de tanto aguentar, e a faca de Rakan, endireitada às pressas, guardava tensão por dentro. Problemas diferentes não se corrigem com o mesmo fogo, então era preciso variar posição e tempo.
Ele enfiou a espada de Rosen fundo nas chamas, mas de modo que só a parte trincada ficasse em brasa, e deixou a faca de Rakan na borda do carvão, aquecendo devagar. À medida que a temperatura subia, as fibras diferentes dos dois metais se tornavam nítidas dentro do vermelho.
Do lado de fora do posto soprava o vento da noite, e, longe, no céu a oeste, subia uma coluna de fumaça negra.
Rosen falou, o rosto endurecido.
— É uma fogueira de sinal.
Depois da primeira luz, a segunda e a terceira passaram, uma após a outra, por cima das cristas. O soldado que escapara da mina terminara seu relato.
Kang Mujin tirou com a tenaz a espada em brasa.
— Doria.
— Eu sei.
O anão ergueu o martelo.
— Silvana.
— Vou vigiar a estrada até o amanhecer.
A elfa pegou o arco.
— Rosen.
Ele respondeu enquanto dobrava o mapa.
— Vou preparar as duas coisas: a rota para levar os refugiados à aldeia abandonada a leste e o plano para atacar o desfiladeiro.
Encostado no umbral, Rakan assistia à lâmina renascendo. As pernas ainda tremiam, mas o olhar não se afastava das chamas.
Quando Kang Mujin desceu o martelo, as fagulhas rasgaram a escuridão. A lâmina partida, em vez de encurtar, ficou mais grossa, e o ferro acrescentado preencheu o lugar que receberia o impacto.
Até o desfiladeiro do Riacho Negro, restava um dia e meio.
Participe da discussão