A aba de veste vermelho-escura que passou pelo fim do beco ao norte dissolveu-se na escuridão num piscar de olhos, e Pung, por reflexo, quase saiu em perseguição, mas deteve os pés. Na noite anterior também estivera a ponto de perseguir sozinho um sujeito suspeito, e acabara de prometer a Hyeonheo e Ayeong que não repetiria o mesmo erro.
— É ele. O homem do Culto Demoníaco que vimos ontem na taberna.
Quando Pung baixou a voz, Hyeonheo examinou o fim do beco, e Ayeong, com a mão no punho da espada, correu os olhos pelos telhados dos fundos e pelas janelas fechadas.
— E o anel prateado?
— Não está reagindo a ele, e sim à encosta ao norte. A direção é a mesma, mas é mais longe.
Hyeonheo pensou por um instante e repartiu depressa os papéis.
— Danpung, siga ao mesmo tempo a direção do anel e os meridianos daquele homem. Ayeong, vigie a retaguarda; eu abafarei a presença de nós três. Se sentir algo estranho, avise de imediato, mas não se adiante sozinho.
Os três seguiram a veste vermelho-escura mantendo distância constante. Nohachon à noite era silenciosa como se fosse outro lugar, e pelos becos de portas trancadas pairava apenas o cheiro de terra seca e de ervas medicinais apodrecidas.
O jovem avançava escolhendo só as sombras, sem pisar telhados nem saltar muros, e ainda assim a distância quase não diminuía. Pung reforçou a visão dos meridianos para não perder a ponta da energia demoníaca vermelho-escura, mas, ao tatear também a textura da energia transmitida pelo anel prateado, logo o suor lhe brotou na testa.
Ao chegarem à entrada do vilarejo, Hyeonheo ergueu o punho.
Da trilha da montanha à frente veio o som de rodas de carroça esmagando a terra úmida, e quando Pung, agachado sob a sombra das árvores, concentrou a visão dos meridianos, vários fluxos emergiram no escuro. Sobre a carroça havia sete energias afinadas, como que desmaiadas, empilhadas umas sobre as outras, e ao redor delas quatro homens envoltos num miasma venenoso negro-amarelado.
A carroça de carga, com esteiras de palha empilhadas bem alto, entrou na trilha da montanha. Quando o vento levantou um canto da esteira e revelou uma mão humana pendida sem força, o homem que vinha atrás olhou em volta e enfiou aquela mão de volta com brutalidade.
Os punhos de Pung se fecharam com força e ele quis saltar dali naquele instante, mas Hyeonheo pressionou-lhe o ombro de leve.
— Estão vivos.
A transmissão de voz de Hyeonheo ressoou dentro de seu ouvido.
— Se agirmos agora, perdemos quem está por trás disso. O veneno também não parece do tipo que mata de imediato; vamos primeiro descobrir para onde os levam.
Pung mordeu os lábios e assentiu; as energias sobre a carroça eram fracas, mas não a ponto de se romperem logo. Na escuridão à frente, o homem da veste vermelho-escura também havia diminuído o passo e observava a carroça, embora não desse para saber se pretendia encontrar-se com os sequestradores ou se os seguia.
Quando a carroça entrou na curva da trilha, Ayeong apontou para trás: duas presenças se aproximavam depressa do lado do vilarejo. Uma seguia pelos telhados, a outra varria a borda da floresta, movimentos que pareciam os de vigias deixados pela escolta da carroça.
Hyeonheo fez um gesto indicando que ele e Ayeong conteriam a retaguarda e que Pung não deixasse a carroça escapar.
— Confirme apenas a localização da mansão e suas entradas, e espere o sinal. Se for descoberto, não lute: volte.
Assumir tudo sozinho era diferente de dividir os papéis, e Pung, gravando aquelas palavras no peito, abaixou o corpo e seguiu a carroça.
A energia vermelho-escura do outro lado da trilha sumiu a certa altura; não se afastara, e sim parecia ter aquietado num instante a energia demoníaca antes tão bruta. Lembrando o ensinamento de Hyeonheo de não depender demais da visão dos meridianos, Pung passou a observar também as marcas das rodas e o balanço dos galhos.
Não demorou e um muro alto surgiu entre as encostas: era sem dúvida a mansão ao norte de que haviam falado durante o dia. À primeira vista parecia o armazém de um grande comerciante de ervas somado à residência, mas sobre o muro e sob os beirais havia homens armados escondidos a intervalos curtos.
O portão dos fundos se abriu e a carroça entrou; o porteiro ergueu a esteira e contou as pessoas, e o homem que conduzira a carroça tirou da cintura uma pequena placa.
— São sete. Dois são colhedores de ervas de Nohachon; os demais foram escolhidos nos povoados ao sul.
— O veneno pegou direito?
— Até o meio-dia de amanhã não conseguirão mover um dedo.
O porteiro examinou a placa com o brasão do lobo negro entalhado e indicou com o queixo o interior da mansão.
— Levem para o subterrâneo. O ancião mandou que não lhes fizessem nenhum arranhão.
Colado à escuridão ao pé do muro, Pung acompanhou o percurso da carroça: passado o portão dos fundos, ela contornou o corpo principal da casa e desceu pela escadaria de pedra dos fundos, e na entrada do subterrâneo havia três guerreiros postados. Não dava para saber quantos outros prisioneiros havia dentro da mansão, mas ele pôde confirmar onde estavam os sete recém-trazidos.
Foi então que o anel prateado vibrou com mais nitidez.
O ponto indicado pelo anel não era o subterrâneo, e sim o grande pavilhão no centro da mansão; quando até o anel dourado puxou com peso o indicador da mão esquerda, Pung prendeu a respiração. Os dois anéis, pulsando em ritmos diferentes, pareciam arrastar seus dedos na direção do pavilhão.
A energia vermelho-escura que havia sumido reapareceu diante do pavilhão. Os guerreiros do portão dos fundos viram o jovem e não ergueram as armas, mas um deles observou com atenção a manga direita encharcada de sangue. Entre o homem e os guerreiros da mansão não havia o relaxamento que se espera entre gente do mesmo bando.
Pung julgou que era hora de recuar, mas o sinal de retirada ainda não havia chegado. Quando o homem entrou no pavilhão, a vibração do anel ficou mais áspera, e da encosta oeste, fora do muro, dava para ver a janela de frente. Escondido entre os galhos de um pinheiro, Pung reuniu a energia interna nos ouvidos.
— …antes que se abra… primeiro o anel….
Logo depois que as palavras baixas chegaram cortadas pelo vento, uma mesa tombou e a lamparina se apagou; a energia vermelho-escura oscilou com força, os guardas acorreram ao pavilhão e a galeria oeste ficou vazia por um instante.
No momento em que Pung ia se virar, a ponta gelada de um sabre tocou-lhe a nuca: o jovem, que já havia escapado de dentro, estava bem atrás dele.
— Se saltar o muro agora, os primeiros a morrer serão os do subterrâneo.
Quando Pung virou a cabeça, viu sangue escorrendo sob a bandagem rasgada do homem; ao que parecia, o ferimento se abrira ainda mais dentro do pavilhão.
— Há sete no subterrâneo. Quando vão transferi-los?
— Antes do meio-dia de amanhã. Depois disso, não os encontrará mais aqui.
— Para onde os mandam?
Sem responder, o homem chutou uma pedra com a ponta do pé. A pedra bateu no matagal do lado oposto e os guardas correram para o lugar do ruído; apenas um guerreiro que saíra do pavilhão olhou para aquele lado com desconfiança. O homem agarrou Pung pelo colarinho e o empurrou para a sombra de uma rocha; parecia ter capturado um invasor, mas a lâmina erguida escondia Pung do campo de visão dos guardas.
— Por que está me escondendo?
— Preciso confirmar se o que há na sua mão protege o dono ou se arrasta o dono por aí para matar gente.
— E o que pretende fazer sabendo disso?
— Se isso não for confirmado, tanto os do subterrâneo quanto seus companheiros serão entregues de uma vez.
Ele não disse a quem seriam entregues, e, quando os passos se aproximaram, golpeou de volta a saliência da rocha com o sabre; com o estrondo, ergueu-se uma poeira de pedra.
— Foi para o oeste.
Ao comando frio dele, os guerreiros se espalharam na direção da encosta desmoronada. Mas um deles, antes de partir, olhou alternadamente para a manga ensanguentada e para a sombra vazia da rocha, e era evidente que o homem assumira o risco de ser descoberto para tirar Pung dali.
Lá embaixo, na floresta, ouviu-se duas vezes o pio curto de uma coruja: era o sinal de retirada de Hyeonheo.
Pung queria insistir com mais perguntas, mas não podia pôr em risco os sete do subterrâneo; quando escapou pela brecha do lado oposto que o homem lhe abrira, veio de trás a voz de um guerreiro da mansão.
— De onde veio esse sangue?
Em vez de resposta soou um breve assobio de ar rasgado, como se a lâmina de alguém tivesse se chocado contra o sabre, mas Pung não voltou. O que cabia fazer agora era escapar em segurança com as informações obtidas.
Quando encontrou Hyeonheo e Ayeong na base da floresta, a energia vermelho-escura já havia saltado o muro do lado oposto da mansão e se afastava depressa.
— O que aconteceu?
— Aquele homem me encontrou, mas desviou os guardas para outro lado. Disse que vão transferir as pessoas do subterrâneo antes do meio-dia de amanhã. E falou como se fosse à estalagem para conferir o meu anel.
A expressão de Hyeonheo endureceu.
— Pode ser que esteja usando o anel como isca para chamar você.
— Ainda assim, as pessoas da estalagem correm perigo. Preciso ir na frente e fazê-las sair.
Hyeonheo assentiu brevemente.
— Eu corto a perseguição e vou logo atrás. Ayeong, pegue o atalho oeste e acorde as pessoas. Danpung, vá na frente, mas dê prioridade à evacuação, não ao confronto.
Pung disparou pela trilha da montanha; a presença de Ayeong desviou para o oeste no meio do caminho, e Hyeonheo ficou para trás, contendo os perseguidores, e a distância aumentou. O passo leve do jovem era muito mais rápido, e a energia vermelho-escura já havia chegado perto do vilarejo.
Ao saltar o muro da estalagem, Pung não teve tempo de fazer todos escaparem.
No meio do pátio estava o jovem. Ele olhava para a porta fechada do quarto que Hyeonheo ocupava, e a energia demoníaca vermelho-escura corria pela lâmina e se estendia na direção da janela de papel. Sob o beiral, dois hóspedes acordados por Ayeong fugiam pela porta dos fundos.
— Pare!
Quando Pung se plantou diante da porta, o olhar do homem percorreu um a um os dois anéis.
— Não há tempo.
— Não sei que jogo é esse, mas não vou deixar que erga a lâmina contra pessoas.
O sabre rasgou o ar. A ponta parecia mirar ao mesmo tempo Pung e a janela de papel atrás dele, mas, no instante em que Pung desviou a lâmina com as duas mãos, o pulso do homem torceu de modo quase imperceptível. A energia vermelho-escura do sabre golpeou a ponta vazia do beiral em vez da porta.
O impacto não era fingido. A força que subiu pelo braço e penetrou fundo no ombro deixou as juntas de Pung latejando, e o vento que estourou um tempo depois sacudiu as janelas com violência. A energia do homem se dividia incontáveis vezes na ponta da lâmina e voltava a se juntar: um fluxo em que a circulação de energia da seita ortodoxa e uma arte demoníaca bruta pareciam engrenadas num mesmo corpo.
Quando o homem recolheu o sabre, Pung baixou o corpo e avançou para dentro da guarda. Em vez de golpear o peito, pressionou o meridiano abaixo do cotovelo ferido e desviou a trajetória, mas o cabo do sabre roçou-lhe o ombro e deixou uma dor pesada. A energia vermelho-escura partiu o balde vazio do pátio e cravou-se no chão.
— Na mansão o senhor me deixou ir e aqui brande a lâmina. Afinal, quem é que está enganando?
Mesmo diante da pergunta de Pung, o homem manteve a boca fechada e ergueu o sabre de volta.
Junto com o terceiro ataque, Pung leu a sede de sangue condensada na lâmina e uma força imensa subiu até a ponta de seus dedos, percorrendo o indicador esquerdo e retesando o braço. Antes mesmo que essa força afinasse, o anel prateado, no dedo da outra mão, puxou-o para o norte. Com os dois fluxos irrompendo ao mesmo tempo, sua respiração se desfez.
Se a liberasse assim, talvez derrubasse o homem à sua frente. Mas do outro lado do pátio ainda havia o dono da estalagem e hóspedes que não tinham saído, e na galeria dos fundos Ayeong evacuava as pessoas.
Pung deu meio passo, cobriu a porta com as costas e escoou a força que se erguera, dividindo-a entre os dois braços e a sola dos pés.
Bum!
O chão de terra afundou. A parte interna dos braços doía como se fosse rasgar, e a ponta da lâmina, que não parou a tempo, abriu um corte raso em sua bochecha, mas a energia vermelho-escura passou longe da janela de papel e cravou-se no canto do beiral.
— Por que contém uma força que pode usar?
— Não a contive.
Com os braços dormentes, Pung empurrou a lâmina e encarou os olhos do homem.
— Fui eu que escolhi onde usá-la.
Rompendo o silêncio de um instante, a porta do quarto ao lado se abriu.
— Danpung!
Ayeong saltou para o alpendre sem sequer ter fechado direito o casaco, com a espada na mão e a respiração ainda ofegante de tirar as pessoas dali. Quando o olhar do homem se voltou para Ayeong, Pung deu de imediato um passo à frente e se pôs na frente de Ayeong.
O sabre erguido não se voltou contra Ayeong. Pelo contrário, a ponta oscilou por um momento, como que verificando as presenças fora do pátio, e pelo rosto endurecido do homem passou um ar de cautela em relação aos que o haviam seguido desde a mansão.
Nesse momento Hyeonheo entrou saltando o muro do lado oposto; as vestes não estavam desalinhadas, mas havia sangue negro na ponta da manga. Depois de examinar a manga rasgada e o corte na bochecha de Pung, Hyeonheo fixou o olhar no homem.
— Pare por aí.
Quando Hyeonheo pisou no pátio, o ar baixou pesado, e aos olhos de Pung a energia interna que de costume repousava como água calma ergueu-se como uma imensa cordilheira. Sem que se estendesse com estardalhaço, a energia demoníaca vermelho-escura que revolvia o pátio recuou, e até o sino de vento na ponta do beiral perdeu o som.
O homem olhou para Hyeonheo sem recolher o sabre. Entre os dois havia apenas cinco passos de distância, mas nenhum se moveu primeiro, e a areia do pátio tremia levemente por causa das energias que se chocavam.
Os olhos de Hyeonheo se estreitaram.
— Embora carregue energia demoníaca, a textura com que encadeia a força é da seita ortodoxa. Sob ordem de quem você veio?
O homem não respondeu. Examinando uma a uma as duas mãos de Pung, o chão de terra afundado e as marcas do sabre deixadas onde não havia ninguém, ele voltou o olhar para o norte quando dois assobios urgentes soaram seguidos num beco distante.
— Então o anel não vem antes da sua escolha.
— Foi até a estalagem só para confirmar isso?
— Foi para reduzir o número de mortos esta noite.
— Se é assim, não entregue os sete do subterrâneo.
Os lábios do homem se fecharam com firmeza; ele olhou em sequência para Hyeonheo, Ayeong e Pung, e recuou um passo.
— É antes do meio-dia.
Deixando apenas essas palavras, ele se virou e a veste vermelho-escura cortou o luar. A silhueta que saltou o muro disparou na direção oposta às presenças que pareciam vir da mansão e, pouco depois, sumiu na névoa da noite.
Pung não foi atrás. Tinha muito o que perguntar, mas na estalagem restavam pessoas a proteger, e no subterrâneo da mansão ao norte havia sete presos, entorpecidos pelo veneno. Não podia adiar essas duas coisas por curiosidade.
Afrouxada a tensão, os dois braços que haviam aparado o sabre começaram a tremer e um sangue quente escorreu da bochecha, mas Pung primeiro ergueu os olhos para o beiral. As marcas do sabre, que pareciam ter mirado a janela de papel, estavam todas desviadas para fora, onde não havia ninguém, e a última já se curvava na direção do canto da viga antes mesmo de ele conseguir bloqueá-la por completo.
Na mansão o homem assumira o risco de ser descoberto para desviar o alarme, e na estalagem não cortara ninguém; ainda assim, não dava para confiar nele. Os prisioneiros do subterrâneo não estavam a salvo, e o tempo que faltava até o meio-dia não era longo.
Pung olhou uma vez para a crista da montanha ao norte e se virou para Hyeonheo.
— Mestre, a carroça que entrou pelo portão dos fundos contornou o corpo principal da casa e desceu pela escadaria de pedra dos fundos. Na entrada do subterrâneo havia três guerreiros, e as pessoas levadas são sete.
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