O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 20 — O Nome Gravado na Fronteira

Antes de o dia clarear, a fornalha da enfermaria foi a primeira a esquentar.

Os três que haviam perdido a consciência atravessaram a noite. Dois milicianos humanos e um arqueiro elfo estavam deitados lado a lado; a respiração ainda era rasa, mas não se interrompia.

Quando Silvana descolou o pano grudado no ferimento, do fundo do ombro do arqueiro elfo, atravessado pela flecha de besta, um fragmento de armadura enrolado apareceu junto com o sangue. Kang Mujin apoiou o dedo na ponta da tenaz, e a posição e a inclinação do metal lhe chegaram através da pele.

— Não se mova.

Ele não puxou o fragmento de imediato. Primeiro desentortou a fibra retorcida e, para não rasgar mais a carne, empurrou-o de volta pelo mesmo ângulo em que entrara; a resistência que prendia a ponta dos dedos desapareceu. Nesse instante puxou a tenaz, e o pedaço de ferro vermelho-escuro saiu.

Silvana pressionou o ferimento no mesmo instante, e a luz tênue da magia dos espíritos se espalhou entre seus dedos. Pouco depois, quando a respiração ofegante do arqueiro elfo se alongou um pouco, Kang Mujin deixou cair o fragmento retirado no balde d'água.

Tssss.

Ao lado, Aisha limpava a tesoura e a tenaz sujas de sangue.

— Isto também vai ser usado de novo?

— Fervemos e usamos de novo.

— E o que quebrou?

A criança apontou para a tenaz de extrair pontas de flecha, largada debaixo do leito. Um dos cabos estava rachado.

— Derretido, dá para usar de novo.

Aisha a colocou não no balde de descarte, mas no balde de sucata de ferro.

Quando o sol subiu, o Baluarte de Aço começou desmontando os vestígios da vitória. O aríete inimigo virou reforço para a muralha; os fragmentos de armadura foram moídos em armas, grampos de corrente e pregos. O ferro cheio de impurezas foi posto de lado, e só a liga vermelha ficou reservada para análise.

Na parede interna da fornalha, acesa a noite toda, as rachaduras haviam se espalhado. Quando Doria avisou que ela cederia em três dias, Kang Mujin, em vez de apagar o fogo, dividiu a pressão com uma parede auxiliar e seis fileiras de braçadeiras. Enquanto esquentavam a primeira braçadeira, Rosen trouxe, com o braço ferido, o registro dos moradores.

— Ontem eram cento e setenta e seis; hoje de madrugada entraram mais doze refugiados. Antes do próximo ataque, precisamos definir quem luta, quem cuida da água e da comida e, se alguém se ferir, qual família procurar.

No acampamento vazio que o grupo de batedores do norte encontrou havia poucas marcas de carroça. Isso significava que existia um ponto de suprimento próximo, e Rosen disse que, antes do pôr do sol, fecharia de uma vez o registro, os setores de moradia e as rotas de circulação contra incêndio.

Kang Mujin mandou afastar as fornalhas das casas e abrir um caminho por onde passassem duas carroças. Antes do meio-dia os moradores formaram fila diante da mesa comprida, e Aisha também inscreveu seu nome. Quando a criança parou no campo que perguntava a raça, Rosen respondeu que, mesmo deixado em branco, o nome não desapareceria.

Aisha pressionou o polegar sujo de fuligem abaixo do próprio nome. Rosen não limpou a pequena impressão digital.

Ao anoitecer, a muralha nordeste subira um pé e a parede auxiliar da fornalha também foi fechada. As tiras de ferro dos escudos inimigos distribuíam o impacto dentro do muro de terra, e na caixa que guardava o registro foi posto um cadeado feito por Kang Mujin.

Clique.

Naquela noite, vindo do norte do ermo, um metal se aproximou.

Era um cavalo e um cavaleiro. Sentia-se uma espada, as fivelas de uma armadura e o freio do cavalo; o armamento era leve e a velocidade, tampouco alta.

Pouco depois, surgiu da escuridão uma lança com um pano branco amarrado.

O cavaleiro parou fora do alcance de uma flecha e depositou no chão um pergaminho lacrado.

— É uma entrega da grande caravana do sul.

— Quem enviou?

Perguntou Rosen.

— Não sei. Recebi na estrada do norte, junto com o pagamento.

O cavaleiro deu meia-volta imediatamente, e o pergaminho foi puxado com um gancho comprido.

O lacre era de um metal vermelho-escuro.

Uma coroa envolvendo três chifres.

Era o mesmo símbolo do prego vermelho que Kang Mujin havia lançado à fornalha.

Quando aproximou o dedo, um sulco minúsculo no interior do metal prendeu-se a seus sentidos. Era uma estrutura feita para disparar uma agulha envenenada se alguém a quebrasse à força.

— Não toquem.

Quando Kang Mujin agarrou a fibra do metal, o lacre se abriu sem ruído, e a agulha fina caiu sobre o papel, sem força. Na ponta havia um líquido azul.

No pergaminho havia uma ordem curta.

Designa-se o Baluarte de Aço como alvo prioritário de eliminação no plano de conquista do norte.

Classifiquem a mão de obra recuperável e descartem os recursos que resistirem.

Reúnam-se conforme a ordem de mobilização total.

Abaixo havia um nome.

General do exército invasor do mundo demoníaco, Grimoire Vargas.

Quando Rakan apertou a borda do escudo, o metal rangeu brevemente.

Silvana não disse nada, mas os dedos que seguravam o arco tremeram bem de leve.

— Anotaram pessoas como recursos.

Disse Doria em voz baixa.

Rosen examinou a ordem de novo.

— É bem provável que a tenham deixado vazar de propósito. Deve ser para nos assustar ou abalar por dentro.

— O conteúdo é falso?

Perguntou Rakan.

— Se fosse falso, haveria pouca razão para colocar até uma agulha envenenada.

Kang Mujin pegou o lacre vermelho.

Dentro do metal restava a tensão de quem estampara centenas de peças de uma só vez. Era um objeto feito com o mesmo molde, a mesma liga, a mesma espessura. A ordem já estava se espalhando por várias tropas.

Daquela noite em diante, as fogueiras de sinal do norte se acenderam uma após a outra. Nas tábuas enviadas pelos batedores avançados, sobrepunham-se marcas indicando que carroças carregadas de armaduras e lanças, e correntes para equipamento de cerco, convergiam pela mesma estrada do sul.

O destino era o Baluarte de Aço.

Kang Mujin amassou o lacre na mão.

— Complete o registro.

Rosen endireitou a postura.

— Também prepararei um plano de reorganização da muralha e dos depósitos. Apresentarei os dois: o de aumentar as tropas e o de resistir com o efetivo atual.

— Os dois são necessários.

Kang Mujin olhou para Doria.

— Vamos aumentar as fornalhas também.

— As de agora já estou alimentando dia e noite.

— É por isso que vamos aumentar.

— Quantas?

— Tantas quantas houver gente para usá-las.

O cansaço se dissipou dos olhos de Doria.

— Krrm. Então preciso olhar o terreno de novo.

Rakan disse em voz baixa.

— Também falta gente.

— Reúna.

— São só refugiados que não sabem lutar.

— Basta ensinar.

— E se não houver tempo?

Kang Mujin olhou para o norte.

Não havia necessidade de levantar a voz. Quanto mais raiva sentia, menos tinha a dizer.

— Terminamos no tempo que houver.

Ele caminhou até a pedra de alicerce onde cravara um prego de ferro no dia em que assentaram o terreno pela primeira vez. Agora, em torno daquele prego, estradas se estendiam, casas tinham sido erguidas e havia até um registro com nomes escritos.

Kang Mujin tirou um pequeno cinzel e gravou, letra por letra, na lateral da pedra de alicerce.

Baluarte de Aço.

A cada golpe da ponta do cinzel na pedra, a vibração subia até a ponta dos dedos. Batendo forte demais, a fibra da pedra lascava; fraco demais, a letra não ficava — não era diferente de gravar um nome numa espada.

Abaixo do último traço, deixou sua pequena marca.

Ferramenta quebrada, bastava consertar. Casa desabada, bastava erguer de novo.

Mas com as pessoas que viviam dentro dela não era assim.

Se quem fabrica olha apenas o material e ignora o lugar onde a coisa será usada, aquilo não é um objeto acabado.

Kang Mujin não largou o martelo.

— O ferro não mente.

A ordem de Grimoire encolheu, enegrecida, dentro da fornalha.

— Preparem-se na medida do número dos que vêm.

O ferro do norte se moveu.

Desta vez não era um movimento para medir o perímetro do Baluarte de Aço.

A guerra estava se pondo a caminho.

Fim do capítulo 20

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