No ermo ao norte, a linha de batalha negra revelou-se.
À frente vinha a infantaria, com os escudos largos encostados uns nos outros. Placas de ferro pintadas de negro cobriam do joelho ao queixo, e entre os escudos longas lâminas de lança projetavam-se na diagonal. Atrás seguiam dois aríetes, carregados por seis homens cada, e o ferro que revestia a cabeça do tronco era escuro como se engolisse a luz do sol.
Kang Mujin avaliou primeiro o peso daquele ferro.
Não era peça fundida num bloco único, mas várias placas de ferro aquecidas, sobrepostas e apertadas com cintas de metal. O teor de carbono não era uniforme e, entre as duas placas dianteiras, havia uma fresta mínima, criada pela diferença na velocidade de resfriamento. Recebido de frente, o portão quebraria primeiro; mas, se conseguisse aplicar direito uma força de torção lateral, o ponto em que as placas se mordiam haveria de se abrir.
O problema era a distância.
A bênção do ferro lhe permitia sentir a fibra do metal, mas não era um poder capaz de mover uma montanha sem estender a mão. Quanto mais pesado e distante o ferro, mais força custava segurá-lo. Para quebrar aquele aríete, precisava atraí-lo para perto da muralha.
— Rosen.
Rosen já estava atrás do portão norte, com a planta aberta.
— Deixe o aríete chegar até diante do portão.
O olhar dele foi e voltou entre o aríete e Kang Mujin.
— Até onde?
— Quinze passos.
— E depois disso?
— Nós o desviamos para a esquerda.
Rosen assentiu sem perguntar a razão. Sabia que, quando Kang Mujin falava em distância a respeito do ferro, aquele número era ao mesmo tempo limite e condição.
— Linha do portão norte, não recuem até o primeiro impacto! Corpo de arqueiros, mirem nos carregadores do aríete! Segunda fileira da milícia, preparem os ganchos!
A ordem espalhou-se ao longo da muralha.
Quando Rakan firmou o escudo diante do portão norte, dezesseis milicianos posicionaram-se atrás dele em duas fileiras. As armaduras e os corpos eram todos diferentes, mas as lâminas de lança forjadas por Kang Mujin tinham o mesmo comprimento e o mesmo peso. Só quando se estendiam à mesma distância ao mesmo comando é que aquilo podia ser chamado de formação.
A ponta da lança de um jovem miliciano tremia. Rakan bateu de leve na haste com a borda do escudo e a abaixou.
— Não tente matar o inimigo. Só não deixe que ele passe um passo à sua frente.
— Sim.
— Sobreviva até render o turno. Se morrer, no próximo treino eu faço você correr a sua parte também.
Era uma ameaça sem sentido, mas o canto da boca do miliciano se moveu por um instante. A ponta trêmula da lança também baixou um pouco.
A parede negra de escudos entrou no alcance de tiro.
Quando Silvana ergueu a mão, os dezesseis arcos da muralha e das plataformas da retaguarda se inclinaram ao mesmo tempo. Os oito restantes aguardavam com as flechas encaixadas, como grupo de revezamento e manobra. As flechas traziam pontas de gancho feitas por Doria. Não tinham a forma de penetrar fundo na carne: serviam para prender e rasgar as bordas dos escudos, as junções das armaduras, as correias de couro e os anéis de ferro que sustentavam o aríete.
— Primeira marca.
As cordas dos arcos vibraram todas de uma vez.
As flechas passaram por cima dos escudos da vanguarda e caíram desenhando uma curva. Seis despencaram sobre o aríete e cravaram-se entre as alças e os punhos, duas se prenderam nos anéis de ferro e as demais foram repelidas pelas armaduras e pelos escudos.
O inimigo não parou.
Na segunda salva, os oito arqueiros sobre a muralha miraram os vãos entre os escudos, e os oito nas plataformas de trás atiraram em ângulo alto. Um dos soldados que carregava o aríete perdeu a correia do ombro e o longo tronco pendeu para um lado, mas outro soldado logo preencheu o vazio.
Um toque grave de corneta de chifre varreu o ermo.
Os escudos inimigos ergueram-se todos ao mesmo tempo.
Rosen não perdeu aquele instante.
— Milícia, lancem os dardos!
Os que estavam deitados ao pé da muralha ergueram-se. Doze dardos curtos voaram baixo e atingiram as canelas e os peitos dos pés, expostos porque os escudos cobriam o alto. Alguns da vanguarda desabaram e enroscaram a fileira seguinte; pela primeira vez, a passada da sólida parede de escudos se desfez.
Atrás da infantaria, um homem enorme inclinou o machado-lança para a frente. Era uma cabeça mais alto que os outros soldados, e nas ombreiras havia três fileiras de cravos de ferro vermelhos. Dada a ordem, os inimigos não arrastaram os companheiros caídos. Avançaram pisando sobre eles e voltaram a preencher com escudos as brechas abertas.
Nem mesmo um soldado ferido era, para eles, motivo de parar.
Kang Mujin apertou firme o punho da espada. Para aqueles homens, as pessoas eram peças que formavam a linha de batalha, e a peça que deixava de servir bastava jogar no meio da estrada.
Ele não ergueu a voz.
— O primeiro aríete está entrando.
A enorme cabeça de ferro passou a quinze passos da muralha.
Kang Mujin inspirou fundo.
Quando os sentidos se espalharam em todas as direções, os grampos da muralha, as correntes do portão norte e as lâminas de lança da milícia tocaram-lhe primeiro as pontas dos dedos. Cada ferro, com sua própria temperatura e tensão, surgiu como brasa no escuro e, além deles, a placa de ferro da cabeça do aríete firmou-se pesada em sua percepção. A fresta entre as placas sobrepostas era mais fina que um fio de cabelo; se espalhasse a força, ela seria esmagada pelo peso do tronco.
Precisava segurar um único ponto.
Kang Mujin inverteu a espada, cravou a ponta no chão e sobrepôs as duas mãos no punho. As têmporas repuxaram tensas e as pontas dos dedos começaram a formigar.
O aríete entrou nos dez passos.
— Agora!
A milícia lançou as cordas com ganchos. Três das cinco prenderam-se aos punhos e aos anéis de ferro do aríete; os homens correram para o lado oposto puxando as cordas e, ao mesmo tempo, Kang Mujin segurou a borda esquerda da placa de ferro.
O ferro frio tornou-se nítido em sua palma como um bloco de metal em brasa. Ele não empurrou o tronco inteiro. Enfiou a força na fresta mal unida e a alargou aos poucos, uma polegada por vez, como quem crava uma cunha a martelo.
O aríete disparou em direção ao portão.
Dez passos.
Cinco passos.
Uma das cintas de ferro arrebentou.
Quando Kang Mujin torceu a mão esquerda, a cabeça do aríete girou meio palmo. Os milicianos que puxavam as cordas escorregaram na terra, mas ninguém soltou, e os pés dos inimigos que carregavam o aríete se embaralharam.
O tronco raspou o lado direito do portão norte.
Com um estrondo, o enchimento de terra da muralha afundou e duas estacas racharam. O impacto percorreu as correntes e os postes de fixação e ressoou até os sentidos de Kang Mujin, mas a linha de bloqueio não se abriu. O aríete inclinado enterrou-se de vez na vala ao pé da muralha.
— Um já era!
Doria girou o martelo de cabo longo sobre o portão norte. O gancho de uma escada que tentava se prender à muralha amassou e saltou para longe.
— Esses aí aguentam menos que a parede da minha forja!
O segundo aríete mudou de direção.
Os inimigos visavam o trecho nordeste da muralha, ainda pouco assentado. Ali a terra tinha sido posta havia pouco e, por falta dos núcleos de ferro preparados, o espaçamento dos reforços era maior que nos demais trechos. Não dava para saber se o inimigo descobrira por reconhecimento ou se escolhera o ponto fraco a olho.
De um jeito ou de outro, o movimento foi rápido.
Quando Silvana baixou a mão, um grupo de arqueiros elfos correu sobre as plataformas. Terwin disparou três flechas seguidas contra os carregadores do aríete. Duas foram detidas pelos escudos, mas a terceira cravou-se no anel de ferro da correia.
Então, do fundo das linhas inimigas, veio um estalo curto e grave.
— Abaixem-se!
No mesmo instante em que Kang Mujin gritou, virotes de besta despencaram sobre a muralha. Uma flecha grossa atravessou o ombro de um arqueiro elfo e o derrubou na plataforma, e dois milicianos foram atingidos antes de erguer os escudos e tombaram para trás.
A mão de Silvana que segurava o arco tremeu.
Foi um movimento brevíssimo.
Ela não correu até o companheiro de seu povo caído. Seguiu o ângulo e o som de onde as flechas vieram, olhou para o fundo das linhas inimigas e puxou a corda até o fim.
— Besteiros. Sob a tenda negra.
As flechas dos elfos convergiram num único ponto. As primeiras cravaram-se em sequência nos escudos diante da tenda, abrindo uma brecha, e o vento dos espíritos empurrou a cauda das duas seguintes. Depois que as últimas flechas passaram por cima dos escudos e desapareceram dentro da tenda negra, os disparos das bestas inimigas cessaram.
— Feridos para trás!
Rosen gritou.
Aisha chegou correndo, segurando uma das pontas de uma maca. O corpo de um homem adulto era demais para braços pequenos, mas quando uma refugiada ergueu o outro lado, Aisha acertou o passo desviando das lanças e flechas espalhadas pelo chão. Cada vez que a maca pendia, apenas cerrava os dentes; não disse que estava com medo nem que era pesado.
O segundo aríete alcançou a muralha.
Terra e madeira explodiram para dentro, as estacas entortaram e toda a plataforma sacudiu com força. Os arqueiros se agarraram ao parapeito e, pela fenda aberta, lâminas negras de lança entraram uma após a outra como línguas de serpente.
— Fechem o nordeste!
Rakan correu, desviou a primeira lança com o escudo e plantou o corpo diante da brecha. Cinco milicianos o seguiram e as lanças se estenderam todas juntas na direção da fresta estreita. Um soldado inimigo recuou, mas logo novos escudos e lanças vieram empurrando por trás.
— Abaixem a cintura! Não olhem a ponta da lança, olhem o ombro!
Rakan não tentou tapar a brecha por completo. Limitando a dois o número de inimigos que podiam entrar de uma vez, mantinha o escudo inclinado e escorregava as lâminas. A milícia estocava alternadamente atrás dele, mas o ritmo do combate real não batia como no treino. Quando uma lança avançou fundo demais e ficou presa no escudo inimigo, Rakan mesmo chutou a haste e a partiu.
— Perder o pescoço para salvar uma arma é mau negócio. Pega a próxima!
Kang Mujin deu um passo em direção ao nordeste.
— Kang Mujin!
O grito de Doria caiu de cima do portão norte.
As ombreiras cravejadas de vermelho se aproximavam, rasgando a parede de escudos. O comandante inimigo não foi até a brecha aberta pelo aríete. O gigante, com o machado-lança erguido na diagonal, caminhou direto para a linha da milícia diante do portão norte.
Kang Mujin percebeu a intenção.
A brecha do nordeste era isca. Prender ali Rakan e as reservas e, então, o próprio comandante quebraria a linha do portão norte.
O machado-lança descreveu um golpe largo.
Duas lanças da milícia se partiram de uma só vez e o gigante, com o escudo à frente, arremeteu o corpo contra a brecha aberta. A primeira fileira foi empurrada e os calcanhares dos que estavam atrás cavaram fundo a terra. Bastava um cair para toda a linha desabar.
Rakan olhou para trás. Uma lâmina negra de lança estava presa em seu escudo, e entre suas presas escapava uma respiração áspera.
— Mantenha essa posição.
Diante das palavras de Kang Mujin, Rakan arregalou os olhos, mas não deixou a brecha do nordeste.
— Termina logo, ferreiro!
— Assim farei.
Kang Mujin soltou uma volta da corrente do portão norte e abriu apenas o vão necessário para duas pessoas saírem. Doria saltou da plataforma e postou-se ao lado dele; na cabeça do martelo havia lascas de madeira da escada despedaçada.
— Não é a forja, mas você aceita que eu me meta, não é?
— Cuide da esquerda.
— Hum. Começa escolhendo o melhor lugar, hein.
Os dois saíram porta afora.
O machado-lança do gigante desceu sobre a cabeça de Kang Mujin. Ele não o aparou de frente com a espada: desviou meio passo e empurrou a haste com o dorso da lâmina. No instante em que a lâmina do machado mordeu o chão, o impacto ressoou pela braçadeira de encaixe.
A lâmina do machado em si era rija, mas o ferro que a ligava à haste era grosso demais. O ferro acrescentado para aumentar o peso não dispersava o impacto: concentrava-o num único ponto. Era uma fibra que rachava se golpeada três vezes no mesmo lugar.
O escudo do gigante mirou o peito de Kang Mujin.
Do lado, o martelo de Doria voou e açoitou a borda esquerda do escudo. A placa de ferro afundou e o corpo do gigante girou meio passo, mas por essa brecha duas lanças negras avançaram contra Doria.
— Os peixes miúdos são comigo!
Doria afastou a primeira lança com o cabo do martelo e empurrou a segunda lâmina com a braçadeira do antebraço. As pontas da barba bifurcada saltaram sobre o ombro, mas ele não teve sequer tempo de conferir se nenhum fio fora cortado.
O machado-lança do gigante varreu na horizontal.
Kang Mujin ergueu a espada e golpeou logo abaixo da braçadeira.
Uma vez.
O pulso formigou e a lâmina ganhou um pequeno entalhe. Para uma espada decente, era um impacto a evitar, mas agora o necessário não era a vida útil do fio, e sim a destruição da arma inimiga.
O gigante logo abandonou a distância do machado-lança e passou a pressionar com o escudo. Não dava para saber se percebera o ponto fraco, mas não parecia disposto a ceder o mesmo lugar com facilidade. A cada movimento curto da quina do escudo, Kang Mujin era empurrado um passo para trás.
A vala diante do portão norte tocou-lhe os calcanhares.
O escudo do gigante tomou todo o seu campo de visão.
Kang Mujin agarrou o ferro sob a terra. Três núcleos de ferro, enterrados ali por serem curtos demais para reforçar a muralha, jaziam inclinados sob a vala. A superfície de ferrugem rasa e o corte áspero eram nítidos mesmo através da terra.
Quando ele puxou os dedos, um dos núcleos rompeu a terra e ergueu-se.
O tornozelo do gigante prendeu, o corpo desabou para a frente e, naturalmente, o escudo baixou. A espada de Kang Mujin golpeou de novo a braçadeira exposta.
Duas vezes.
A trinca chegou-lhe às pontas dos dedos.
O gigante rugiu e desceu o machado-lança. Kang Mujin torceu o corpo, mas a ponta da lâmina raspou a ombreira; sob o couro algo se abriu em ardência e a força esvaiu-se do braço direito.
O terceiro golpe não podia ser dado com a espada.
Kang Mujin estendeu a mão esquerda e agarrou diretamente a braçadeira trincada.
O ferro resistiu com aspereza. Era arma empunhada pelo inimigo e, além disso, ele já gastara muita força para quebrar o primeiro aríete. As juntas dos dedos ardiam como se prensadas por tenazes em brasa, e dentro das têmporas a dor pulsava no compasso do sangue.
Ainda assim, a trinca não mentia.
Um caminho, uma vez aberto, aprofundava-se a cada nova força.
Kang Mujin torceu a mão.
A braçadeira rasgou-se e a lâmina do machado desprendeu-se da haste. Pela primeira vez, os olhos do gigante se arregalaram.
Kang Mujin afastou a haste restante com o dorso da espada e enfiou o ombro. No instante em que o gigante tentou erguer o escudo às pressas, o martelo de Doria acertou o joelho do outro lado.
— Basta um joelho para o sujeito se ajoelhar!
A armadura amassou e o gigante pôs um joelho no chão. A ponta da espada de Kang Mujin apontou para baixo do elmo.
— Solte a arma.
O gigante não soltou a haste partida. Mesmo com um joelho destruído, sacou a adaga da cintura.
Kang Mujin esperou um tempo.
No instante em que a adaga avançou, a espada dele penetrou primeiro sob o elmo. O gigante tombou para a frente sem conseguir se levantar, e as ombreiras cravejadas de vermelho bateram no chão de terra.
A linha inimiga vacilou.
Doria ergueu o martelo sujo de sangue.
— O chefe de vocês esfriou!
Do nordeste explodiu o brado de Rakan.
— Empurrem!
A milícia estendeu as lanças de uma só vez. Os arqueiros elfos perfuraram com precisão as mãos e os ombros dos soldados que tentavam transpor a muralha, e a flecha de Terwin cortou a última correia que prendia o aríete. Sem apoio, o tronco rolou para o lado e três inimigos colados à muralha desviaram-se às pressas.
Rosen agitou a bandeira do lado de dentro do portão norte.
A segunda fileira da milícia, que aguardava, saiu porta afora. Não se atiraram sobre os inimigos caídos: primeiro tomaram os escudos abandonados, ergueram-nos e retomaram o espaço aberto passo a passo. Refugiados humanos seguravam os escudos, os homens-fera guardavam o flanco, e por cima de suas cabeças passavam as flechas dos elfos.
Eram mãos diferentes umas das outras, mas não havia brecha.
Atrás da linha negra, uma corneta de chifre soou longamente.
Os inimigos começaram a recuar. No início mantiveram a ordem com os escudos à frente, mas depois de abandonar o aríete o passo acelerou e, como não recolhiam os feridos, brechas se abriram por toda a formação.
Os elfos retesaram os arcos.
Silvana ergueu a mão.
— Estão fora de alcance.
Terwin observou de dentes cerrados o inimigo em retirada. Pouco depois, seus dedos soltaram a corda.
Kang Mujin também não ordenou perseguição. A muralha nordeste estava meio desabada e havia lugares vazios na formação da milícia. Atacar um inimigo de costas aumentaria um pouco a vitória, mas aumentaria na mesma medida o número dos que não voltariam.
— Fechem o portão.
As correntes voltaram a se retesar.
As bandeiras negras se afastaram para além do ermo, mas a comemoração não veio de imediato. As pessoas primeiro conferiram quem estava de pé ao seu lado, depois procuraram os caídos no chão. Só então explodiu um grito breve, mas o brado que alguns repetiram não durou muito.
Ainda havia trabalho a fazer.
Os feridos eram treze. Entre eles, um arqueiro elfo e dois milicianos não recobraram a consciência e, entre os demais, poucos tinham apenas ferimentos leves. Enquanto Rosen contava o que restava de ervas e ataduras, Silvana destacou para os cuidados dois arqueiros que sabiam manejar a arte dos espíritos.
A respiração dos três era tênue, mas não se rompeu.
Era preciso reerguer cerca de seis passos da muralha nordeste. Mais da metade das flechas preparadas havia sumido, cinco lanças se partiram e um dos grampos que fixavam a corrente do portão norte estava trincado. Quatro dos escudos da milícia estavam rachados demais para servir na próxima batalha.
Com um pano enrolado no ombro ensanguentado, Kang Mujin sentou-se diante do grampo da corrente.
Aisha, ao lado, separava os cravos danificados. As mãos pequenas estavam pretas de fuligem e terra, e numa das mangas havia uma mancha de sangue de que ninguém sabia a origem.
— Esse dá para usar de novo?
A criança ergueu um cravo torto.
Kang Mujin o pegou e examinou a fibra por onde o impacto passara. Não estava torto só por fora: sob a cabeça havia trincas mínimas espalhadas.
— Assim, não.
— Nem se endireitar?
— Rachou por dentro.
Aisha ficou um bom tempo olhando o cravo.
— E se derreter?
— Aí dá para usar de novo.
A criança pôs o cravo não no cesto de descarte, mas no cesto de sucata. Em seguida pegou o próximo e, desta vez, sem perguntar, esfregou a superfície com o dedo procurando primeiro as trincas.
Silvana se aproximou. O arco ainda estava em sua mão e, na manga, o sangue de seu povo secava.
— Vou apresentar o relatório ao Conselho dos Anciãos.
— Faça isso.
Ela olhou uma vez em direção à enfermaria. O peito do arqueiro elfo que havia caído subia e descia lentamente.
— Que vinte e quatro lutaram, e vinte e quatro voltam.
Kang Mujin respondeu enquanto retirava o grampo danificado.
— Faça com que todos voltem pelo próprio pé.
Silvana ficou um momento em silêncio. Por fim, dobrou para cima a manga manchada de sangue, pegou o grampo novo no chão e o entregou a Kang Mujin.
Rakan guardou a entrada da enfermaria sem baixar o escudo. No escudo havia sete marcas de lança e o braço esquerdo também sangrava, mas, quando lhe disseram para se tratar, apenas balançou a cabeça dizendo que os de dentro eram mais urgentes.
Rosen anotou na mesma folha a lista de feridos e as quantidades de suprimentos gastos. Em lugar nenhum escreveu a palavra vitória. Em vez disso, preencheu sem falhas o comprimento da muralha desabada, os mantimentos restantes e o número de pessoas capazes de assumir o próximo turno.
Doria arrastou até ali a lâmina de machado partida.
— O gosto do ferro é péssimo. Mesmo assim, derretendo dá umas centenas de cravos de parede.
— Recolha as armaduras também.
— Todas?
— Todas.
Kang Mujin pôs sobre a bigorna o grampo trincado da corrente.
— Primeiro é preciso consertar os grampos das macas.
Doria alisou a barba uma vez, mas não veio a resposta rouca de sempre. Limpou a terra do martelo e arrastou a lâmina partida do machado para junto da forja.
Ao pôr do sol, os fogos do Baluarte de Aço foram acesos de novo.
Enquanto de um lado cuidavam dos feridos, do outro tapavam a muralha desabada. Os elfos selecionavam as hastes de flecha quebradas, a milícia arrancava as cintas de ferro aproveitáveis dos escudos inimigos e os refugiados carregavam terra e pedra. Ninguém separou as filas por raça. As mãos iam para onde eram necessárias.
Kang Mujin cravou o último prego do novo grampo da corrente.
Tang.
O som do martelo espalhou-se pela escuridão.
A primeira batalha defensiva de verdade contra as tropas de elite enviadas por Grimoire havia terminado. A muralha, a milícia, o corpo de arqueiros elfos e as armas do Baluarte de Aço engrenaram pela primeira vez num mesmo campo de batalha e, ainda inacabados, não se partiram.
Mas Kang Mujin não esqueceu a quantidade de ferro que recuara para além do ermo. O que voltou era mais do que o que tombou e, por mais que fossem tropas de elite, não deviam ser o grosso do exército de Grimoire.
Ele pegou um dos cravos vermelhos do comandante inimigo, deixado sobre a bigorna.
Na face interna da cabeça do cravo havia, em miniatura, o brasão de uma coroa envolvendo um chifre de três pontas. Nas armaduras e escudos recolhidos havia cravos vermelhos do mesmo molde e, somando os registros de baixas e de efetivo em retirada feitos por Rosen, só o que os recuados levavam consigo chegava a centenas.
O observador que desceu da torre norte relatou que as luzes do inimigo haviam parado em três pontos além do ermo. No mapa deixado pelo batedor, as pegadas da retirada não apareciam dispersas: estavam marcadas como rastros que se dividiam para os dois lados do baluarte.
Kang Mujin atirou o cravo vermelho na forja.
— Doria.
— Estou ouvindo.
— A partir de amanhã, a forja não descansa.
Doria segurou a alavanca do fole.
— Hum. Agora sim você fala com gosto de ferro.
As chamas subiram alto.
O inimigo não se afastara.
Sobre os registros de reconhecimento, media o perímetro do Baluarte de Aço.
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