O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 18 — A Resposta da Floresta

A chama da forja subiu.

Cada vez que Doria puxava a alavanca do fole, uma luz branca se espalhava entre os carvões, e Kang Mujin pôs sobre a bigorna a tira de ferro aquecida, e, sendo peça destinada a contornar a borda de um escudo, não precisava ser dura como uma lâmina. Importava mais acertar por igual a espessura e a temperatura, de modo que fosse tenaz o bastante para não se partir com o impacto e ainda assim pudesse vergar acompanhando a curva do escudo.

O martelo desceu três vezes.

Diante da quarta batida, Kang Mujin parou a mão, e era porque a massa de ferro que descera a noite toda pela trilha da montanha a noroeste se aproximava e as texturas distintas ficavam nítidas. O metal que vinha da fila da frente era, em quase tudo, fino e leve, e pequenas pontas forjadas com peso uniforme balançavam no compasso dos passos. As finíssimas estrias em espiral que restavam em cada ponta eram iguais às das flechas de Silvana que ele havia ajustado tempos antes.

— São elfos.

Doria virou a cabeça sem soltar a alavanca do fole.

— Todo aquele ferro são flechas?

— Quase tudo.

— Os arqueiros trouxeram o bastante para esvaziar uma floresta inteira.

Kang Mujin tateou outra vez o outro sinal que restava ao norte, e as chapas grossas de ferro, as longas lâminas de lança e o metal que parecia a borda de escudos largos seguiam além da cordilheira distante. Não haviam se aproximado durante a noite; pelo contrário, pareciam ter parado algum tempo para medir o rumo.

Não eram o mesmo grupo.

Nem por isso a ameaça desaparecera.

Quando da muralha vieram, um atrás do outro, os sons de cordas retesadas, Kang Mujin pousou o martelo e saiu, e do lado de dentro do portão norte a milícia estava reunida, e Rakan, abaixado, farejava o vento. Suas orelhas se ergueram retas na direção da encosta.

— Não há cheiro de sangue. Nem cheiro de demônio.

— São gente vinda da floresta.

— Silvana?

— Deve ser.

Quando Rakan baixou a mão, os milicianos baixaram os arcos, mas não deixaram os postos. Um jovem humano que começara o treino havia pouco deixou a flecha cair no chão ao tirá-la da corda, e Rakan apontou com o queixo.

— Apanha.

O jovem curvou-se depressa.

— Numa luta, quem abaixa a cabeça para apanhar morre antes de quem deixou cair.

O jovem mordeu os lábios, apanhou a flecha e voltou à formação.

Kang Mujin parou diante das duas camadas de correntes de ferro que bloqueavam o portão norte, e duas carroças estavam postas de través do lado de dentro, e das estacas de ferro cravadas às pressas ainda vinha cheiro de óleo. Rosen, que chegou correndo enquanto vestia o sobretudo, mandou primeiro um homem subir à torre e depois examinou a trilha da montanha a noroeste.

— Parece que veio a resposta do Conselho dos Anciãos.

— Ainda não sabemos se é uma boa resposta.

— Se fosse só recusa, Silvana teria voltado só.

As luzes vermelhas se aproximaram. Cada vez que as capas postas sobre as tochas tremiam ao vento, escapava um fio de luz, e por fim Silvana, à frente da coluna, surgiu.

Na ponta do manto verde, a terra do longo caminho secara. Atrás vinham vinte e quatro arqueiros elfos, todos carregando o arco e duas aljavas, e no peito e nos ombros traziam armaduras leves feitas de placas rígidas de madeira trançadas com couro em camadas.

Pararam todos ao mesmo tempo a trinta passos do portão norte, e só Silvana avançou.

— Silvana Eilen, em missão do Conselho dos Anciãos dos elfos da floresta, está de volta.

Kang Mujin mandou soltar as correntes.

— Entrem.

— Antes, tenho algo a transmitir.

A mão de Silvana apertou o arco.

— O Conselho dos Anciãos não firmou aliança com o Baluarte de Aço. Tampouco reconheceu este lugar como nação ou domínio.

Sobre a muralha ergueu-se um pequeno murmúrio, mas Silvana não mudou o ritmo da fala.

— O que o Conselho dos Anciãos reconheceu foi a ameaça na fronteira e a veracidade do relatório que apresentei. Em razão disso, autorizou por uma estação que eu leve comigo, sob meu próprio juízo, um pequeno destacamento de arqueiros.

Rosen perguntou, em voz baixa.

— Quer dizer que não é uma tropa oficialmente enviada pelo Conselho dos Anciãos?

— Exato. A responsabilidade de selecionar voluntários e definir quem comanda é minha, e o Conselho dos Anciãos apenas permitiu essa margem de decisão de forma limitada.

As tropas vieram, mas não vieram nem o estandarte da floresta nem a promessa de uma aliança plena. Se as coisas azedassem, o Conselho dos Anciãos poderia traçar a linha dizendo que aqueles não eram exército regular, e, em caso de fracasso, poderia deixar tudo como erro de julgamento pessoal de Silvana.

Kang Mujin olhou a terra grudada no manto de Silvana, e o polegar que esfregava devagar a madeira do arco estava mais rígido que de costume.

Não era a mão de quem voltara com a resposta que queria.

Mas também não era mão vazia.

Dentre os elfos, um homem de cabelos grisalhos deu um passo à frente.

— São os que se retiraram da guarda das trilhas da floresta e voluntários da fronteira. Vinte e quatro arqueiros, eu incluído; Terwin Raesar os comanda.

Ele percorreu com o olhar a muralha, a paliçada e as carroças que bloqueavam o portão norte, e menos que o rosto de quem vê um lugar onde será bem recebido, aqueles eram olhos à procura do ponto por onde tudo desabaria.

Kang Mujin perguntou:

— Quais são as condições?

Silvana respondeu:

— O comando do destacamento de arqueiros é de Terwin. Se for confirmada a possibilidade de resgatar prisioneiros do nosso povo, essa missão terá prioridade, e, caso o Baluarte de Aço invada primeiro o território dos demônios, não entraremos no combate. Passada uma estação, cada um decidirá de novo se permanece.

Rakan soltou um riso pelo nariz.

— Não vieram lutar, vieram assistir.

Os olhos de Terwin se estreitaram.

— A interpretação do lobo começa sempre pelo barulho?

Quando as orelhas de Rakan se dobraram para trás, Kang Mujin pôs-se entre os dois.

— Vieram até aqui só para assistir?

Terwin encarou Kang Mujin. Seu olhar demorou-se mais nas mãos do que no rosto, como se conferisse, uma a uma, as marcas de queimadura, os calos e a limalha de ferro sob as unhas.

— Vim julgar se o que Silvana Eilen viu é verdade.

— Basta olhar.

— Mesmo que não sigamos suas ordens?

— O posto que se assume deve ser mantido.

— E quem define o posto?

Kang Mujin apontou a muralha a nordeste, e ali o terreno era baixo, e um riacho seco contornava a muralha por fora, criando ângulos mortos. Em troca de um campo de visão aberto até a orla distante da floresta, havia pouco abrigo: era um posto onde, na mesma medida em que se via primeiro o movimento do inimigo, também se ficava exposto primeiro.

— Que decida quem atira mais longe.

Terwin examinou o lugar.

— Acha que está nos cedendo um bom posto?

— É um posto perigoso.

— Franco.

— Muros não sustentam mentira por muito tempo.

Kang Mujin mandou retirar as correntes por completo.

— Fique com o comando. Só que, quando o sino de alerta tocar, é preciso ir ao posto combinado. Vale igual, seja qual for o povo atacado.

Terwin ficou um tempo sem responder, olhando Silvana, e Silvana não acrescentou palavra.

Por fim, quando ele ergueu a mão, os vinte e quatro arqueiros atravessaram o portão norte.

Os moradores do Baluarte de Aço recuaram para os dois lados do caminho. As crianças olhavam as orelhas longas e os mantos verdes, e nos rostos dos adultos subiam ao mesmo tempo expectativa e cautela, e também os elfos não paravam de examinar a carroça puxada por um homem-fera caprino, a paliçada erguida pelos humanos, o velho orc que socava a terra.

Terwin parou diante da chapa negra de ferro pendurada em frente à forja. Era uma placa arrancada do equipamento de um prisioneiro demônio; as letras gravadas haviam sido apagadas, e ao lado restava apenas a pequena marca de Kang Mujin.

— O que é aquilo?

— É o registro deixado pelos que capturamos.

— Capturaram demônios vivos?

— Pegamos três.

Silvana acrescentou:

— No dia seguinte ao que cheguei à orla da floresta, os espíritos do vento que eu deixara para trás trouxeram a tabuleta de ferro lacrada do escrivão do baluarte. Nela estavam o registro dos três prisioneiros mantidos presos à parte e interrogados em separado durante minha ausência, além do emprego das tropas e das rotas de transporte de escravos, de modo que a apresentei ao Conselho dos Anciãos como relatório complementar.

Terwin falou sem tirar os olhos da chapa negra.

— Os anciãos leram até aquela tabuleta lacrada.

Sua voz baixou um pouco.

— E, mesmo tendo lido, só autorizaram vinte e quatro.

Os dedos de Silvana apertaram o arco uma vez.

Quando Kang Mujin entrou na forja, Terwin e alguns arqueiros o seguiram, e diante do fogo Doria tornava a aquecer a tira de ferro, sem sequer virar a cabeça com a entrada dos desconhecidos.

— Tira o pé. Está tapando o caminho do ar.

O elfo parado na entrada ergueu as sobrancelhas.

— Viemos com a permissão do Conselho dos Anciãos.

— Se a forja esquentar ao ouvir o nome do Conselho dos Anciãos, fica aí parado, então.

Doria retirou a tira incandescente e bufou pelo nariz.

— Hrm. Senão, sai da frente.

Quando Terwin ergueu a mão, os elfos recuaram para junto da parede.

Kang Mujin recebeu uma das flechas deles, e a haste era reta, o ângulo das três penas era exato, e na ponta se usara aço de alta pureza. Só que a têmpera fora dura demais: boa para atravessar o couro dos bichos da floresta, mas capaz de lascar na ponta se batesse de viés na borda de um escudo.

— Já atirou contra armadura de demônio?

— Três vezes.

— E o resultado?

— A menos de cem passos, atravessei a axila e o pescoço.

Kang Mujin pressionou a ponta com o dedo, e a fibra do metal vibrou fina dentro de seus sentidos, e a tensão nascida no processo de têmpera estava concentrada no extremo da ponta.

— É uma flecha bem feita.

Terwin esperou calado a frase seguinte.

— Só que o próximo inimigo virá com escudos grandes.

Kang Mujin encostou a ponta no fogo brando da borda da forja e girou devagar a haste. Depois de deixá-la absorver o calor sem que este se acumulasse de um lado só, retirou-a no ponto em que a tensão do aço cedia sem que o fio desmoronasse e a deitou nas cinzas.

Terwin disse:

— Amoleceu o extremo da ponta.

— Não vai quebrar.

— Em troca, vai penetrar menos.

Kang Mujin tirou de baixo da bigorna um protótipo de extremidade recurvada como um gancho.

— Não é preciso atravessar o escudo. Basta que se prenda na borda ou na junta.

— Puxa-se a linha por trás, o escudo inclina, e o arqueiro seguinte atira na fresta.

— Isso mesmo.

Terwin girou o protótipo três vezes, encaixou-o numa haste e verificou o centro de gravidade, e Kang Mujin não procurou admiração no rosto dele. Bastava a mão que examina a peça.

— Quantas das nossas flechas dá para ajustar?

— Com duas pessoas na tarefa, cento e cinquenta até o nascer do sol.

Doria interveio, batendo o martelo.

— Na minha forja, quem entra para ajudar quem decido eu.

— Então decida.

— Dois elfos. Dos de mãos rápidas. Martelo não encosto na mão deles. Só hastes e penas.

Quando Terwin apontou dois, eles avançaram com cara de poucos amigos, mas não reclamaram.

Aisha se aproximou com uma bandeja de ferro para guardar as pontas, e a criança, depois de examinar longamente os desconhecidos, pôs-se ao lado de Kang Mujin e perguntou:

— Os elfos também são do nosso lado?

A forja ficou um instante em silêncio.

Kang Mujin esperou que Terwin respondesse.

Terwin olhou a ponta da orelha de Aisha e a cicatriz clara que restava na nuca, e pousou na bandeja a flecha que tinha na mão.

— Durante uma estação, sim.

— E depois?

— Transmitimos o que vimos e decidimos de novo.

Aisha pegou uma ponta e a ergueu à altura dos olhos, girando-a devagar para ver se não havia torção, como aprendera com Kang Mujin, e, ao pousá-la na bandeja, disse:

— Então é só olhar direito.

O martelo de Doria desceu de novo.

Naquela manhã, elfos e anões ajustaram flechas junto à mesma forja.

Os arqueiros que Terwin trouxera adiaram o sono e se deslocaram para a muralha nordeste. Ele mesmo mediu as passadas para definir as posições de tiro, fincou galhos brancos sobre a muralha para marcar as distâncias e então separou as flechas a usar em cada alcance.

Quando os milicianos humanos ficaram observando aquilo, um dos arqueiros elfos os chamou:

— Peguem os arcos.

— Nós?

— Pretendem segurar só lanças com essas mãos?

Pouco depois, alvos de palha foram erguidos ao pé da muralha. Os elfos ensinaram a humanos e homens-fera a respiração e o ângulo dos pés, e, ao segundo erro igual, empurravam braços e pernas com a madeira do arco para corrigir a postura.

Rakan, de braços cruzados, olhou por um tempo e perguntou a Terwin:

— Vão se meter até no nosso treino?

— Evitar que atravessem as costas do companheiro ao lado não é se meter.

— Nisso tem razão.

— Então o lobo também entende o que é certo.

Rakan mostrou as presas.

Kang Mujin passou entre os dois e disse:

— Levantem mais um alvo.

Rakan soltou o ar pelo nariz.

— Se não fosse você, eu já teria mordido.

— Aí teríamos um combatente a menos.

— Eu sei.

Por volta do meio-dia, Silvana procurou Kang Mujin.

Kang Mujin aparava as barras de ferro que seriam cravadas do lado de dentro da muralha. O ferro extraído do veio estreito sob a terra tinha muitas impurezas e não servia para lâminas, mas bastava como pino para prender pedra e madeira.

Silvana esperou até que a martelada terminasse.

— Vou lhe contar mais sobre o que houve no Conselho dos Anciãos.

— Diga.

— Na subcomissão de sete anciãos que examinou primeiro a questão da fronteira, dois se opuseram até mesmo ao envio sob meu próprio juízo. Disseram que não se pode mandar sangue élfico para um posto erguido por humanos. Três autorizaram um teste limitado, e os outros dois não declararam posição até o fim. Não foi uma votação formal dos doze anciãos.

— E o que você disse?

— Disse o que vi.

A voz de Silvana era lenta e precisa.

— Falei de alguém que destroçou um comboio de escravos e nem assim contou primeiro os espólios; de um ferreiro que consertou o arco de um elfo e a espada de um homem-fera sobre a mesma bigorna; de um posto que gravou numa placa de ferro o nome escolhido por uma criança libertada e a protegeu inscrevendo-a na lista provisória de rações.

Kang Mujin virou a barra de ferro.

— Não bastou.

— Não bastou. Para os anciãos, a promessa de um humano é curta. Ainda que aposte toda a vida que lhe resta, para eles não passa de uma estação.

— Pode ser.

— Não lhe dá raiva?

Kang Mujin ergueu a barra com a tenaz, e de um lado o calor ainda não saíra de todo: deixada assim, o interior entortaria enquanto esfriasse.

— Ferro velho não endireita com uma única fornada.

A mão de Silvana parou.

— É preciso pôr no fogo quantas vezes forem necessárias. Procurando a temperatura em que não quebre.

Kang Mujin enterrou de novo a barra nas cinzas.

— Vinte e quatro já basta.

— Eles vieram mais para julgar do que para ajudar.

— Deixe que julguem.

— Podem julgar mal.

— Então mostramos de novo.

Silvana olhou para a muralha, e das flechas que voaram ao comando de Terwin a primeira cravou-se à esquerda do alvo, e a segunda ficou perto do centro.

— Não vou deixar de pé uma conclusão tirada de um olhar errado.

A voz não subiu de tom.

— Se houver quem não tenha escutado, falarei até que escute.

Kang Mujin ergueu o martelo.

— Vai ter muito trabalho.

— Sim.

Silvana voltou direto para a muralha.

Quando o sol pendia para oeste, a disposição dos vinte e quatro arqueiros estava concluída.

Oito se posicionaram sobre a muralha, oito nas plataformas de madeira atrás, e os outros oito ficaram com a rendição e o deslocamento, e Silvana, sem constar da estrutura do destacamento de arqueiros, ia e vinha entre eles cuidando da ligação e da arte dos espíritos. Rosen passou aquela disposição para a planta, e as marcas de distância à moda élfica, o sino de alerta à moda humana e os horários de rendição da milícia definidos por Rakan ficaram escritos juntos numa mesma folha.

— Só agora isto merece o nome de linha de defesa.

Disse Rosen.

Kang Mujin correu o olhar ao longo da muralha, e ao norte estavam Rakan e a milícia, e a nordeste os arqueiros de Terwin haviam tomado posição. Silvana ligava as duas linhas, e na forja, enquanto Doria forjava a última ponta em gancho, Aisha amarrava as flechas prontas em feixes de dez.

Eram mãos diferentes.

Diferente o modo de segurar o arco, diferente o modo de empilhar pedra. Ainda não dava para chamar aquilo de um bloco só, e por toda parte restavam frestas como entre dois ferros encostados, mas frestas assim só se reduzem levando ao fogo e batendo.

Terwin desceu para o pé da muralha.

— A partir desta noite, o nordeste é nosso.

— Que seja assim.

— Não recebo ordens suas. Mas obedecerei ao sino de alerta.

— É suficiente.

— Quem decide se é suficiente será o inimigo.

Nesse momento, o sino soou na torre norte.

Uma vez.

Desta vez ninguém se atrapalhou.

Quando a milícia se moveu para os postos combinados, os elfos ergueram os arcos sem uma palavra, e, enquanto Doria fechava a boca do fole, Rosen dobrou a planta e a guardou no peito, e Aisha levou para junto da parede as flechas que estava amarrando.

Rakan gritou do alto da torre:

— Norte! Seis montados!

Kang Mujin sentiu que alguns pedaços pequenos de ferro haviam se destacado do grupo que passara a noite além da cordilheira. Peitorais finos, sabres curvos e freios de cavalo cruzavam depressa o ermo ao norte franco, enquanto o ferro pesado atrás deles permanecia imóvel além da cordilheira.

Era um destacamento avançado de observação.

— O portão não se abre.

Assim que Kang Mujin falou, Rakan armou os escudos atrás do portão norte. Os milicianos pegaram as lanças e se puseram entre as carroças, e, de tanta força nas mãos, as pontas tremiam um pouco, mas ninguém saiu da formação.

Já os elfos que subiram à muralha nordeste não se apressaram.

Quando Terwin, alternando o olhar entre as marcas de galho branco e a distância dos cavaleiros, ergueu dois dedos, dezesseis arqueiros — fora os oito da rendição — inclinaram os arcos cada um em um ângulo diferente. Ao pé da muralha, sem ninguém ao lado, Silvana pousou a mão sobre a relva seca.

Os espíritos do vento correram entre as folhas de capim.

As marcas brancas que balançavam pararam todas ao mesmo tempo.

Os cavaleiros descreveram um arco largo, como que medindo o alcance do baluarte. Enquanto o demônio da frente se erguia na sela para examinar a altura da muralha e a estrutura do portão norte, dois que vinham atrás sacaram dardos curtos.

Um dedo de Terwin se dobrou.

Três cordas soaram primeiro.

A primeira flecha cravou-se dois passos à frente das patas dianteiras do cavalo da frente e o fez desviar para o lado; a segunda roçou o antebraço armado de dardo do cavaleiro da retaguarda. A última flecha trazia a ponta em gancho forjada por Doria. Ela não se prendeu ao corpo do cavaleiro, mas à argola de ferro pendurada sob a sela, e, quando a linha fina amarrada à ponta ficou tensa, dois arqueiros atrás da muralha abaixaram o corpo ao mesmo tempo.

A sela pendeu para um lado.

O cavaleiro rolou no chão do ermo, e o cavalo vazio fugiu arrastando as rédeas, e os cinco restantes viraram de imediato, mas Silvana já havia soltado a segunda flecha.

A flecha passou por cima do ombro do cavaleiro em fuga e cortou a correia de couro junto ao freio, e, quando o cavalo assustado ergueu a cabeça e se chocou com o cavalo ao lado, desfazendo a formação, Terwin abriu a mão.

Seis tiros seguiram, um a um.

Não eram flechas feitas para matar.

Dois caíram sobre a mão que segurava o dardo e no chão de terra diante dos cavalos, e os outros quatro se cravaram espaçados à direita da rota de fuga. Quando os cavaleiros foram empurrados para o caminho da esquerda, deixado livre pelas flechas, revelou-se a borda funda do riacho seco, e os dois animais da frente frearam bruscamente, embolando os cavalos de trás.

— Para fora!

Gritou Rakan.

Solta uma das camadas de corrente, Rakan e quatro milicianos saíram correndo pelo portão norte. O demônio caído no chão tentou sacar o sabre curvo, mas o escudo de Rakan prendeu-lhe o pulso, e os milicianos cercaram-lhe o pescoço e o flanco com as pontas das lanças.

Os cavaleiros em fuga não voltaram para salvar o companheiro.

Terwin não baixou o arco até o fim. Só depois que os inimigos saíram do alcance ele abriu a mão, e os arcos dos arqueiros desceram juntos, e, depois que os aliados saíram do portão, nenhuma flecha voou.

Pouco depois, Rakan voltou arrastando o prisioneiro pela nuca, e um dos milicianos tinha na face um corte fino aberto pelo roçar de um dardo, mas caminhava firme, e não houve mortos.

Terwin voltou-se para Kang Mujin.

— O posto que assumimos, nós o mantivemos.

— Eu vi.

— Eles também devem ter visto.

Kang Mujin tateou o ferro além da cordilheira. Os freios dos cavalos em fuga se afastavam depressa naquela direção, e os ferros pesados, até então parados, começaram a encurtar aos poucos a distância.

— Sim. Foram levar o relato.

Rosen mandou manter o prisioneiro preso à parte e então contou as flechas danificadas e as pontas em gancho recuperáveis, e uma das pontas entortara um pouco na extremidade ao bater na argola de ferro, mas não quebrara.

Quando Kang Mujin a apanhou, Terwin perguntou:

— E se não tivesse afrouxado a têmpera?

— Teria partido.

— Suponho que sim.

Terwin respondeu curto e voltou para cima da muralha, e não houve elogio nem desculpa, mas, ao sair, levava consigo mais uma ponta de flecha do protótipo.

O primeiro combate travado pelo destacamento de prova no Baluarte de Aço foi curto.

Mas ficou suficientemente claro o uso das flechas, a promessa do sino de alerta e em que momento os que servem sob comandos diferentes precisam parar juntos. Os elfos mantiveram seus postos, e a milícia saiu pelo portão sob aquelas flechas e voltou viva.

Não era uma aliança.

Ainda assim, nascera uma linha de defesa.

Mesmo depois que a noite caiu, o destacamento de arqueiros elfos não deixou os postos.

Silvana, por si, soltou os espíritos do vento rumo ao norte, e Terwin manteve a observação emparelhando os arqueiros de dois em dois. A milícia humana conferia o sino no compasso das rendições élficas, e Rakan fez com que as quatro pessoas que haviam saído do portão norte erguessem de novo as lanças nos mesmos intervalos.

O prisioneiro não abriu a boca. Só que, no interior do peitoral recolhido, havia uma tabela de padrão estampada em três linhas, e o sabre curvo recolhido dele era peça padronizada, de mesmo comprimento e peso que os sabres dos inimigos além da cordilheira. Não era equipamento de uma patrulha improvisada.

Kang Mujin ficou diante da forja, observando o movimento do ferro distante.

Além da cordilheira, as chapas de ferro alinhavam fileiras. As longas lâminas de lança dividiam-se em várias colunas e tornavam a juntar-se, e mais atrás duas massas especialmente pesadas moviam-se devagar. O que chegava não era o balanço de passos, mas a vibração constante que nasce quando muitos carregam algo aos ombros.

Doria chegou ao seu lado e alisou a barba.

— Aqueles de antes eram os olhos.

— Eram.

— Os olhos voltaram; da próxima vem o punho.

Em vez de responder, Kang Mujin pôs a ponta em gancho sobre a bigorna, aqueceu a extremidade torta em fogo brando, endireitou-a com duas marteladas e, antes que esfriasse, deixou na base a sua pequena marca.

A noite toda a forja não se apagou.

Antes do amanhecer, o elfo que vigiava o norte bateu na muralha com a madeira do arco, e o som não foi alto, mas todos os que conheciam o sinal combinado se levantaram.

Silvana subiu à torre e Rakan foi para diante do portão norte. Enquanto Rosen guardava no peito a planta e o registro de nomes, Doria pôs ao ombro o martelo de cabo longo, e Aisha levou os feixes de flechas prontas para o pé da muralha.

Kang Mujin tirou o avental e o deixou dobrado sobre a bancada.

O ferro que a noite toda vinha se alinhando começou a mover-se atrás da cordilheira, e bordas grossas de escudo, chapas de armadura e centenas de lâminas de lança desciam para o ermo no mesmo compasso de passos. Atrás, dois metais pesados, carregados aos ombros e repartidos entre muitos, aproximavam-se devagar, mas sem parar.

A cordilheira ainda escondia a figura do inimigo.

Mas o ferro não conseguia se esconder.

Kang Mujin pegou a espada e seguiu para o portão norte.

Fim do capítulo 18

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