O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 1

Capítulo 1 — A última têmpera

A cada queda do martelo, o aço soltava um breve tinido, e Kang Mujin escolhia o ponto do golpe seguinte ao ouvi-lo. As marcas se sobrepunham na lâmina incandescente, mas não eram vestígios de golpes ao acaso. Quando a batida seguinte comprimia a borda da marca anterior, o metal deslocado voltava a se reunir no centro da lâmina.

Tang.

Saltaram fagulhas.

Tang.

A lâmina se endireitou.

O suor escorria pelo rosto de Kang Mujin diante da forja. O avental grosso e as pontas das mangas estavam impregnados de um cheiro de carvão que não saía por mais que fossem lavados, mas ele não se importava. No aço bem forjado e nas roupas de trabalho gastas pelo uso, sempre ficavam marcas impossíveis de apagar.

Ao girar a tenaz, a luz da lâmina mudou. A superfície alaranjada havia baixado para o vermelho; se continuasse a martelá-la agora, o aço não obedeceria. Até se alongaria à força, mas sua estrutura seria danificada. Kang Mujin pousou o martelo e devolveu a lâmina à forja.

O ar do soprador penetrou entre os carvões, fazendo as chamas se dobrarem para dentro e brilharem mais. Kang Mujin estreitou os olhos e observou a cor do metal enquanto aquecia. Havia um termômetro, e um medidor infravermelho estava pendurado numa das paredes, mas a decisão final sempre cabia aos olhos e às mãos.

Mesmo o vermelho variava de um aço para outro. O teor de carbono, o número de dobras e as tensões que restavam no interior alteravam a profundidade daquele brilho. Uma vez danificada a estrutura, desbastar a superfície não a restaurava. Kang Mujin leu as forças que se soltavam e se reuniam dentro da cor, e então retirou a lâmina.

Tang, tang.

Comprimindo as bordas das marcas anteriores, reuniu o metal no centro e trabalhou no mesmo ritmo, da ponta até onde se formaria o fio. Aquela não era uma peça encomendada nem destinada a exposição. Queria descobrir quanto do que aprendera ao longo de décadas conseguiria preservar por inteiro numa única espada. Passara três meses escolhendo o aço e descartara o material duas vezes até chegar àquela lâmina.

Não sobrepusera camadas inúteis para multiplicar os desenhos, e reduzira os adornos ao mínimo. Uma espada precisava se manter firme na mão, resistir à quebra e permitir que o fio danificado fosse afiado outra vez.

— Uma espada tem que ser uma espada.

Quando levou a lâmina incandescente para debaixo da luz, viu que a linha central se desviava para a esquerda pela espessura de um fio de cabelo. Pressionou aos poucos a parte torta contra a borda arredondada da bigorna. Quanto mais macio o aço, maior o risco de danificar a estrutura do lado oposto ao tentar corrigi-lo de uma vez. Só depois de repetir três vezes o aquecimento e a inspeção a linha ficou reta.

A fama de ser o melhor em nada ajudava naquele julgamento. Ao erguer o martelo, as perguntas eram sempre as mesmas. Foi bem forjado? Serve de fato para o uso? Vai resistir por muito tempo?

Kang Mujin aplicou uma mistura de argila e pó de pedra de afiar, fina no fio e grossa no dorso. Era a última preparação para obter, na têmpera, tanto a dureza do fio quanto a tenacidade do corpo. Sobretudo na ponta, mais suscetível a quebrar, deixou margem para que resistisse, em vez de ceder à ambição de torná-la ainda mais dura.

No instante em que pousou a espada preparada no suporte de secagem, um cheiro tênue, que não era de carvão nem de óleo, feriu suas narinas.

A mão de Kang Mujin parou.

Não era o carvão da forja, nem o cheiro do óleo ao aquecer. Era um odor acre, como de revestimento plástico queimando.

Ele virou a cabeça. No fundo da oficina, onde fios e tubulações acompanhavam a parede, um filete de fumaça cinzenta saía de perto do teto, ao lado do velho exaustor.

Kang Mujin desligou imediatamente o soprador da forja, fechou a válvula de gás e baixou o disjuntor de emergência na parede. As luzes se apagaram, deixando apenas a forja e a lâmina incandescente a derramar um brilho vermelho na escuridão. A fumaça, porém, não parou. Pelo contrário, saiu ainda mais densa pelas frestas do teto.

Ele pegou o extintor junto à porta. Retirou o pino de segurança, apontou o bocal para a fumaça e apertou a alavanca. Um jato de pó branco cobriu a parede e o teto. Por um instante, pareceu que as chamas recém-reveladas desapareceriam sob aquela camada, mas então algo estourou dentro da parede.

Pum.

O fogo correu numa longa faixa pelo isolamento do teto. Ao encontrar o material seco, não hesitou. Linhas vermelhas se ramificaram na escuridão e, num instante, cobriram o alto da oficina.

Kang Mujin aproximou o bocal, e o pó conteve as chamas, mas, quando um lado parecia se apagar, o outro ardia. O jato não alcançava o fogo que se espalhara por dentro do teto.

Precisava sair.

Kang Mujin empurrou a porta de ferro com o ombro, mas a parte inferior, deformada pelo calor, prendia no chão. Não se moveu. Depois de ele forçar a fechadura duas vezes com o martelo, placas em chamas caíram do teto diante da porta e bloquearam a saída.

Abaixou-se e foi até a janela lateral, cobrindo a boca e o nariz com a manga. Ao quebrar o vidro, expôs uma grade grossa e quatro pontos de solda. Sem energia, não podia usar a ferramenta de corte. Encostou um talhadeiro na junção menos profunda, no canto inferior esquerdo.

Clang.

Uma rachadura se abriu. Quando se preparava para o segundo golpe, um recipiente de óleo explodiu. A onda de pressão lançou uma estante de ferro sobre sua perna direita. Ele enrolou a tira encharcada do avental numa coluna e puxou o corpo, mas a estante se deslocou apenas uns dois dedos.

Sua última espada estava sobre ela.

A mistura de argila secara com o calor, e a lâmina voltava a ficar vermelha. A temperatura e a estrutura que ajustara com tanto cuidado ao longo de tantas horas estavam se desfazendo. Se continuasse ali, a superfície perderia carbono, os grãos cresceriam e, no fim, restaria apenas um pedaço de aço imprestável como espada.

Kang Mujin ficou olhando para ela por algum tempo.

Pensou que era uma pena.

Só isso.

A vida vinha primeiro. O aço podia ser forjado de novo. Enquanto ainda tivesse mãos e respirasse, poderia recomeçar do zero, mesmo que levasse anos.

Kang Mujin desatou a tira do avental na cintura e a passou em volta da coluna mais próxima. Puxou o corpo ao mesmo tempo que empurrava a estante. Uma dor surda subiu pela perna esmagada, e a estrutura, antes imóvel, oscilou muito levemente.

Ele fez força outra vez.

— Mexa-se.

Não sabia a quem dizia aquilo. À estante, à perna ou a si mesmo.

O pé de ferro raspou o chão e abriu uma brecha. Kang Mujin retirou o tornozelo. Naquele exato instante, o teto cedeu, e os materiais em chamas cobriram a janela e a bancada. A saída desapareceu.

Caído de bruços, puxou o martelo para perto e golpeou a solda da estante.

Tang.

No segundo golpe, uma sensação estranha penetrou pela palma de sua mão. A chapa dilatada pelo calor, a solda grosseira, o canto onde o peso se concentrava: tudo lhe pareceu mais nítido do que aos olhos. Kang Mujin atingiu o ponto mais fraco, e o pé da estante se partiu.

Seu corpo estava livre, mas já era tarde. Centenas de peças de metal invadiram seus sentidos de uma só vez: a estrutura de ferro nas paredes e sob o piso, os pregos e as tenazes da bancada, até a última espada entre as chamas. Sabia quais estavam quentes, onde as impurezas se acumulavam e o que se romperia no instante seguinte.

Até os canos e os vergalhões enterrados do lado de fora da oficina vibravam de leve.

O metal não mentia.

Kang Mujin também sabia que seu corpo chegara ao limite. Seus dedos perderam a força, o martelo caiu no chão, e, no canto de sua visão, a última espada brilhava branca sob o calor excessivo.

Não havia como salvá-la àquela temperatura.

Ele fechou os olhos devagar.

Não lhe veio à boca dizer que era injusto. Ainda tinha trabalho a fazer, e muito aço por terminar, mas não podia agarrar as chamas e exigir explicações. O fogo era fogo. Não levava em conta as circunstâncias de ninguém.

Se havia um arrependimento, era um só.

Não ter visto a têmpera de sua última espada.

Kang Mujin soltou um breve sopro.

— É só fazer de novo.

A voz se perdeu na fumaça.

A força para inspirar não voltou, e a sensação do corpo começou a se afastar pelas pontas dos dedos. O calor da oficina continuava o mesmo, mas agora parecia frio contra a pele.

Foi então que algo respondeu do outro lado das chamas.

Não era um som ouvido pelos ouvidos. Como a ressonância de dois metais ao se tocarem, uma frase se gravou no fundo de sua consciência.

— Forjarás de novo?

Kang Mujin tentou abrir os olhos, mas as pálpebras não se moveram. Tampouco conseguiu perguntar quem era. Seus lábios haviam endurecido, e a respiração já se extinguia.

Mesmo assim, a resposta estava decidida.

Se estava danificado, bastava consertar. Se estava quebrado, bastava derreter e fazer de novo. Enquanto restasse algo aproveitável, não havia motivo para descartar.

Com a mão imóvel, Kang Mujin esboçou o gesto de segurar um martelo.

Naquele instante, todos os metais da oficina ressoaram de uma só vez.

Quando as vibrações dos pregos e das espadas, da bigorna e das tenazes se sobrepuseram numa única batida, as vigas de ferro que caíam do teto pararam no ar. A armação, que nem três pessoas juntas conseguiriam mover, se curvou como se uma mão invisível a segurasse e sustentou os destroços. As ferramentas espalhadas pelo chão arrastaram os cabos e se voltaram todas para Kang Mujin.

Durante aquela única batida, nem o fogo conseguiu ultrapassar o ferro.

Kang Mujin não sabia o que fizera. Sabia apenas que os metais que martelara durante toda a vida esperavam, pela primeira vez, sua resposta.

Entre aquelas vibrações, pousou uma segunda frase.

— O ferro não morre no fogo.

As chamas engoliram o corpo de Kang Mujin.

A dor da carne queimando não durou muito. Ossos e sangue, memória e nome se derreteram como se tivessem entrado numa forja gigantesca. Sua forma se desfez, mas, estranhamente, ele não sentiu medo.

Era como se tivesse virado metal fundido.

As impurezas subiram à superfície, a velha estrutura se soltou, e todos os fragmentos de sua vida voltaram a se misturar. As mãos calejadas por uma vida inteira segurando o martelo, os pulmões obstruídos pela fumaça e a perna esmagada pela estante se fundiram sem distinção, tornando-se uma coisa só.

Então, um martelo invisível desceu.

Uma vez.

Sua consciência se achatou.

Duas vezes.

As chamas e a oficina se afastaram.

Três vezes.

Restou apenas o nome Kang Mujin, como uma pequena marca gravada.

Por fim, algo frio e duro atravessou o lugar de seu coração. Era poder. A capacidade de perceber a posição e o calor dos metais, sua pureza e estrutura, e de alterar sua forma penetrou em seu nome como metal fundido.

Pelo que Kang Mujin podia sentir, não havia naquele poder uma ordem para obedecer de imediato. Entendeu que caberia a ele decidir o que criar e o que destruir, em quais mãos colocar o metal e de onde retirá-lo. Não sabia o que a presença invisível realmente queria.

— Concedo-te a bênção do ferro.

Com aquelas palavras, todas as vibrações cessaram, e a respiração de Kang Mujin parou junto delas.

Kang Mujin, mestre espadeiro da Coreia do Sul, morreu na oficina em chamas.

Mas não esfriou por completo.

Fim do capítulo 1

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