O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 16 — O Reino Sobre a Planta

Antes mesmo que Kang Mujin alcançasse a fornalha, Rakan desceu a encosta correndo.

— Quantos?

— Mais de vinte.

— Direção?

— Noroeste.

Rakan não perguntou mais nada e ergueu a mão. Então, enquanto os milicianos dentro da muralha se moviam sem jeito, os que carregavam pedras liberaram as passagens, os que tinham filhos se esconderam atrás dos muros baixos de terra, e os que haviam recebido lanças correram para a muralha.

Um arrastava a ponta da lança pelo chão; outro segurava o escudo de cabeça para baixo.

A voz de Rakan estourou.

— Não corram! Alinhem a fila primeiro! Pretendem morrer de tombo sem nem ter visto o inimigo?

Com a mão apoiada no chão, Kang Mujin tateou o movimento do ferro.

A pequena vibração que tomara por botas de ferro não era regular. Ressoava em pares e depois fazia uma pausa longa; e o bloco pesado de metal não era uma única armadura, mas metais de tamanhos diferentes batendo uns nos outros dentro de uma armação de madeira.

Quando estendeu os sentidos numa camada fina, o que captou primeiro foi o aro da roda da carroça e o prego de ferro que prendia o eixo. Panelas, enxadas e foices quebradas viajavam tudo junto, e metade do que parecia ponta de lança era ferramenta de lavoura. O movimento era mais lento que o passo de uma pessoa.

— Não é um grupo de ataque.

Rakan se virou.

— Então?

— Três carroças. Uns sete armados.

Rosen, com a prancha debaixo do braço, examinou a encosta noroeste.

— É bem provável que sejam refugiados.

— Vou verificar.

Quando Rakan sacou a espada, Rosen disse:

— Leve apenas dois.

As orelhas de Rakan se inclinaram de lado.

— E se forem eles, quer que três os detenham?

— Se forem eles, não devem lutar: devem voltar. O que precisamos agora não é de vitória, é de informação.

Rakan o encarou por um instante e então pousou a espada no ombro.

— Fala bonito. E o pior é que tem razão, o que irrita ainda mais.

Escolheu dois milicianos com o dedo. Um era um humano, ex-caçador; o outro, um homem-bode com um dos chifres quebrado.

— Vocês dois, comigo. E sem barulho de passos.

Mesmo depois que os três sumiram para além da encosta, os que estavam na muralha continuaram onde estavam. Ninguém conseguia baixar a lança; os tendões saltavam nas costas das mãos e as juntas dos dedos estavam brancas.

O ferro ainda não tinha absorvido o calor como devia.

Martelado à força, rachava.

— Desçam.

Quando Rosen falou, alguns se entreolharam, hesitantes.

— A vigilância não acabou. Mas, se ficarem tremendo de arma na mão, não sobrará força nos braços quando ela for realmente necessária. Fiquem de dois em dois; os demais, descansem.

Só então a fileira em cima da muralha se moveu.

Kang Mujin olhou a prancha que Rosen trouxera. Sobre a tábua larga, linhas desenhadas a carvão e tinta se amontoavam: não só a muralha atual, a fornalha, o poço e as tendas, mas também estruturas que ainda não existiam.

— É isso?

— Sim. Terminei ontem à noite.

— E o sono?

— Dormi duas horas.

— É pouco.

— Também acho. Mas a muralha não monta guarda no meu lugar só porque eu adormeci.

Rosen estendeu a prancha sobre a bancada.

No centro da planta estavam a fornalha e o poço, e em volta dos dois se dividia a área de moradia. Das três linhas que a cercavam por fora, a primeira era uma paliçada, a segunda uma muralha de terra e pedra empilhadas, e a terceira um fosso escavado na encosta.

Kang Mujin seguiu as linhas com o dedo.

A muralha noroeste era grossa; a sudeste, fina. Era um traçado que obedecia ao terreno: na encosta suave, por onde os demônios se aproximariam com facilidade, havia três torres de vigia; do lado da rocha íngreme, apenas uma.

— São dois portões.

— Com um único portão principal, ficaríamos presos num cerco. Vou abrir um portão pequeno ao sul, para suprimento e para retirada. Mas pretendo escondê-lo atrás da rocha, de modo que não se veja de fora num relance.

Rosen dispôs pequenas fichas de madeira sobre a planta. As vermelhas eram a milícia; as azuis, água e comida; as pretas, o pessoal de combate a incêndios.

— Se o inimigo vier pelo noroeste, posicionamos duas equipes aqui. Quem sabe usar arco vai para as torres; quem sabe usar lança, para trás do portão. O resto fica de reserva.

— Falta gente.

— Por isso montei uma organização.

Quando ele abriu um documento fino de couro, apareceram nomes, raças, idades, ofícios anteriores e as armas que cada um sabia manejar. Ao lado do nome dos que não sabiam ler havia símbolos desenhados — picareta, árvore, chifre de cervo, peixe — para que cada um reconhecesse o seu.

— Atualmente, trinta e dois podem lutar. Desses, só quatro têm experiência militar. Seis caçadores, nove mineiros, treze agricultores.

— Pretende transformar todos em soldados?

— Não.

Rosen respondeu de imediato.

— Se todos os mineiros pegarem em lanças, não sobra ninguém para erguer a muralha. Se todos os agricultores subirem às torres, não teremos campos antes do inverno. Poder lutar e ter de lutar o tempo todo são coisas diferentes.

Kang Mujin voltou ao documento.

Dezesseis na equipe de combate, nove na de construção, sete na de suprimento; em emergência, metade da equipe de construção e metade da de suprimento também se juntariam à muralha. A vigilância noturna era de quatro pessoas em três turnos.

Antes dos números, foram os espaços em branco que lhe saltaram aos olhos.

Corpo de arqueiros. Responsável pelos feridos. Mensageiro. Armas de reserva.

Se Silvana não voltasse, a casa do corpo de arqueiros continuaria vazia. Não havia remédios para tratar os feridos, nem alguém que soubesse manejá-los com competência.

Rosen pousou a mão sobre os vazios.

— Não escrevi como existente aquilo que não existe.

— Ótimo.

— Em compensação, anotei duas maneiras de conseguir cada coisa. Para o pessoal de cura, procuramos entre os refugiados alguém que conheça ervas, ou mandamos gente às aldeias vizinhas buscar. Quanto aos arqueiros, esperamos o retorno da senhora Silvana, mas juntamos os caçadores à parte e começamos pelo tiro a curta distância.

— E a pedra?

— A pedreira ao norte é a mais próxima, mas fica exposta. Cortar a rocha ao sul é lento, porém seguro.

— Façamos as duas coisas.

Rosen olhou para ele, e Kang Mujin continuou.

— Extraiam no norte durante o dia, e abram um caminho ao sul que permita trabalhar também de noite. Se um lado for bloqueado, o outro tem de restar.

Rosen acrescentou um traço curto à planta.

— Assim será feito.

Doria veio caminhando do lado da fornalha. Havia cinza preta no avental, e as pontas da barba estavam bem amarradas com uma tira de couro.

— Hmpf. Pela cara de vocês, estão desenhando um país inteiro ao lado da minha fornalha.

— É a planta das muralhas.

— E se isso crescer, vira país. Qual a diferença?

Doria espiou a prancha e cutucou a parede noroeste com o dedo grosso.

— Aqui está errado.

As sobrancelhas de Rosen subiram um tanto.

— Em que parte?

— A fundação é rasa. Se só levantar por fora, na primeira chuva a barriga incha e estoura. Muro de pedra, antes de empilhar para cima, se enterra para baixo.

Ele pegou um carvão e desenhou marcas em forma de dentes sob as linhas existentes.

— Crave as pedras grandes na vertical e aperte os vãos com cascalho e argila. Nos cantos, tem de entrar grampo de ferro. Os humanos acham que empilhar pedra já faz uma parede, mas pedra também precisa ser casada para viver junta muito tempo.

— Vamos precisar de muitos grampos de ferro.

— É para isso que existe a ferraria, não?

Doria ergueu o queixo na direção de Kang Mujin.

— E então?

Enquanto examinava a planta, Kang Mujin sentiu também os veios sob a terra. O veio mais próximo tinha baixa pureza, e se fosse fundido daquele jeito havia grande chance de os cantos dos grampos esfarelarem primeiro; mas, sem alimentá-lo com carbono em excesso, estirando-o em tiras largas e dobrando-o em várias camadas, daria para usar. O que vai dentro de uma parede não precisa da dureza de uma lâmina: precisa antes da tenacidade que entorta sem partir.

— Posso fazer.

— Quantos?

Perguntou Rosen.

— Trinta hoje. Com mais um fole, cinquenta.

— E se entrar mais gente?

— Cem, a partir de daqui a três dias.

Rosen calculou por um instante.

— Nesse ritmo, dá para amarrar a fundação da muralha noroeste em cinco dias.

— Se as pessoas aguentarem.

— Fazer com que aguentem é o meu trabalho.

Kang Mujin olhou as mãos de Rosen. O dedo médio, de tanto segurar a pena, estava avermelhado e afundado, e sobre os calos de quem empunhava a espada nasciam calos novos.

A mão de um cavaleiro estava aprendendo outra ferramenta.

— Vamos precisar de um lorde.

Diante das palavras de Rosen, Kang Mujin ergueu os olhos da planta, e Doria parou a mão que movia o carvão.

— Quando a muralha crescer e a gente aumentar, será preciso alguém que decida em última instância sobre água e comida, sobre a ordem das guardas e sobre as disputas. Posso cuidar da administração, mas não há motivo algum para que as pessoas obedeçam às minhas ordens.

— Se é necessário, basta obedecer.

— Nem todos pensam como o senhor Kang Mujin.

Rosen tocou a fornalha no centro da planta.

— As pessoas se reuniram porque viram o fogo que o senhor acendeu. Cavam a terra com as enxadas que o senhor consertou e sobem à muralha com as lanças que o senhor forjou. Mesmo sem coroa, já está no centro.

— Coroa nenhuma melhora o ferro.

— Mas pode decidir para que o ferro será usado.

Nesse exato momento, o vigia do noroeste tocou a trompa duas vezes. Para além da encosta surgiram Rakan e os dois milicianos, e atrás deles vinham três carroças velhas e mais de quarenta refugiados. Metade era de crianças e velhos; havia quem mancasse e quem trouxesse o braço enrolado num pano manchado de sangue.

Diante do portão aberto, o chefe da equipe de suprimento barrou o caminho.

— Se os recebermos, daqui a três dias falta grão. A área de moradia já está cheia. Quem decide?

Rosen não respondeu; olhou para Kang Mujin. Antes dos vazios sobre a planta, o que lhe entrou nos olhos foram os rostos que esperavam do lado de fora do portão. Não se pode fazer pregos com o martelo e depois fingir que não se sabe onde eles serão cravados.

Kang Mujin caminhou até o portão.

— Abram. Feridos e crianças entram primeiro, para dentro, junto ao poço. Esta noite esvaziem as tendas de trabalho e, a partir de amanhã, ampliem a linha de moradias ao sul.

O chefe da equipe de suprimento lambeu os lábios secos.

— E se faltar grão?

— Refazemos a tabela de rações. Reduzam também a parte da ferraria na mesma proporção.

— E em nome de quem registro essa decisão?

Kang Mujin alternou por um instante o olhar entre os refugiados lá fora e a planta.

— Registre em meu nome.

Assim que essa frase caiu, o portão parado se abriu. Rakan puxou pessoalmente a carroça de um velho que mancava, e Kang Mujin apontou o poço para a criança que estava na frente de todos.

— O nome de rei ou de lorde a gente decide depois.

Ele se voltou para Rosen.

— Até lá, tragam a mim as decisões sobre a sobrevivência das pessoas e sobre a muralha. Se der errado, escrevam meu nome também na primeira linha do registro.

Rosen escreveu letras no espaço em branco no alto da planta.

Responsável pelo comando provisório: Kang Mujin.

— Aceito como ordem.

— Deixe como responsabilidade.

Doria alisou a barba, mas dessa vez não riu. Ele engrossou a linha de moradias ao sul, e dentro da muralha os baldes de água e os cobertores para receber os refugiados começaram a se mover.

À tarde, vinte pessoas — já misturadas aos refugiados recém-chegados — puseram-se no terreno aberto. Rakan não lhes entregou lanças: mandou-os carregar sacos de areia e caminhar ao pé da muralha. Quem caía era amparado pelo vizinho; quem se adiantava sozinho voltava para o fim da fila.

— Quem cai diante do inimigo é arrastado. Quem é arrastado perde primeiro o nome. Por isso, antes de aprender a perfurar, aprendam a ficar de pé juntos.

Rakan pôs o mesmo peso nos próprios ombros. A fila que de manhã tremia cada um para seu lado, ao cair da tarde se movia como se fosse a passada de uma só pessoa.

Na ferraria, Aisha cuidava de uma espada enferrujada. Kang Mujin, em vez de mandá-la afiar mais o fio, fez com que removesse apenas a parte estragada, e a menina aprendeu sobre a pedra de amolar a tirar força e a parar no ponto certo. Quando o aço sob a ferrugem vermelha apareceu por igual, Kang Mujin passou o polegar pelo fio.

— Está bom.

Aisha encostou um pequeno cinzel no ferro macio perto do cabo e bateu duas vezes com o martelo. Restou um triângulo torto. Não era uma marca perfeita, mas dava para saber quem havia consertado e a quem levar, caso estragasse de novo.

Antes que a noite chegasse, os primeiros trinta grampos de ferro ficaram prontos.

Kang Mujin pôs o ferro em brasa sobre a bigorna e curvou a ponta. O ferro vindo do veio tinha muitas impurezas e, com um pouco de calor em excesso, a superfície ficava quebradiça; por isso ele esperou o instante em que a temperatura se espalhava por igual dentro do metal. Por fora era um laranja vivo; por dentro, um tom mais escuro.

Quando o martelo desceu, as impurezas foram empurradas para as bordas. A fibra se alongou e envolveu a parte curvada, e Kang Mujin, em vez de torná-lo duro, deixou-o tenaz. Bastava que, quando a parede se sacudisse, ele entortasse junto e voltasse.

O último grampo esfriou no balde d'água.

Doria pegou um, bateu-o no chão e o torceu com o pé, mas o grampo apenas entortou: não quebrou.

— Você entende do gosto do ferro.

— Vai ficar dentro da parede.

— Não dá para fazer de qualquer jeito só porque ninguém vai ver.

Diante disso, Kang Mujin deixou uma pequena marca na ponta do grampo.

Enterrada na pedra, seria uma marca que ninguém veria; ainda assim, ele a deixou.

Rosen trouxe a planta concluída. Havia mais linhas que de dia: as moradias dos recém-chegados tinham sido acrescentadas, e também a ordem dos trabalhos na muralha e a tabela de turnos da milícia.

No alto da planta estava escrito um título.

Baluarte de Aço — Muralhas e Setores de Moradia.

E abaixo, uma linha que não existia durante o dia.

Responsável pelo comando provisório: Kang Mujin.

O cargo era provisório, mas o nome que responderia por tudo já não estava em branco.

— A partir de amanhã, seguimos exatamente isto.

Disse Rosen.

— Se aparecer problema, corrija.

— A planta?

— A planta, e a parede também.

Kang Mujin guardou os grampos frios numa caixa.

— Nada é perfeito desde o começo.

Rosen baixou a cabeça.

Fora da muralha, Rakan montava a última equipe de guarda, e Aisha limpava com um pano as espadas recuperadas, alinhando-as uma a uma. Doria diminuía as chamas da fornalha e, ao mesmo tempo, agitava a mão para que ninguém se aproximasse.

As linhas sobre a planta iam sendo transferidas, uma a uma, para o chão.

Ainda não era um reino.

Mas, a partir do instante em que as pessoas definiram o lugar que iriam defender, escreveram o nome umas das outras e começaram a erguer uma parede que ainda estaria ali amanhã, aquele lugar deixou de ser um simples acampamento.

Kang Mujin sentiu, por último, o ferro dentro da terra.

Perto dali, grampos e pontas de lança, panelas e pregos esfriavam cada um a uma temperatura diferente; mas, para além da muralha, não havia movimento algum.

Mais longe, no extremo noroeste, seus sentidos não alcançavam.

O que se movia lá, ele não tinha como saber.

Kang Mujin fechou a tampa da fornalha.

— Ponham mais dois na vigília da noite.

Rosen assentiu sem perguntar o motivo.

Naquela noite, sobre as muralhas do Baluarte de Aço, arderam quatro tochas a mais.

Fim do capítulo 16

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