Deus Marcial

Capítulo 17 — Dívida(債)

Quando o gemido das lâminas se aquietou, Pung e Hyeonheo confiaram os sobreviventes a Ayeong e, com tochas em punho, entraram na passagem. No lugar onde estourara o clarão vermelho-escuro restava uma longa marca de corte, e ao pé da parede de pedra jaziam um retalho de roupa encharcado de sangue negro e duas agulhas envenenadas partidas. O sangue seguia por alguns passos na direção em que Dokgo fugira e se interrompia diante da passagem de emergência que dava para o vale lá fora.

A porta de pedra no fim da passagem tinha a tranca torcida, como se tivesse sido fechada à força pelo lado de fora, e na encosta além dela os rastros de duas pessoas se sobrepunham em desordem. Mas, ao alcançarem um vale seco e cheio de rochas, pegadas e manchas de sangue desapareceram por completo, e, embora Pung vasculhasse os arredores repetidas vezes com a visão dos meridianos, nenhuma energia viva foi captada.

— Ele morreu?

Hyeonheo examinou o retalho manchado de sangue e balançou a cabeça.

— Ferido ele foi, mas não se pode afirmar que o ferimento seja mortal. Não há cadáver, e há sinais de que o sangue foi limpo de propósito para cortar o rastro; é mais acertado supor que escapou com vida.

— E Hyeolhon?

— O rastro dele também se perdeu aqui. Não há como saber para que lado foi.

Pung contemplou o vale mergulhado na escuridão. Se Dokgo estivesse vivo, tanto a invasão da mansão quanto o resgate dos sobreviventes logo chegariam ao conhecimento de quem estava por trás dele. Como não havia sequer como confirmar se Hyeolhon o alcançara, agora era preciso agir supondo o pior.

De volta à mansão, os dois amarraram os soldados particulares e vasculharam o pavilhão central e as instalações subterrâneas. Em meio a uma pilha de documentos cuja queima ficara pela metade, encontraram dois livros com a procedência dos sequestrados e o número de dias de administração das drogas, e recolheram também uma placa com o emblema do lobo negro e frascos de veneno. Os nomes dos parceiros de negócio estavam ocultos em código, mas as datas e o número de pessoas entregues ao norte permaneciam nítidos.

Só depois de transferir os resgatados para uma hospedaria vazia na entrada do vilarejo os três puderam enfim tomar fôlego. A noite toda Hyeonheo foi e veio entre os quartos e o alpendre, pressionando os pontos vitais dos envenenados e expulsando aos poucos o veneno que lhes restava no corpo, e Ayeong não teve um instante de descanso, fervendo água e trocando toalhas úmidas. Pung, com a energia interna quase exaurida, ficou sentado encostado à parede, atento aos lugares onde faltavam mãos.

A respiração dos que jaziam como mortos foi se tornando cada vez mais regular à medida que a madrugada se aproximava e, embora não pudessem se levantar de imediato por terem inalado por muito tempo a névoa venenosa, segundo Hyeonheo todos pareciam ter passado do pior momento. Só depois de ouvir aquilo Pung sentiu descer a pedra que lhe pesava no peito.

Mas o alívio não durou muito. Do interior da hospedaria irrompia o choro dos que reencontraram os familiares desaparecidos, e do outro lado do pátio vinha, levado pelo vento da noite, o pranto de quem chamava por aqueles que jamais voltaram. Ouvindo aquele som em que alegria e tristeza se enredavam, um canto do coração pesava demais para abrigar apenas o orgulho de ter salvado vidas.

Hyeonheo pousou o pulso do último doente e saiu para o alpendre; o rosto, que não dormira um instante a noite inteira, estava abatido, mas o olhar não se desfazia.

— Dokgo não é o fim, é apenas uma ponta. Sozinho, ele não teria como prender tanta gente e plantar olhos em cada encruzilhada. Há quem tenha dado a mão ao Culto Demoníaco fora da mansão também.

— Então não deveríamos avisar a Aliança Marcial?

Diante da pergunta de Ayeong, Hyeonheo tirou um velho emblema e o pousou no alpendre.

— Pode haver cúmplices dentro da Aliança. Vou chamar, fora da cidade murada, apenas um velho amigo a quem eu confiaria a vida. Enquanto isso, os sobreviventes devem ser escondidos em vários lugares, e quem for testemunhar precisa ocultar a identidade.

Pung olhou alternadamente para a respiração serena dentro da hospedaria e para os livros trazidos da mansão.

— E se Dokgo mandar recado antes?

— Se escapou com vida, sem dúvida tentará avisar quem está por trás. Por isso temos de partir assim que o sol nascer. É uma corrida para chegar antes dele a alguém de confiança.

— Então temos de nos apressar.

— E você consegue ao menos ficar de pé para dizer isso?

Hyeonheo estalou a língua, olhando para o rosto pálido de Pung.

Nesse instante, um gemido tênue veio de dentro da hospedaria e, quando Ayeong se virou, Pung também tentou se erguer por reflexo, mas o dantian vazio latejou e seus joelhos cederam. Se Hyeonheo não lhe tivesse segurado o braço, teria despencado alpendre abaixo.

— Cuide primeiro do seu corpo. A energia interna que você puxou na noite passada foi excessiva demais para o vaso que você é agora.

— Mas lá dentro tem gente….

— Gastar à toa a vida que se ganhou para salvar outros também não é heroísmo.

Pung calou-se. Ayeong lançou-lhe um olhar de esguelha, com o rosto preocupado, e entrou na hospedaria; pouco depois, junto com uma voz pedindo água quente, soaram passos apressados.

Hyeonheo sentou Pung de novo no alpendre e tomou lugar à sua frente.

— O que você fez em meio à névoa venenosa foi notável. Mas, se Hyeolhon não tivesse indicado o caminho, sua força sozinha não teria salvado todos. Por outro lado, sem os seus olhos e a sua energia yang, ainda que ele ensinasse o método, aquelas pessoas não teriam saído com vida.

Pung lembrou-se do homem que desaparecera com o sabre vermelho-escuro na mão. Hyeolhon o pusera à prova e chegara a revelar sede de sangue contra Hyeonheo, mas, no instante em que o pote se quebrou, indicou o modo de salvar as pessoas. Depois disso, foi atrás de Dokgo e sumiu sozinho na escuridão, e o que restou foram apenas marcas de lâmina e um retalho de roupa ensanguentado.

— Por que será que aquele homem foi atrás de Dokgo?

— Deve haver entre os dois algo que não sabemos.

— Não teria recebido ordens do Culto Demoníaco?

— Se fosse esse o caso, não haveria necessidade alguma de nos ensinar a queimar o veneno.

Hyeonheo, que lançara o olhar para dentro da hospedaria, acrescentou em voz baixa:

— Mas ter recebido um favor não significa abandonar a vigilância. Ele é do tipo que nos cortaria, se preciso fosse. Digo apenas que, por empunhar a lâmina do Culto Demoníaco, não se pode afirmar que também a sua vontade pertença inteiramente ao Culto Demoníaco.

Pung assentiu: a anciã da seita ortodoxa vendera pessoas como matéria-prima, e a lâmina do Culto Demoníaco ensinara o modo de salvá-las. Nas histórias que ouvira em criança, o justo e o demoníaco se separavam nítidos como pedras brancas e pedras negras, mas o mundo marcial diante de seus olhos não era tão simples. Talvez estivesse mais perto da verdade a escolha que alguém fazia ali, diante de si, do que o lado em que se colocara.

Hyeonheo perguntou:

— Tem medo?

— Tenho.

Pung não escondeu.

— Tive medo de que aquelas pessoas morressem, e tive medo de que, por um erro meu, Ayeong ou o senhor se ferissem. Agora tenho medo por não saber quão grandes são os que estão por trás de Dokgo.

— Nesse caso, você também pode voltar para a montanha.

Pung olhou para Hyeonheo; não havia nele nem o ar de quem sonda, nem o brilho de quem repreende, e parecia que, se ele dissesse de fato que voltaria, não seria impedido.

Tentou imaginar-se de volta à casa no alto da montanha, vivendo de colher ervas medicinais: uma vida de caminhar pelas trilhas conhecidas da floresta pela manhã e sentar-se diante do braseiro quando o sol se pusesse. Tendo o vento e o canto dos pássaros por companheiros, não precisaria sentir cheiro de sangue nem ouvir gemidos em meio à névoa venenosa.

Nesse momento, veio de dentro da hospedaria a tosse de uma criança; a respiração que pouco antes era tênue como se fosse se apagar já trazia agora alguma força.

Pung baixou os olhos para os anéis de ouro e prata em seus dedos. Na noite anterior, diante da névoa venenosa, uma força violenta se depositara em sua mão e o anel prateado tremera como se tateasse o norte distante, mas nenhum dos dois anéis lhe revelou o motivo. Continuava sem saber a origem daquele poder nem o que ele queria dele.

Apenas uma coisa era clara. Se, possuindo a força capaz de salvar vidas, virasse as costas depois de ter visto, a partir daquele instante não poderia mais alegar que não sabia. Por qualquer caminho que os anéis conduzissem Pung, caberia a ele mesmo decidir, no fim, em que usaria aquela força.

— Irei à Aliança Marcial.

Diante da resposta de Pung, Hyeonheo estreitou os olhos.

— Antes de Dokgo, encontrarei a pessoa em quem o senhor diz poder confiar. E quero também descobrir o que há por trás disso.

— Não será um caminho fácil.

— Desde que desci da montanha, nunca disse que trilharia apenas caminhos fáceis.

Formou-se uma ruga tênue no canto da boca de Hyeonheo, mas não veio elogio nem dissuasão; ele apenas pressionou uma vez o ombro de Pung, e aquele toque soou como um aviso para não tomar de leve o peso da escolha.

Pouco depois, a porta da hospedaria se abriu e Ayeong saiu segurando a mão de uma criança pequena. A criança cambaleava, como se mal conseguisse andar, mas, ao avistar a velha parada num canto do pátio, soltou a mão e tentou correr.

— Vovó….

Uma voz rachada escapou.

Era exatamente aquela velha que vagara pelas ruas com os sapatos do neto desaparecido junto ao peito; ficou paralisada, como se não pudesse acreditar, e, quando a criança caiu depois de dois passos, veio correndo, engolindo um grito. As duas se abraçaram, sentadas no chão de terra.

— Sobreviveu. Ai, ai, minha criança sobreviveu….

A criança, sem conseguir emitir voz, envolveu o pescoço da velha com os braços magros. A velha alisava aquelas costas repetidas vezes e, ainda assim, não afrouxava o abraço, como se temesse deixá-la escapar das mãos; Ayeong virou o rosto e enxugou o canto dos olhos. Pung também contemplou a cena em silêncio.

Se fosse para saldar a dívida da luta travada na noite passada, aquele único abraço bastava. Mas ainda havia os que não tinham voltado, e aqueles que os haviam arrastado consigo deviam estar preparando a próxima noite em algum lugar ao norte.

Ao raiar do dia, Hyeonheo definiu com os moradores do vilarejo os lugares onde esconder os sobreviventes, e Ayeong separou a lista e as ervas que levaria ao médico. Pung também, acalmando o dantian ainda vazio, aprontou-se para pôr o pé na estrada.

Era preciso chegar a alguém de confiança antes de Dokgo, e Pung olhou para o céu do norte, que não dava resposta.

Dentro da Aliança Marcial talvez já houvesse quem esperasse o recado de Dokgo.

Fim do capítulo 17

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