Deus Marcial

Capítulo 25 — Chuva de Flores por Todo o Céu (滿天花雨)

Pung, que havia derrotado Namgung Hwi, já estava entre os quatro últimos, nas semifinais.

Quando o duelo do outro lado também terminou, dois nomes ficaram pendurados lado a lado sob o chaveamento.

Danpung contra Dangwol.

Dangwol, o jovem senhor da Família Dang de Sacheon, era um guerreiro que raramente avançava primeiro; quando o adversário se aproximava, recuava e cortava o caminho com armas ocultas, e até as armas cravadas na plataforma de duelo ele ressuscitava com a ponta do pé e um fio fino. Nos duelos anteriores, aqueles que o enfrentaram, mesmo tendo atravessado ilesos os primeiros golpes, acabaram derrotados quando a retirada lhes foi bloqueada por armas que julgavam já ter esquivado.

— Naquele ali, a cabeça é mais temível que as mãos.

Diante das palavras de Hyeonheo, Pung assentiu. As mãos de Dangwol eram rápidas, mas sua verdadeira arma era a paciência de lembrar o que havia lançado e em que lugar, esperando que o adversário esquecesse.

Ayeong remendou com um pano novo a aba direita rasgada da roupa, sem tocar na gola esquerda.

— Mover o livro pode acabar chamando mais atenção. E alguém da Família Dang já deve ter percebido que você protege o lado esquerdo.

Dentro da gola esquerda estava escondido um fragmento do livro em que se lia ‘Sexto dia, três carroças de água negra. Passar pelo portão norte e entregar ao Grou Branco’; era apenas uma folha fina de papel, mas para Pung valia mais que a própria pele. Ainda assim, se enrijecesse o corpo para protegê-la, Dangwol perceberia a brecha de imediato.

Quando Pung foi tocar a gola sem pensar, Hyeonheo pressionou-lhe o pulso.

— De agora em diante, não confira. Sua mão pode revelar onde está o segredo.

— E se já tiverem descoberto?

— Saber que há algo e saber o que é são coisas diferentes. Hoje, o que você deve proteger é essa diferença.

Antes da semifinal, os oficiais da lei subiram à plataforma, e como as armas ocultas e os fármacos da Família Dang exigiam uma inspeção à parte, o tempo de preparação se alongou. Dangwol tirou todas as armas ocultas da bolsa de couro à cintura e de ambas as mangas, e colocou sobre o pano branco até a pequena bolsa de pó presa atrás da cintura e o frasco de antídoto.

O oficial verificou cada peça com agulhas de prata e reagentes, depois anunciou as regras em voz alta para que a plateia ouvisse.

— Nas armas ocultas há apenas veneno paralisante que se dissipa em uma hora dupla e um marcador para confirmar os acertos. A bolsa de pó contém um paralisante que, inalado, entorpece braços e pernas por algum tempo, e seu uso é permitido uma única vez. Nada disso é veneno letal, mas se uma arma tocar a pele ou se forem constatados sinais de paralisia, o duelo será interrompido de imediato e o antídoto aplicado. Todas as armas usadas deverão ser recolhidas.

Dangwol saudou em silêncio e guardou novamente seus pertences. No rosto pálido havia uma inexpressividade que não revelava sequer se ele ouvira o burburinho da plateia, mas quando algumas pessoas da primeira fila recuaram discretamente, seus dedos ajeitaram uma das armas ocultas de forma exageradamente alinhada.

Pung não julgou Dangwol apenas por aquele pequeno gesto; não havia como saber se ele estava acostumado a que as pessoas o temessem ou se apenas detestava objetos em desalinho. Na plataforma, as armas que voassem dariam uma resposta mais precisa que as palavras.

Quando os dois subiram um diante do outro, Dangwol olhou uma vez para a gola esquerda de Pung e desviou o olhar.

— Não vou lhe pedir que desista. Mas, se for atingido, avise na hora. Mesmo um veneno fraco não é bom de se neutralizar tarde.

— Entendido.

— Eu também não vou pegar leve.

Pung respondeu com uma saudação.

— Nem eu.

A mão do árbitro baixou.

— Comecem!

Da mão direita de Dangwol partiram três raios prateados. Um mirou o pescoço, mas os outros dois se cravaram diante da ponta dos pés de Pung, e quando ele recuou meio passo, cinco armas se espalharam de novo da mão esquerda. Torcendo o tronco, Pung deixou a primeira agulha passar e esquivou da adaga que raspava o chão, mas a quarta arma, ao bater na pedra, ricocheteou baixo.

Desde o início aquele golpe mirava o chão, não o corpo.

No instante em que Pung dobrou o cotovelo, a arma arranhou a manga direita remendada, deixando uma marca azul; não tocou a pele, mas meio dedo de atraso teria bastado para interromper o duelo. Nesse meio-tempo, Dangwol recuou três passos e, quando Pung avançou atrás dele, as armas cravadas no chão barraram o caminho.

A ponta do pé de Dangwol tocou um pequeno anel e uma adaga fina saltou à altura da cintura; abaixando o corpo, Pung finalmente enxergou o que Dangwol estava desenhando. As armas ocultas não eram um arma que voava uma vez e acabava. O ponto onde se cravavam e a direção em que ricocheteavam tornavam-se o começo do ataque seguinte, criando um caminho invisível sobre a plataforma.

Quando Pung abriu superficialmente a visão dos meridianos, revelou-se a energia que subia do dantian de Dangwol até o ombro e o cotovelo. Vendo a força concentrar-se na mão direita, lançou-se para a esquerda, mas, no mesmo instante em que o pulso de Dangwol se dobrou, duas agulhas lançadas antes colidiram no ar.

Tlim!

Uma agulha saltou para cima, a outra para o lado, e o brilho prateado que fugiu do caminho lido por Pung avançou contra o peito esquerdo. Girando bastante o corpo para a direita ele poderia esquivar, mas havia grande chance de a adaga seguinte rasgar a gola, e se o papel aparecesse começaria uma luta mais perigosa que a disputa.

Pung recuou o tronco mantendo o braço esquerdo colado ao peito e a agulha raspou-lhe sob o queixo; ao torcer a cintura para escapar da adaga, o flanco machucado no duelo contra Namgung Hwi latejou. O calcanhar já tocava a pedra da borda.

— É o Mancheonhwau!

Alguém gritou.

As duas mãos de Dangwol se juntaram como um botão de flor e se abriram por completo. Armas de tamanhos e pesos diferentes se dispersaram em trajetórias altas e baixas, cobrindo a plataforma; nem metade delas mirava Pung desde o início, mas somando-se as que batiam no chão e nas pedras da borda e ricocheteavam, as brechas desapareceram.

Pung concentrou mais energia nos olhos e, como o fluxo que se dividia do dantian de Dangwol passava pelos dois ombros até os dez dedos, conseguiu prever o alcance inicial da dispersão. Mas onde as armas colidiriam entre si depois de deixarem as mãos, e em que ângulo saltaria uma agulha ao tocar uma falha na pedra, isso ele não via.

Três raios se cruzaram diante do rosto; Pung afastou um com as costas da mão e esquivou de outro abaixando-se, mas a última agulha cortou a fita do cabelo. O vento passou entre as mechas soltas, e no ponto onde ele aterrissou após saltar sobre a estrela de arremesso seguinte já havia duas adagas cravadas.

Se fosse para a frente, Dangwol recuaria e espalharia tudo de novo; se fosse para trás, estaria fora da plataforma. Se liberasse o poder do anel dourado poderia repelir todas as armas, mas isso significaria revelar aquela força diante dos assentos dos anciãos, além do risco de armas desgovernadas voarem até a plateia.

Pung empurrou o corpo pela fresta mais estreita; marcas azuis se espalharam pelas mangas e pela barra das calças, mas nada tocou a pele e a gola esquerda seguiu intacta. Só que, para protegê-la, o corpo se inclinou, e Dangwol não deixou passar aquele instante.

Três armas voaram de uma vez contra o ombro esquerdo, o peito e o flanco.

Ele sabia mesmo.

Desta vez Pung não abraçou a gola e avançou para dentro. Deixou a primeira adaga apenas roçar o tecido do ombro, golpeou a lateral da segunda com o cutelo da mão e, girando a cintura, esquivou da última agulha, que mirava justamente o lugar onde estava o livro. Sua respiração se desordenou, mas Dangwol não cedeu distância: a cada passo que Pung avançava, ele recuava exatamente um passo, encadeando armas tiradas da manga.

Só que, a partir de certo momento, Dangwol parou de sacar armas novas e passou a puxar as do chão com o fio ou a chutá-las com a ponta do pé para reutilizá-las. E não era apenas porque as mangas tinham ficado leves.

Todas as armas usadas deverão ser recolhidas.

Por mais que parecesse espalhá-las ao acaso, Dangwol tecia os caminhos de modo que as armas acabassem voltando para dentro da plataforma; em especial, quase não mandava agulhas leves para a borda oeste, e o vento que tocava o rosto soprava de oeste para leste.

Nesse momento a mão de Dangwol foi até a pequena bolsa atrás da cintura: o pó paralisante permitido na inspeção.

Quando o pó amarelado se espalhou entre as armas, Pung prendeu a respiração e se deitou rente ao chão. O pó correu para leste com o vento e duas armas que o atravessaram colidiram, fazendo uma delas cair sobre o ombro esquerdo. Pung apoiou a palma no chão e girou o corpo; a agulha passou por um triz sobre sua cabeça, mas a pedra da borda chegou bem diante de seus olhos.

O peito se apertava exigindo ar e, mesmo assim, Pung viu que Dangwol não emendava o golpe seguinte. A mão esquerda dele recolhia com o fio as armas que haviam entrado no pó, e a direita desviava com outra adaga uma agulha que o vento empurrava para fora da plataforma.

Foi uma brecha curta.

Pung correu para oeste ainda segurando o fôlego; Dangwol desviou as armas de imediato, mas as agulhas leves, contra o vento, não conseguiram fechar o caminho por completo. Pung esquivou de uma adaga que veio baixa, envolveu com a palma a lateral da segunda apenas para baixar-lhe a direção e, suportando a dor latejante, encurtou a distância.

Recuando, Dangwol chutou para o alto uma estrela de arremesso. No instante em que Pung ia saltar sobre ela, um fio fino se retesou à altura do tornozelo, mas Pung não saltou: dobrou os joelhos e deslizou por baixo do fio.

Enfim a distância se reduziu a menos de um passo.

Dangwol mirou com o cotovelo o pescoço de Pung, que se aproximara, e ao mesmo tempo sacou uma agulha curta com a outra mão; não era o movimento de quem depende apenas da arte das armas ocultas. Quando Pung desviou o cotovelo com o ombro, a ponta da agulha se dobrou em direção ao peito, e o olhar de Dangwol voltou-se de novo para a gola esquerda.

Pung ergueu o braço esquerdo de propósito e, quando a agulha seguiu aquele movimento fechando-se pela esquerda, soltou o braço que guardava a gola e girou o corpo para o lado oposto. A ponta da agulha abriu um pequeno furo no pano remendado, mas não penetrou até o interior.

Nesse intervalo, o pé direito de Pung entrou entre o pé de Dangwol e o piso da plataforma. Dangwol recolheu o braço e recuou, prevenindo-se de ter o pulso agarrado, mas Pung não o segurou: pisou com o peito do pé o fio fino estendido no chão.

A retirada de Dangwol parou.

Na ponta do fio estavam presas cinco armas em processo de recolhimento; se recuasse mais, elas saltariam contra os dois, e se soltasse o fio, perderia o controle sobre armas envenenadas. No instante em que Dangwol hesitou, Pung contornou-o pelo lado de fora.

A ponta dos dedos de Pung parou diante do peito de Dangwol.

A agulha de Dangwol também parou a meio dedo abaixo do pescoço de Pung, mas seu calcanhar já pairava no vazio, fora da plataforma; para recuperar o centro, teria primeiro de receber a mão de Pung.

— Parem!

Dangwol olhou Pung por um instante e baixou a agulha.

— Eu perdi.

Quando o árbitro declarou a vitória, a arena estremeceu, e só então Pung soltou longamente o ar que prendia, forçando os dedos dos pés para disfarçar as pernas bambas. Os oficiais examinaram a pele e as roupas dos dois, confirmaram que Pung não havia inalado o pó paralisante e então começaram a contar uma a uma as armas na plataforma.

Dangwol também logo se pôs a recolher. Primeiro juntou as presas ao fio, depois vasculhou até as frestas das pedras e o pé da borda; quando não encontrou uma das adagas que Pung havia rebatido, refez sua trajetória. Ao indicar Pung o lugar de que se lembrava, a adaga foi achada sob a saliência leste.

Só depois que a última arma foi colocada sobre o pano branco, Dangwol se voltou para Pung.

— Você não mirou minhas mãos, e sim o caminho de recolhimento.

— Percebi ao ver que o senhor deixou de lançar peças novas. E usava poucas agulhas leves para o lado de onde soprava o vento.

— E o ataque à sua gola?

Pung respondeu recompondo a respiração ofegante.

— Porque o senhor viu que eu protegia aquele lado.

Dangwol não negou, nem perguntou o que havia ali.

— Por causa disso você se atrasou três vezes. Se fizer o mesmo na próxima, vou mirar com mais insistência.

— Então encontrarei outro caminho.

Dangwol olhou-o por um momento e fez a saudação.

— Gostei que você não tenha dispersado o Mancheonhwau pela força. Se tivesse rebatido sem critério, teriam voado até a arquibancada.

— O jovem senhor Dang também deteve a última agulha.

— Cravar uma agulha envenenada depois de perder não é contenção, é indecência.

O tom continuava seco, mas Dangwol não deu as costas até que Pung descesse da plataforma; não se conheciam o bastante para se chamarem de amigos, mas cada um sabia o que o outro havia calculado e em que momento havia parado. Por ora, isso bastava.

Ao pé da plataforma, Ayeong examinou primeiro a gola esquerda de Pung. Havia apenas um pequeno furo, e o fragmento do livro lá dentro estava intacto; só depois de conferir também a marca vermelha na palma e a respiração dele é que o olhar endurecido se afrouxou.

Hyeonheo, ainda observando Dangwol contar as armas, disse:

— Não se esqueceu de que ver a origem não é conhecer todo o desfecho.

— Não houve como esquecer. Depois que deixavam as mãos, eu simplesmente não conseguia ver onde colidiriam entre si.

— Quem sabe o que não vê sobrevive. Morre-se no instante em que se acredita ver tudo.

Na espada de Namgung Hwi ele aprendeu onde a força começa; diante das armas de Dangwol, compreendeu que, mesmo conhecendo esse começo, não se pode dominar todas as mudanças seguintes. A visão dos meridianos não era um olho que mostrava respostas, era um olho que obrigava a escolher o que ver e o que descartar.

— Chegou à final.

Ao erguer a cabeça, Namgung Hwi estava por perto; ele percorreu com os olhos a manga rasgada de Pung e as armas sobre a plataforma e ergueu um pouco o queixo.

— Você provou que minha derrota não foi um acaso qualquer.

— Veio torcer?

Perguntou Ayeong, e Namgung Hwi franziu as sobrancelhas.

— Vim conferir. Assistirei também à final. Até onde chega quem subiu depois de me derrotar.

Depois que Namgung Hwi se virou, Pung viu, do lado oposto da arquibancada, Jegal Soso apontar os assentos dos anciãos com o leque fechado. A figura astuta que no dia anterior lhe lançara um olhar gélido continuava sentada no mesmo lugar, e ao seu lado o escrivão que cuidava dos documentos de registro dava alguma ordem a um subordinado que segurava uma pasta fina.

Songjin aproximou-se de Hyeonheo e disse em voz baixa:

— É Hahu Gang.

— É o homem de ontem?

— Isso mesmo. No dia em que você passou pela inspeção de registro, uma cópia da lista foi para aquele lado. Hoje ele mandou verificar os registros de entrada e saída da estalagem dos participantes. E há pouco chamaram também o oficial que examinou suas roupas.

Hahu Gang já conversava tranquilamente com outro ancião; não havia como saber se queria aliciar Pung, se desconfiava do discípulo de Hyeonheo ou se procurava algo ligado ao livro. Só uma coisa era certa: a cada passo que ele avançava na plataforma, a linha de vigilância também se aproximava.

— Devemos mover o livro?

Hyeonheo observou um instante o lado de Hahu Gang e balançou a cabeça.

— Se o movermos agora, estaremos avisando que percebemos a vigilância. Deixe-o onde está até esta noite, mas não ande sozinho.

Ayeong deu meio passo em silêncio para o lado de Pung. As pessoas aclamavam o garoto sem nome que atravessara o Mancheonhwau da Família Dang e chegara à final, mas aos olhos de Pung a passagem por onde sumira o subordinado de Hahu Gang parecia especialmente escura.

Agora o adversário restante era Jin Hyeon, o espadachim da flor de ameixa da Seita Hwasan.

Porém, mesmo depois de recolhida a última arma, um dos olhares que desciam dos assentos dos anciãos não recuou. Hahu Gang, de rosto impassível, observava a gola esquerda de Pung, e o subordinado a seu lado recebeu a pasta do escrivão que sumira pouco antes e desapareceu pela passagem interna.

Sem levar a mão à gola, Pung voltou o olhar para o chaveamento da final. Uma noite depois o aguardava a maior disputa, mas não parecia que o lado de Hahu Gang deixaria aquela noite intocada.

Fim do capítulo 25

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