A aldeia era cercada por muros baixos de terra e cercas de madeira.
Assim que a carroça chegou à entrada, os cães começaram a latir. Os homens que carregavam lenha interromperam o trabalho, enquanto as mulheres junto ao poço examinavam Kang Mujin e seus trajes estranhos. Uma roupa de trabalho de um corte nunca visto por ali e um cajado com um fragmento de foice enferrujada preso à ponta. Intacta, sem uma única marca de queimadura, a roupa continuava destoando, mesmo manchada de terra e do verde das plantas após a passagem pela trilha na floresta.
O homem que conduzia a carroça explicou alguma coisa aos moradores e chegou a repetir o gesto com que Kang Mujin havia imitado marteladas. Alguns riram. Mas, quando ele ergueu a enxada quebrada que estava na traseira da carroça, todos voltaram os olhos para o interior da aldeia.
Ali ficava a ferraria.
Mais do que uma ferraria, era um abrigo de trabalho com uma cobertura improvisada. Uma forja de barro, um pequeno fole, uma pedra de amolar e algumas tenazes eram tudo o que havia. A bigorna no centro tinha uma rachadura que se estendia debaixo do chifre direito.
Era a mesma fissura que Kang Mujin sentira do lado de fora da aldeia.
Ao lado da bigorna estava sentado um velho com a mão esquerda enfaixada. Ele franziu a testa ao ver Kang Mujin e, depois de trocar algumas palavras com o carroceiro, apontou para a bigorna com o queixo.
Kang Mujin se aproximou e pousou a mão sobre ela.
A estrutura do ferro frio se revelou sob sua palma.
Por fora, havia apenas uma rachadura, mas, no interior, ela se dividia em mais três ramificações, mais finas que fios de cabelo. A bigorna havia sido feita pela união de blocos de ferro com o carbono mal distribuído. Também trazia sinais de ter passado tempo demais junto à forja, com apenas um dos lados aquecido repetidamente. Se continuassem a martelar nela, o chifre acabaria se soltando.
Kang Mujin apontou para a fissura e afastou dois dedos. Quando ampliou a distância entre eles, a expressão do velho se fechou.
— Não pode usar assim.
Embora não falassem a mesma língua, o sentido pareceu chegar até ele.
O velho ergueu a mão enfaixada, revelando manchas de um vermelho escuro nas bordas da atadura. Ao que parecia, já fora ferido por uma lasca de metal.
Kang Mujin examinou a forja. O carvão estava úmido, e o couro do fole apresentava rachaduras em vários pontos. As condições não eram boas, mas tampouco justificavam ficar de braços cruzados.
Ele apontou para a enxada na traseira da carroça, e o homem a entregou. Quebrada na junção entre a lâmina e o pescoço, ela havia sido feita de ferro estirado numa chapa fina e dobrado à força para receber o cabo. Uma longa faixa de impurezas negras atravessava a superfície da fratura.
Para consertar a enxada, precisava da bigorna.
Primeiro, teria de salvar a bigorna.
Kang Mujin indicou ao velho as tenazes e o carvão, depois fingiu puxar a alavanca do fole. O velho alternou o olhar entre suas mãos e seu rosto. Enquanto o carroceiro dizia alguma coisa ao lado deles, o menino mostrou a pequena marca gravada no cajado de foice que Kang Mujin havia feito.
Depois de um bom tempo, o velho bateu no próprio peito.
— Bran.
Kang Mujin também apontou para si.
— Kang Mujin.
— Jin… Tcher?
— Kang Mujin.
Bran experimentou o nome algumas vezes na boca antes de se afastar da frente da forja.
Kang Mujin começou pelo fole. Enquanto deixava pedaços de couro descartados de molho, escolheu, entre os pregos enferrujados, aqueles cujo núcleo ainda estava íntegro. Endireitou-os e os usou para costurar os trechos rachados. Também separou o carvão úmido do seco. Alimentou as chamas com o seco e deixou o restante secando na borda da forja.
As pessoas começaram a se reunir diante do abrigo.
Kang Mujin não olhou para elas. O fogo não fazia concessões a espectadores.
Foram necessários quatro homens robustos para mover a bigorna. Kang Mujin colocou apenas a parte rachada dentro da forja e cobriu com uma camada espessa de barro os trechos que não pretendia aquecer. Se aquecesse a peça inteira, a diferença na velocidade de resfriamento poderia abrir outras rachaduras.
Quando o fole começou a trabalhar, o fogo lambeu o ferro.
O vermelho escuro ficou vivo, depois clareou até o laranja. Para Kang Mujin, aquela mudança ia além da cor. Os grãos cristalinos se dilatavam com o calor, e as bordas onde se alojavam as impurezas se encaixavam de maneira irregular. Na ponta da fissura, a tensão se concentrava como uma agulha fina.
Ele estendeu a mão.
A bigorna vibrou de leve antes que ele a tocasse, e ouviu-se gente prender a respiração ao redor.
Kang Mujin moveu aos poucos o ferro dos dois lados da rachadura. Se apenas o comprimisse à força, fecharia a superfície, mas deixaria espaços vazios por dentro. Por isso, primeiro empurrou as impurezas para as bordas. Depois alinhou as irregularidades das faces partidas e fez os grãos aquecidos se unirem.
O suor escorreu de sua testa.
Era diferente de mover o fragmento de foice. A bigorna era grossa e pesada. A bênção lhe revelava o estado do ferro, mas não fornecia a força nem a concentração necessárias para movê-lo. Bastava deixar escapar uma única ramificação fina para que a peça não resistisse às marteladas.
— Martelo.
Kang Mujin estendeu a mão vazia, e Bran lhe entregou o maior martelo.
Tang.
O primeiro som saiu abafado.
Ainda não.
Kang Mujin girou a bigorna meio palmo, afastando o trecho exposto a oxigênio demais. Quando a temperatura subiu um pouco mais, uma fina película de óxido floresceu na superfície.
O martelo desceu outra vez.
Tang. Tang. Tang.
Primeiro, ele distribuiu golpes leves numa área ampla ao redor da rachadura, reunindo para dentro a estrutura dispersa do metal. Depois estreitou a área dos golpes. Alternava a quina e a face plana do martelo, controlando a direção com o pulso. Se batesse forte demais, deslocaria a estrutura que começava a se unir; fraco demais, o impacto não chegaria ao interior.
Depois de dezenas de golpes, o som mudou.
Uma nota límpida passou a prolongar a ressonância abafada.
Kang Mujin parou de martelar. Em vez de mergulhar a bigorna na água, enterrou-a numa cova cheia de cinzas e terra seca. Se esfriasse depressa demais, a região em torno da união tão trabalhosa poderia rachar de novo.
Enquanto esperava, cuidou da enxada.
Cortou a parte quebrada e forjou um novo pescoço, seguindo a estrutura do ferro restante. Para acrescentar material, escolheu a mais tenaz de duas ferraduras velhas. Aqueceu a lâmina da enxada, deixando dura a face que atingiria a terra e preservando a tenacidade do pescoço. Na têmpera, mergulhou a peça inclinada, começando pelo fio.
Tssss.
Vapor branco se ergueu.
No instante em que a fronteira do resfriamento atravessou o meio da lâmina, Kang Mujin retirou a enxada. Afiou-a na pedra de amolar e ajustou o orifício do cabo.
Por fim, pegou um pequeno cinzel.
Perto do pescoço da lâmina, gravou uma linha com duas dobras e acrescentou um traço curto no centro. Era uma marca simples que, de longe, parecia um martelo sobreposto a uma bigorna.
O carroceiro reconheceu a gravação, e o menino aproximou a marca do fragmento de foice para comparar. As duas eram iguais.
Kang Mujin entregou a enxada, e o homem golpeou o chão duro.
Tump.
A lâmina mordeu fundo a terra. Mesmo depois do segundo e do terceiro golpe, o pescoço não cedeu. O impacto fluía suavemente da lâmina para o cabo.
O homem buscou uma pequena bolsa e a ofereceu a Kang Mujin. Dentro havia cinco moedas achatadas, mas Kang Mujin pegou apenas uma.
Tanto o carvão quanto a ferradura pertenciam à aldeia. Aquilo bastava pelo trabalho.
O homem tornou a oferecer o restante.
— Uma basta.
Quando Kang Mujin ergueu um dedo, o homem deixou de insistir. Em vez disso, tirou um pão redondo da carroça e o colocou em sua mão.
Kang Mujin não devolveu o pão.
— Obrigado.
Retiraram a bigorna quando o sol já declinava.
Ao desbastar a película de óxido, surgiu uma linha tênue onde antes havia a rachadura. Como a peça fora feita de material irregular desde o início, não era possível deixá-la como nova.
Ainda assim, resistiria por mais alguns anos.
Kang Mujin bateu no centro da bigorna com um martelo pequeno.
Tlim.
Uma ressonância límpida se espalhou sob a cobertura.
Bran pegou o martelo e golpeou, ele mesmo, o chifre, a borda e o centro da bigorna, nessa ordem.
Tlim. Tlim. Tlim.
O velho manteve a mão sobre a bigorna por um longo tempo. Por fim, inclinou a cabeça para Kang Mujin.
Kang Mujin se curvou na mesma medida.
Naquela noite, dormiu num canto do abrigo.
A partir do dia seguinte, começaram a chegar foices e caldeirões, carrinhos de mão e argolas de porta. Kang Mujin não entendia frases longas, mas definia a ordem observando as mãos e as roupas de quem trazia os objetos. Vinham primeiro a foice do agricultor que precisava ir para o campo e o caldeirão para ferver a água da manhã. A lança do guarda, que ainda aguentaria mais algum tempo, e a encomenda de ornamentos do comerciante de grãos ficavam para depois.
Bran e as crianças lhe ensinaram a língua daquele lugar. Fogo era “ar”, ferro era “fer”, martelo era “marto”. Quando as crianças gritavam “Marto!”, Kang Mujin respondia “Mangchi”. Dias depois, palavras de dois mundos ecoavam juntas sob a cobertura. Segure, vire, bata, pare. O som do ferro nunca precisara de intérprete.
Um mês depois, começaram a chegar até relhas de arado e ferraduras da aldeia vizinha. Kang Mujin juntou o dinheiro de seu trabalho e forjou o próprio martelo. Pôs ferro rico em carbono na face de impacto e ferro macio e tenaz no corpo, sustentando por três dias o calor alimentado pelo fole fraco. A bênção revelava o estado do ferro, mas eram as experiências de uma vida inteira que determinavam o ponto e o ângulo de cada martelada.
Na lateral do martelo pronto, gravou a linha de duas dobras e o traço curto no centro. A marca que lembrava um martelo e uma bigorna percorreu os mercados antes de seu nome, e logo surgiram imitações. Um comerciante riscou linhas parecidas numa faca malfeita para tentar vendê-la mais caro.
— Não é minha.
Kang Mujin apontou o traço fora do lugar e bateu de leve a lombada da faca contra a quina da bigorna. Com um estalo seco, a lâmina rachou, expondo uma seção impregnada de impurezas negras.
— O ferro não mente.
Depois daquele dia, ninguém mais imitou a marca.
Antes da chegada do inverno, Kang Mujin reuniu dois martelos, tenazes, uma lima e uma pedra de amolar. Bran lhe deu um velho fole portátil. Na língua que acabara de aprender, Kang Mujin prometeu que talvez voltasse na primavera e se pôs a caminho.
Passou por margens de rios, colinas e pequenas cidades muradas, consertando ganchos, arados e pontas de lança. Mesmo quando um funcionário do senhor local apresentou uma espada longa em perfeito estado à frente do arado rachado de um agricultor, a ordem não mudou.
— A espada não vai quebrar hoje.
Ao longo de uma estação, a linha dobrada atravessou caminhos de montanha e rios, e os rumores chegaram à aldeia seguinte mais depressa que os passos dos homens.
Sem saber de nada disso, Kang Mujin estava sentado diante da forja de outra aldeia. Tinha nas mãos uma lâmina de machado com falhas no fio.
Ele ergueu a cabeça enquanto examinava a distribuição do carbono.
Ao longe, metais pesados se aproximavam.
Três martelos maciços.
Um par de botas reforçadas com aros de ferro.
Uma cota de malha e um machado de dois gumes da altura de um homem.
Os passos que pressionavam a terra eram curtos e firmes.
Pouco depois, a porta da ferraria se abriu.
Entrou um homem cuja barba, presa por anéis de metal, descia até a cintura. Era uma cabeça mais baixo que um humano, mas seus ombros eram largos o bastante para tocar os batentes da porta.
Ele pousou sobre a bancada uma relha de arado com a marca gravada.
— Você é Kang Mujin?
Dessa vez, Kang Mujin entendeu as palavras.
Ele pousou o martelo.
— Sou.
O homem bateu na gravação com um dedo grosso.
— Sou Doria Stonebeam.
Seus olhos brilhavam mais ardentes que a forja.
— Martele o ferro diante de mim. Quero ver se sua fama é tão sólida quanto suas marteladas.
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