Os dedos de Makdong percorreram devagar o fragmento do livro e pararam nas duas palavras ‘Grou Branco’.
— É igual ao que ouvi ontem à noite, até na ordem.
Makdong espiou a porta e baixou a voz.
— Os sujeitos do Heuksubang discutiam por causa da mercadoria do armazém do portão norte. As três carroças já tinham preço marcado, e disseram que no sexto dia o grou desce, então que ninguém tocasse nelas.
A data anotada no livro, o número de carroças e a marcação ‘portão norte’ batiam com o que Makdong ouvira. Se Grou Branco era pessoa, seita ou senha usada nas negociações, ainda não se sabia, mas as partes que se sobrepunham eram nítidas demais para se deixar passar como acaso.
Pung conteve a vontade de correr naquele instante até o armazém e trouxe à lembrança os rostos da vovó Dong-gu e de Hwang-u; Hyeonheo recolheu o fragmento do livro, apagou com a cinza da lamparina a marca deixada pelo papel e levantou-se.
— Agora vamos à cidade murada. O que obtivemos aqui precisa ser cotejado com Songjin.
Os quatro deixaram a estalagem antes de o dia raiar. Graças a Makdong à frente, puderam contornar as aldeias onde chegava a influência do Heuksubang e, seguindo as marcas deixadas pelo Clã dos Mendigos, não foi difícil encontrar água e lugar de descanso. Quando Pung examinou uma vez o anel dourado e o anel prateado, quietos desde que saíram da câmara de pedra, Hyeonheo advertiu em voz baixa.
— Não desperte de propósito o que dorme.
— Sim. Desta vez vou caminhar com minhas próprias forças.
Mesmo tendo ouvido aquilo, Makdong não indagou nada sobre os anéis. No terceiro dia, trouxe notícias de um mascate que consertava sandálias de palha à beira da estrada: nos dois armazéns e no portão norte ainda não havia movimento visível, e os homens do Heuksubang presos pelas autoridades continuavam encarcerados.
Pung sentiu um pequeno alívio por não haver recado de que as vítimas tivessem sido transferidas às pressas, e Makdong, dizendo que avisaria pela filial do Clã dos Mendigos na cidade assim que chegasse notícia mais firme, apertou o passo.
Assim que deixaram a fronteira, multiplicaram-se na estrada os guerreiros que iam ver o torneio de duelos. As jovens promessas, em trajes marciais novos, discutiam em cada estalagem as artes marciais afamadas e os favoritos ao título, e quando passava uma carruagem com o estandarte de alguma seita, os transeuntes abriam caminho e esticavam o pescoço.
Pung também tinha os olhos atraídos por armas e passos que via pela primeira vez, mas não abriu a visão dos meridianos. Bastava observar a que altura traziam a lâmina presa à cintura e qual pé recuavam primeiro quando um desconhecido se aproximava, e os hábitos que um guerreiro havia gravado no corpo já se revelavam vagamente.
— Vejo que seus olhos andam atarefados.
Diante das palavras de Hyeonheo, Pung, que observava os pés do espadachim à sua frente, desviou o olhar.
— É que todos caminham de um jeito diferente.
— Desde que não julgue saber tudo aquilo que vê, aprender com os olhos também é treino.
As altas muralhas da cidade se mostraram na tarde do sétimo dia de viagem. Sobre o portão tremulavam lado a lado os estandartes de várias seitas ortodoxas, e para além dos telhados sobrepostos erguia-se imponente o pavilhão da sede da Aliança Marcial. Mesmo de longe se sentia aquela força, mas Hyeonheo não seguiu direto para a sede: conduziu o grupo à rua das ervas, no oeste da cidade.
Enquanto Makdong e Ayeong vigiavam do lado de fora, Pung entrou com Hyeonheo pela porta dos fundos de uma velha botica. No fim de um corredor impregnado do cheiro de ervas, o dono da botica empurrou um armário e surgiu uma porta por onde mal passava uma pessoa; além da passagem estreita, na sala de chá, estava sentado um homem de meia-idade, em trajes marciais cinzentos vestidos com esmero.
Ele não se levantou ao ver Hyeonheo; apenas virou a placa que estava sobre a mesa, e no lado de baixo havia três riscos, como traçados com a ponta de uma lâmina.
— O terceiro pilar do santuário do deus da montanha racha para o norte a cada inverno.
Hyeonheo tirou do peito uma velha placa de jade, e as três marcas de lâmina ao lado do antigo selo da Aliança Marcial tinham o mesmo espaçamento dos riscos da placa de madeira.
— Na fenda, antes da neve, acumulam-se as agulhas de pinheiro.
Só então o homem de meia-idade se levantou, e quando Hyeonheo, antes mesmo da insígnia de anciã do salão da lei, conferiu o velho corte no canto do verso, os ombros tensos dele afrouxaram um pouco.
— Há quanto tempo, Songjin.
— Mais de dez anos, irmão.
Os dois apertaram brevemente as mãos. A alegria do reencontro não durou: Songjin trancou a porta, abriu o armário de ervas da parede e mostrou três tubos de mensagem vazios e um pedaço de lacre rompido havia pouco.
— Confirmei o sinal do santuário do deus da montanha. Depois disso, mensagens ligadas à fronteira foram desviadas duas vezes para outra repartição, e houve quem perguntasse pelo seu nome, irmão. Foi por isso que não respondi e fiquei esperando aqui.
— Quem perguntou?
— Um escrivão do salão da lei foi interrogado por um mensageiro do Conselho dos Veteranos. O mensageiro disse que também apenas cumpria ordens, então não é certo o bastante para se apontar quem está por trás.
Hyeonheo descobriu só uma parte do fragmento do livro e mostrou a Songjin, e Songjin, examinando as palavras Heuksu e portão norte, estreitou os olhos sem tocar no papel.
— Na lista anexa ao relatório da fronteira que sumiu há três meses aparecia a palavra Heuksu. Procurei o original, mas no arquivo restava apenas a capa. Não estava registrado a que aldeia o portão norte se referia.
— E o Grou Branco?
O olhar de Songjin foi por um instante até a porta.
— Não é um sinal oficial usado dentro da Aliança. Mas, entre as mercadorias que entraram recentemente no Conselho dos Veteranos, houve algumas vezes lacres estampados com um grou branco. Foram tratados como emblema de casa comercial, só que no livro não havia remetente.
O ‘dia em que o grou desce’ que Makdong ouvira, o Grou Branco do livro de Nohachon e os lacres de grou branco sem remetente se encadearam um após o outro na cabeça de Pung. Era grande a possibilidade de estarem relacionados entre si, mas não havia prova de que apontassem para a mesma coisa, e amarrar tudo num só nó às pressas poderia custar outros rastros.
Quando Hyeonheo revelou ter em mãos dois livros, a placa com o emblema do lobo negro e o frasco de veneno, Songjin não perguntou primeiro onde estavam; ficou algum tempo mergulhado em pensamentos e então falou em voz baixa.
— Não me entregue todos os originais. Nem dos depósitos marcados com o selo da Aliança posso garantir que sejam seguros. Vamos esconder o livro, a placa e o frasco de veneno separadamente, e farei que o papel, a tinta e a composição do veneno sejam conferidos por pessoas diferentes. É melhor que os peritos nem saibam que se trata de objetos de um mesmo caso.
— Até onde você confirmou pessoalmente?
— A proposta de investigação da fronteira foi barrada duas vezes e parte dos relatórios ligados a ela sumiu. Alguns veteranos adiaram a reabertura sob o pretexto de que não se deve provocar o Culto Demoníaco. Só que não há prova de que tenham participado do comércio de pessoas.
Pung gravou aquela resposta no coração. A suspeita podia fazer alguém encontrar o caminho, mas não firmava a culpa; e a visão dos meridianos, do mesmo modo, apenas mostrava as marcas de treino restantes no corpo — não era um olho capaz de revelar quem recebia ordens de quem.
A um sinal de Songjin, Ayeong e Makdong também entraram na sala de chá. Os cinco decidiram esconder em lugares diferentes os livros originais, a placa e o frasco de veneno, e levar para dentro da Aliança Marcial apenas uma folha com a cópia dos registros necessários. Era uma medida para que, ainda que um deles fosse capturado ou mudasse de ideia, nem todas as provas desaparecessem.
— Também é preciso um pretexto para entrar na Aliança com naturalidade.
Songjin tirou de debaixo da mesa o edital de inscrição do torneio de duelos das jovens promessas. Estava escrito que os participantes podiam transitar entre o pátio de treino externo e os pavilhões designados e que, obtendo bom resultado, ganhavam a oportunidade de se apresentar diante dos veteranos e dos representantes de cada seita.
— Se o povo se junta, a vigilância também aumenta.
Makdong correu os olhos pelo edital e Songjin assentiu.
— E na mesma medida fica mais fácil um contato às escondidas. Participantes, acompanhantes e gente das casas comerciais entrarão e sairão todos de uma vez.
O olhar de Songjin pousou em Pung.
— Se o jovem Pung participar, circular pela Aliança se tornará natural. E dará para observar quem demonstra interesse pelo discípulo do irmão Hyeonheo e quem reage em excesso às palavras Nohachon ou Heuksu.
Desdobrar suas artes marciais diante de todos aumentava o risco de revelar a visão dos meridianos e o poder dos anéis. Se a mensagem de Dokgo tivesse chegado antes, os olhos que o vigiariam da arquibancada poderiam ser mais ameaçadores que o adversário na arena. Ainda assim, apenas esperar com as provas escondidas não abria nenhum caminho para chegar até os que haviam desaparecido.
No instante em que Pung ia abrir a boca, ouviu-se debaixo do beiral o roçar tênue de papel. Makdong abriu depressa a porta dos fundos, mas pelo beco só passavam transeuntes com trouxas de ervas, e na fresta de um pilar estava enfiado um pedaço de papel dobrado.
Era um canto arrancado do cartaz do torneio, e no verso haviam ficado três nomes de estalagem e um pequeno desenho a tinta parecido com a cabeça de um grou.
— E estas três?
Diante da pergunta de Hyeonheo, o rosto de Songjin endureceu.
— Duas são lugares por onde entra e sai o pessoal das casas comerciais que fornece os suprimentos do torneio. A outra é o alojamento reserva que meu contato usaria caso o encontro falhasse. Não é lugar para vocês ficarem.
— Será que este desenho significa o Grou Branco do livro?
À pergunta de Pung, Songjin não respondeu às pressas.
— Pode ser a marcação do trajeto dos encarregados do torneio, como pode ser o sinal de quem vigia meu contato. Também não se deve descartar a possibilidade de ser algo plantado de propósito para semear suspeita e sondar quem entrou na botica.
A identidade do Grou Branco continuava dentro da névoa, mas um fato era claro: alguém amarrava numa única folha de papel os suprimentos do torneio e o contato de Songjin e os observava.
Songjin escolheu como alojamento uma pequena estalagem no leste da cidade e disse que era um lugar alugado sem nenhum rastro ligado ao seu nome ou à botica, e distante também das três estalagens anotadas no papel. O grupo deixou a botica em horários e por caminhos diferentes para dispersar os olhares e, ao cair do sol, tornou a se reunir na estalagem combinada.
Reunidos no quarto, Hyeonheo perguntou a Pung.
— Vai participar mesmo sabendo do perigo?
— Sim. Não é para exibir a minha força. Vou confirmar para onde se voltam os olhos que me observam. Não usarei os anéis nem a visão dos meridianos, a não ser quando for realmente necessário.
Hyeonheo contemplou Pung por um tempo e assentiu; Ayeong dobrou o edital de inscrição e o deixou num canto da mesa, e Makdong, encostado à janela, observava as luzes da cidade.
Pung baixou os olhos para o pedaço de papel com a cabeça de grou, ao lado do edital, e o caminho escuro que começara em Nohachon passava pelo Heuksubang e seguia para dentro dos muros da Aliança Marcial.
Para abrir esse caminho, Pung escreveu o próprio nome na ficha de inscrição do torneio de duelos.
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