Deus Marcial

Capítulo 4 — O Mundo das Artes Marciais (江湖)

O anel prateado pulsava baixo, voltado para a encosta ao norte.

Mesmo depois que a presença do fugitivo se desfez, a direção não mudou. Quando Pung ergueu a mão direita, os desenhos turvos na superfície do anel ondularam devagar, como água, e a energia formigante que lhe penetrava a face interna do dedo espalhou-se até o pulso. Desde que saíra do Abismo Sem Fundo, o anel já se movera sozinho outras vezes, mas era a primeira vez que apontava um lado com tamanha nitidez.

Hyeonheo perguntou em voz baixa:

— Está sentindo alguma coisa?

— Ele me apressa a ir para lá.

— Quer dizer que devemos perseguir o fugitivo?

Pung não respondeu de imediato; examinou a crista ao norte. Na mata onde pinheiros e rochas se sobrepunham não se via ninguém, mas, quando concentrou a força nos olhos, o rastro tênue de uma energia surgiu como um fio na escuridão. Não era um fluxo amplo e estável como o de Hyeonheo; era fino, prestes a se romper, e aqui e ali havia um brilho azul-escuro grudado no traço, uma energia parecida com a das agulhas envenenadas que apodreciam as árvores.

Era alguém que espreitara o confronto entre ele e Hyeonheo. Se tinha visto até o momento em que o corpo de Pung reagiu à energia externa e cuspiu força, então aquele homem talvez não estivesse apenas fugindo, mas indo avisar alguém. Dera as costas para não arrastar sombras até a aldeia, e a sombra já lhe seguia os passos.

— Vou atrás dele.

Quando Pung fez menção de avançar, Hyeonheo ergueu o braço e barrou-lhe o caminho.

— Quem garante que ele está sozinho?

— Se o perdermos, ele voltará.

— Razão a mais para ter cuidado. Vi que você é rápido, mas perseguir alguém no mundo das artes marciais não se faz só com os pés. No caminho que um fugitivo deixa não há apenas rastros; há armadilhas.

Antes que terminasse de falar, o anel prateado estremeceu com força. A energia formigante subiu até perto do cotovelo, e Pung cerrou o punho sem perceber; voltou-lhe a sensação dos tempos em que o anel o obrigava a treinar no Abismo Sem Fundo. Se mandava correr, era preciso correr; se mandava destruir, era preciso destruir; e ainda que os ossos quebrassem e a carne se rasgasse, obedecer era o único modo de sobreviver.

Mas agora havia céu sobre a cabeça, e ele podia decidir sozinho por qual caminho ir; não pretendia ser arrastado outra vez sem sequer saber o motivo.

Pung abriu devagar os dedos dobrados.

— Não vou às cegas só porque o anel manda. Se sigo ou não, decido eu, depois de ver.

O anel prateado pulsou mais uma vez, como se mostrasse descontentamento, e, como Pung não avançou para o norte, Hyeonheo observou alternadamente a mão e o rosto dele antes de assentir de leve.

— Muito bem. Nesse caso, eu vou à frente. Não fique a mais de três jang de distância e, se sentir um cheiro estranho, prenda a respiração antes de qualquer coisa.

— Cumpra também a condição de que eu fico atrás.

— Meticuloso até numa hora dessas.

Hyeonheo deixou escapar um sorriso amargo e lançou-se primeiro à encosta, com movimentos leves a ponto de desmentir a idade; nem quando as mangas roçavam os ramos dos pinheiros se ouvia quase som algum. Pung apertou as alças do cesto e seguiu logo atrás. Não, precisava fingir que seguia. Bastava relaxar um pouco e ultrapassaria as costas de Hyeonheo num salto, de modo que tinha de conter a força a cada passo.

No começo não foi difícil achar as marcas. O fugitivo devia estar com pressa, pois passara revolvendo as agulhas secas de pinheiro, e na terra macia as pontas dos pés afundavam fundo. Hyeonheo movia-se ao lado das pegadas sem pisá-las, examinando um a um os galhos quebrados e o musgo amassado; não havia nele sinal de pressa, mas tampouco hesitação nos passos.

Pung olhava menos para o chão e mais para o ar entre as árvores. O resíduo azul-escuro se estendia como um fio e se dispersava no vento e, quanto mais cristas atravessavam, mais nítida ficava a cor. Parecia que a distância até o outro diminuía, mas, estranhamente, as pegadas ficavam ainda mais fundas e claras.

Pouco depois, Hyeonheo ergueu o punho, sinal para parar.

À frente havia uma ravina rasa de pouco mais de duas braças de largura; o fundo estava coberto por uma camada espessa de folhas secas, e um pedaço de pano preto, preso a uma rocha do outro lado, balançava ao vento. As pegadas desciam direto para o fundo do vale, como se ninguém tivesse a menor intenção de se esconder.

Hyeonheo curvou a cintura e apanhou uma pedrinha.

— Observe bem.

No instante em que a pedra caiu sobre as folhas, um assobio irrompeu dos arbustos dos dois lados; finas agulhas negras trespassaram a área ao redor da pedra como uma chuva, e das folhas tocadas pelas pontas subiu uma fumaça amarelada. Assim que o cheiro acre lhe chegou às narinas, Pung prendeu a respiração.

— Armadilha de agulhas envenenadas.

— As pegadas estavam fundas demais. Não foram deixadas na fuga; foram gravadas para que as seguíssemos.

Hyeonheo cobriu o nariz e a boca com um pano e examinou os dois lados da ravina. O anel prateado continuava apontando para o outro lado, e o rastro azul-escuro seguia na mesma direção, mas Pung não acreditou naquele puxão ao pé da letra. Enquanto não soubesse o que o anel sentia, não tinha como julgar se ele procurava o perigo ou se queria levá-lo para dentro dele.

Sobre a ravina, o galho grosso de um pinheiro antigo se estendia até a outra margem e, quando Pung olhou para lá, Hyeonheo falou primeiro.

— Também podem ter preparado alguma coisa ali.

Em vez de saltar, Pung concentrou a força nos olhos. A seiva que subia pela árvore revelou-se como uma luz tênue, e no meio dela havia uma linha negra, fina como uma agulha. Era um fio esticado sob o galho; se alguém o pisasse, romper-se-ia e despejaria outra saraivada de agulhas envenenadas.

— Há um fio no galho de baixo. Vou passar por cima dele.

Pung escolheu um tronco bem longe do fio e impulsionou o chão com a ponta do pé; o corpo elevou-se como um pássaro, pisou uma vez o tronco e, no instante seguinte, pousou sem ruído sobre a rocha do outro lado da ravina. Mesmo tendo se movido contendo toda a força, a distância lhe pareceu mais curta do que esperava.

Hyeonheo, que atravessou em seguida, estreitou os olhos.

— Quem lhe ensinou essa técnica de passos?

— Não posso dizer.

— De novo o erro foi meu, por perguntar. Mas vá um pouco mais devagar. Não vai dar a um velho um instante para preservar a dignidade?

Ao contrário do que dizia, a respiração de Hyeonheo não estava nem um pouco alterada. Pung afrouxou de leve o canto da boca e depois virou a cabeça para a mata à direita.

Entre o vento misturava-se um som de respiração contida. Atrás de uma rocha, um fio de corrente azul-escura oscilava com aspereza; o fugitivo já não se movia, mantinha o corpo abaixado.

Era a respiração de quem espera.

Quando Pung apontou a direção com o dedo, o riso desapareceu do rosto de Hyeonheo. Hyeonheo infiltrou-se pela mata à esquerda e bloqueou a rota de fuga atrás da rocha; Pung ficou de frente. Para ler a direção das agulhas que o outro lançaria, era melhor mostrar-se do que obstruir o próprio campo de visão.

Pung foi encurtando a distância devagar.

Três passos.

Dois passos.

No instante em que deu o último passo, uma sombra negra saltou de trás da rocha: um homem de meia-idade com o rosto coberto por um pano. Assim que cruzou o olhar com Pung, o homem sacudiu o pulso sem hesitar, e de dentro da manga faiscaram três lampejos.

Antes que as agulhas chegassem, ele já via a energia do homem. A força escorreu do ombro para o cotovelo e daí para o pulso, dividindo-se em três ramos que miravam alturas diferentes. Pung torceu o corpo meio passo e deixou a primeira agulha passar, desviou a segunda com a palma batendo-lhe na lateral e escapou da última arqueando a cintura para trás. A agulha negra passou raspando o peito e cravou-se na borda do cesto que levava às costas.

O homem se virou sem sequer conferir o resultado. Mas sobre a rota de fuga já estava Hyeonheo.

— Quem o enviou?

Nem à pergunta de Hyeonheo o homem respondeu; apenas girava as pupilas depressa de um lado para o outro. Então sacou uma faca curta da cintura e apontou-a não para Hyeonheo, mas para o próprio pescoço.

Pung estendeu a mão sem tempo para pensar; a energia que disparou da ponta dos dedos golpeou as costas da lâmina, e a faca escapou da mão do homem e bateu na rocha. Mas, no momento em que bloqueou a lâmina, a força que Pung lançara para afastar aquela mão, tendo lido a intenção assassina que o homem exalava, inchou descomunalmente antes que ele conseguisse afiná-la e precipitou-se sobre o peito do sujeito.

Se o atingir assim, ele morre.

Pung cerrou os dentes e torceu o braço; a energia densamente concentrada não obedeceu e tentou voltar sobre ele, mas, baixando o ombro, empurrou a direção da força para o lado. Uma ondulação dourada roçou a barra da roupa do homem e desabou sobre a rocha.

Um estrondo sacudiu a encosta. A rocha, da altura de uma pessoa, explodiu de dentro para fora, despejando estilhaços, e Hyeonheo abriu as mangas para conter os fragmentos que voavam na direção do homem. Pung também tentou agarrar-lhe a nuca, mas o instante gasto para torcer a força inchada tinha sido longo demais.

O queixo do homem se moveu.

Clac.

Era o som de algo pequeno e duro se quebrando entre os molares.

— Cuspa isso!

Hyeonheo avançou e agarrou o queixo do homem, mas o sangue negro escorreu primeiro por baixo do pano; o corpo dele estremeceu uma vez, com força, e os joelhos cederam sem resistência. Enquanto Hyeonheo o deitava no chão e pressionava depressa os pontos vitais do peito e do pescoço, Pung sentou-se ao lado e observou os fluxos dentro daquele corpo.

A luz que se reunia no coração turvou-se a uma velocidade assustadora. A energia negra que se espalhara do pescoço ao peito correu em todas as direções pelos vasos e, cada vez que Hyeonheo movia as mãos, parecia deter-se por um momento, mas logo penetrava ainda mais fundo.

Pung estendeu a mão e parou. Os dois anéis tinham restaurado os próprios ossos quebrados e a carne rasgada, mas não havia como saber se fariam o mesmo por outra pessoa. Se injetasse naquele homem a força com que expulsara a energia de Hyeonheo, poderia cortar o sopro que ainda lhe restava.

— Não dá para salvá-lo?

Hyeonheo pressionou mais alguns pontos, mas o pulso sob as pontas dos dedos não voltou.

— Escondeu uma pílula de veneno sob a língua. Já se espalhou até os vasos do coração.

A mão do homem endurecia sobre a terra, e Pung olhou alternadamente para ela e para a faca arremessada ao longe. Se não tivesse tido a atenção tomada pelo esforço de conter a força inchada, teria conseguido dominar primeiro aquele pulso? Talvez assim tivesse impedido o queixo antes que se movesse.

Torcera a própria força para não matar ninguém, e ainda assim a pessoa diante dele morrera. Os animais selvagens atacavam para viver e, quando se lhes abria um caminho de retirada, em geral iam embora; mas o ser humano tirava a própria vida para não ser capturado. Hyeonheo dissera que o mundo das artes marciais é o lugar onde os que possuem artes marciais trocam favores e rancores. Para Pung, porém, aquela escolha de usar a própria vida como mordaça era mais estranha e mais assustadora.

Hyeonheo retirou o pano que cobria o rosto. Era um homem de meia-idade desconhecido, com uma cicatriz de queimadura na bochecha, e abaixo do pescoço restava, apagado, o vestígio de uma tatuagem removida.

— O senhor o conhece?

— É a primeira vez que vejo esse rosto.

Com o pano enrolado na mão, Hyeonheo examinou as mangas e a cintura do homem. Além das agulhas envenenadas e de algumas moedas, não havia nada que revelasse sua identidade, mas do fundo de uma bolsa de couro saiu um pó de terra endurecido, de um vermelho escuro. Hyeonheo, sem cheirá-lo, esfregou um pouco entre as pontas dos dedos e endureceu a expressão.

— Há sangue antigo misturado aqui.

— É sangue deste homem?

— As crostas secas parecem diferentes entre si. Nem sei se pertencem a uma só pessoa.

Pung desviou o olhar da terra vermelho-escura para a crista ao norte. Mesmo depois da morte do homem, o anel prateado não se aquietou; ao contrário, o puxão naquela direção estava mais nítido do que antes. Não era apenas este vigia que o anel perseguia.

— Se formos adiante, não descobriremos de onde ele veio?

— Talvez descubramos. Ou talvez entremos por vontade própria no lugar preparado para nos atrair.

Hyeonheo olhou, um após o outro, para a luz inclinada do sol e para o vale cravado de agulhas envenenadas.

— Corre o boato de que ultimamente pessoas vêm desaparecendo na fronteira norte. Some uma ou duas de cada aldeia da montanha. No início acharam que era obra de feras ou de bandidos, mas as notícias vêm descendo aos poucos para o sul.

— As pessoas desaparecidas voltaram?

— Pelo que ouvi, nenhuma.

O fluxo que seguia para o norte tremeluzia diante dos olhos de Pung; talvez fosse um rastro ligado aos desaparecidos. Ainda assim, o sol já se inclinava, e o homem que morrera diante dele carregava consigo uma pílula de veneno, prevenido para o momento da captura. Nem dava para saber quantos outros como ele havia na mata.

Acima de tudo, Pung não conseguira recolher por completo a própria força inchada. Terminara apenas destruindo a rocha ao desviar do homem, mas, se Hyeonheo estivesse perto, talvez tivesse sido arrastado pela ondulação. Não podia ferir quem estava ao seu lado dizendo que ia salvar pessoas.

Pung recolheu o pé que apontava para o norte.

— Hoje não vou adiante.

O anel prateado tremeu baixo, mas ele não cerrou a mão; sentiu a pressa e não a obedeceu.

— Em troca, quero descobrir de onde veio este homem. E por que o anel aponta para lá.

— Para encontrar essa resposta, primeiro é preciso saber como a sua força se move.

Hyeonheo embrulhou bem a terra com sangue e as agulhas e guardou-as no peito. Decidiram avisar um eremitério próximo para que recolhessem o corpo do homem, e do cesto danificado pelas agulhas separaram depressa apenas as ervas que ainda se podiam aproveitar. Uma raiz vermelha rolou para o meio das folhas envenenadas, mas Pung não estendeu a mão.

— Não é uma pena?

— É uma pena.

Pung afastou o olhar do brilho vermelho entre as folhas.

— Mesmo assim, é melhor do que alguém se machucar.

Hyeonheo assentiu em silêncio. Os dois seguiram para o alto da montanha, verificando se alguém os seguia e, quando o sol se pendurava na crista, avistaram uma lanterna entre as árvores.

Da chaminé da cozinha de uma casa pequena e asseada subia fumaça branca, e num canto do quintal a lenha seca estava empilhada com esmero. Quando o cheiro de comida se misturou ao ar da noite e desceu até eles, Pung afrouxou o passo sem perceber; para olhos que haviam passado cinco anos presos debaixo da terra, sem um único raio de luz, até a lanterna que tingia o papel da janela era ofuscante. O fogo aceso por gente, o calor acumulado sob um telhado, a fumaça que brotava como sinal de que alguém esperava: tudo isso lhe era estranho na medida exata dos anos que passara esquecido.

Hyeonheo empurrou o portão.

— Ayeong, o vovô chegou.

Ouviram-se passos apressados dentro da casa e a porta se abriu de supetão. Uma menina que parecia da idade de Pung pôs a cabeça para fora; sob o cabelo preso com capricho viam-se as mangas arregaçadas para o trabalho na cozinha.

— Por que demorou tanto? A comida vai esfri…

O olhar da menina pousou em Pung. Depois de percorrer a roupa suja de terra e o cesto manchado de negro, ela arregalou os olhos.

— Opa, quem é esse pirralho?

Pung duvidou dos próprios ouvidos. A menina parecia uma cabeça mais baixa do que ele.

— Quem aqui é pirralho?

— Você. Veio grudado atrás do vovô.

— Você é menor do que eu.

As sobrancelhas da menina se ergueram de repente.

— Acha que quem é um pouco mais alto já virou adulto?

— Então, para começar, não devia ter me chamado de pirralho.

Hyeonheo se meteu entre os dois e pigarreou.

— Este menino é Danpung. É um hóspede que ficará por uns dias, então não o trate mal. Pung, esta é minha neta, Hyeon Ayeong.

Ayeong cruzou os braços e examinou Pung de cima a baixo.

— Se é hóspede, comporte-se como hóspede. E não entre na cozinha mexendo no que não deve.

— Não pretendo.

— Mas responder, responde direitinho.

Ayeong aproximou-se a passos largos e tentou pegar o cesto de Pung. No instante em que ele ia entregá-lo, apareceu um espinho negro cravado entre as talas de bambu quebradas, e a ponta dos dedos dela desceu bem em cima dele.

— Não toque!

Pung agarrou o pulso de Ayeong e puxou-a para trás. Por ter se movido depressa demais, o corpo dela veio junto com facilidade e, depois de bater o ombro no peito de Pung, ela cambaleou e caiu sentada no quintal.

— Ai! O que você está fazendo?

Quando Ayeong o encarou com o rosto avermelhado, Pung soltou a mão imediatamente. Desde o início não havia motivo para que seu corpo se sobressaltasse: antes mesmo de segurar aquele pulso, ele já lia com toda a clareza que nela não havia nem um grão de má intenção.

— O espinho está envenenado. Achei que sua mão ia encostar…

Hyeonheo pegou o cesto e cobriu o espinho com um pano.

— Pung tem razão. Basta um roçar na ponta dos dedos para ser perigoso, então não chegue perto.

Ayeong levantou-se e sacudiu a terra da manga; os lábios ficaram franzidos, como se a raiva não tivesse passado de todo, mas ela não tocou mais no cesto.

— Então era só dizer desde o começo que tinha veneno.

— Sua mão ia encostar antes que eu dissesse. Desculpe.

Quando Pung baixou a cabeça, Ayeong o fitou por um momento com o rosto de quem perdeu as palavras. Depois escancarou a porta e virou-se de costas num gesto brusco.

— Ficar parado aí fora só deixa o cheiro da comida escapar. Entrem logo.

Enquanto Hyeonheo guardava à parte os objetos envenenados, Pung parou diante da soleira. Sobre a mesinha havia uma sopa com cheiro de pasta de soja e alguns pratos de verduras temperadas e, quando o ar morno lhe tocou o rosto, lembrou-se vagamente das noites na casa em que vivia com a mãe. Foi como se, na memória, a tampa velha da panela se abrisse tilintando.

Quando os três se sentaram, Ayeong pousou a tigela de arroz diante de Pung; o gesto foi ríspido, mas o arroz estava mais farto do que nas outras tigelas.

— Por que não come? Acha que tem veneno?

— Não.

Pung levou uma colherada de caldo à boca. O tempero estava um pouco salgado e as verduras, duras, mas, quando o calor desceu pela garganta, algo no peito formigou. No Abismo Sem Fundo, aguentara a fome com ervas espirituais vermelhas e frutos sem nome e, mesmo depois de sair, enchera a barriga com o que colhia na montanha. Alguém acender o fogo pensando na hora em que ele voltaria e guardar comida para ele era coisa que havia esquecido fazia muito tempo.

Enquanto ele comia devagar, de cabeça baixa, Ayeong o espiou algumas vezes de canto de olho; não perguntou o motivo, apenas empurrou discretamente para o lado dele o prato de verduras que estava à sua frente.

Quando a refeição chegava ao fim, Hyeonheo contou em poucas palavras o que acontecera na montanha: o vigia, a armadilha de agulhas envenenadas, a pílula que o homem mordera e a terra misturada com sangue. Sobre o poder do anel e sobre os olhos de Pung, não disse nada.

Ayeong pousou a colher.

— Norte não é para os lados da Vila Yangga? O mascate que passou por aqui no mês passado também disse que sumiu mais gente perto de lá.

— Não se pode afirmar que essa terra tenha vindo da Vila Yangga.

— Mas o senhor mesmo disse que já são vários desaparecidos. Não dá para deixar assim.

Hyeonheo não respondeu de imediato. Uma sombra densa passou-lhe pelo rosto enquanto bebia um gole de chá frio, e Pung a viu, mas não conseguiu decifrar o motivo.

— Vasculhar o norte só com suposições pode nos levar direto à armadilha que nos espera. Amanhã começo examinando as agulhas envenenadas e também vou procurar se existe registro de algum objeto parecido com os anéis de Pung.

Hyeonheo olhou para Pung.

— No começo achei que um ou dois dias bastariam, mas a situação mudou. Pode haver mais gente que o viu, e o anel prateado continua apontando para o norte. Se partir sozinho agora, será difícil até perceber se está sendo seguido.

Pung pousou as duas mãos sobre os joelhos. Desde que quase matara o homem, seu corpo se mantinha quieto, assentado, e apenas o anel prateado da mão direita pulsava de leve sob a mesa, voltado para o norte.

Não é que não tivesse vontade de ficar numa casa quente. Mas, se confiasse nos outros e se instalasse ali só porque sentia falta de calor, não seria muito diferente de ser arrastado pela pressa do anel. Para descobrir o que o esperava no norte, precisava dos registros e da experiência de Hyeonheo e, acima de tudo, precisava aprender a recolher a própria força antes que ela matasse alguém.

Da próxima vez não queria perder a pessoa diante de si, e menos ainda ferir com a própria força quem tentava proteger.

— Vou ficar alguns dias.

Ayeong estreitou os olhos.

— Só alguns dias mesmo?

— Assim que eu descobrir o que preciso, vou embora.

— Quem disse que alguém vai segurar você?

Ayeong virou a cabeça com ar desdenhoso, mas pouco depois levou roupa de cama nova para o quarto onde Pung dormiria. Hyeonheo montou uma barreira simples de vigilância e sinos ao redor da porta, prevenindo-se contra alguma invasão, e mandou Pung para o quarto, dizendo que examinariam as agulhas quando o dia clareasse.

Naquela noite, Pung deitou-se num quarto onde restava o calor das pessoas. Lá fora, o vento da montanha varria as folhas e, ao longe, o canto dos insetos continuava; os sinos de vigia no quintal não tocaram uma única vez.

Ainda assim, o sono custava a chegar.

Quando tirou a mão direita de debaixo da coberta, o anel prateado pulsava de leve para o norte, e Pung olhou pela fresta da janela o quintal silencioso e a mata mergulhada no escuro. Além das cristas mais distantes, uma névoa cinzenta embebida de luar se espalhava baixa e lenta.

Para além daquela névoa, o anel não mudou de direção uma única vez a noite inteira.

Fim do capítulo 4

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