Na noite daquele dia em que terminou o treino de combate com Ayeong, Hyeonheo pousou diante de Pung uma agulha de ponta romba.
— Sabes o que é mais perigoso do que os teus olhos?
Pung lembrou-se da força que se erguera grande demais no treino da tarde e baixou os olhos para os próprios dedos.
— A minha força?
— Mais exatamente, a força que ainda não consegues recolher por inteiro. Quanto maior a força, mais ela destrói ao menor vazamento; se não souberes recolhê-la com finura, o primeiro a se ferir será justamente aquilo que querias proteger.
Hyeonheo carregou a agulha romba de energia e golpeou o ombro de Pung. No instante em que enfrentou a intenção de matar, uma força subiu às pontas dos dedos para responder, e era grande demais para caber dentro do quarto. Em vez de prendê-la à força, Pung tentou escoá-la para o lado vazio. No primeiro dia, a quina da mesa foi arrancada; depois, o caixilho da janela e a xícara de chá se partiram, um após o outro. Só depois de aprender a pregar pregos com Ayeong e adquirir o senso de fixar a direção antes da força foi que conseguiu desviar aquele ímpeto para a terra e para o vento; ainda assim, na última xícara que restou havia uma rachadura fina como um fio de cabelo correndo pelo fundo.
— Antes de olhar se venceste, olha o que foi danificado.
Pung deixou aquela xícara ao lado do lugar de treino: não bastava deter o ataque, era preciso examinar também o rastro por onde a própria força havia passado.
Dia após dia, Pung recolhia aquela força um pouco mais delicadamente; o ímpeto que não conseguia reduzir por completo, escoava para baixo dos pés, e quando até isso era perigoso, torcia-o para o ar vazio. Ayeong lançava olhares tortos cada vez que um buraco se abria no muro, mas um dia lhe estendeu o martelo e ensinou de novo, desde o modo de segurar o cabo.
— Bater com força qualquer um bate. Tem que olhar a cabeça do prego e acertar em cheio.
— Também posso manejar esta força como um prego?
— Por que me pergunta isso? Ela está grudada no seu corpo.
A resposta foi ríspida, mas Ayeong não saiu de perto até Pung consertar a parede. Hyeonheo bebia seu chá fingindo não notar a discussão dos dois e, cada vez que pousava a xícara, era para Pung que olhava primeiro, para ver se a rachadura não tinha se alargado.
Quando o segundo inverno no cume da montanha cobriu a crista de branco, um vendedor de remédios atravessou a nevasca e entrou no pátio. Caiu sem conseguir sequer tirar das costas a caixa de remédios, e na panturrilha direita havia sangue coagulado, escuro e avermelhado.
Enquanto Ayeong esquentava a água, Pung examinou o ferimento: o corte de lâmina não era fundo, mas uma aura venenosa cor de tinta penetrava os meridianos como raízes finas, avançando na direção do coração.
— É veneno.
Quando Hyeonheo ergueu a pálpebra do vendedor para conferir a pupila, o homem mal conseguiu mover os lábios ressecados.
— Encontrei três mascarados abaixo do passo a noroeste. Perguntaram se eu tinha visto alguém e, quando respondi que não sabia, reviraram minha caixa de remédios e o livro de registros.
O livro que ele tirou do peito estava repleto de anotações das ervas compradas pelas aldeias da fronteira. Ao lado de alguns nomes de lugares havia círculos vermelhos, e as marcas, começando na ponta norte, desciam aos poucos para o sul ao longo de uma antiga estrada interditada.
— O que são estas marcas?
— São os lugares onde pessoas desapareceram. No mês passado sumiram três abaixo de Baegunryeong, e houve uma aldeia onde até uma criança desapareceu. Aqueles homens insistiam em perguntar se eu conhecia Nohachon.
No instante em que ouviu aquele nome, o peito de Pung despencou. Ao lado de Nohachon ainda não havia círculo vermelho, mas uma linha fina traçada a tinta se estendia na direção das aldeias do norte.
A vovó Dong-gu estaria bem? Hwang-u teria visto a carta e a erva espiritual vermelha que ele deixou? Cinco anos haviam passado desde a queda no abismo sem fundo e, mesmo depois de voltar ao mundo lá fora, não pudera regressar à terra natal; não havia como saber o que acontecera à aldeia nesse tempo.
O anel prateado tremeu de leve na direção do norte.
— Eu vou procurar por eles.
Quando Pung se levantou, Hyeonheo pousou a mão sobre o livro de registros.
— Primeiro é preciso salvar este homem.
— O senhor não consegue neutralizar o veneno?
— Falta raiz de seollyeong. Se fores agora ao penhasco leste, podes voltar antes do sol se pôr.
Se saísse porta afora, talvez alcançasse o rastro dos mascarados. Mas, enquanto hesitava, a aura venenosa cor de tinta se espalhava para perto do coração do vendedor, e a respiração do homem se afinava como se fosse se romper a qualquer instante.
Pung cerrou os dentes e pegou o cesto de ervas.
— Vou buscar a raiz de seollyeong primeiro.
Ao disparar pela trilha coberta de neve, árvores e rochas recuaram a uma velocidade assustadora. Era um caminho que, em passo comum, levava mais de duas horas, mas Pung alcançou o penhasco leste sem que se passasse meio quarto de hora e, com a visão dos meridianos, encontrou as raízes brancas e finas escondidas sob a terra fria.
O problema estava em volta delas. Pontos pretos, pequenos como ovos de inseto, cercavam a borda da colônia feito uma faixa, e da terra úmida exalava um leve bafo de veneno. Era o rastro de alguém que havia espalhado pó venenoso com a intenção de inutilizar toda a raiz de seollyeong da montanha que servisse de antídoto.
Pung cavou fundo na terra e separou apenas as pontas de raiz que o veneno não havia tocado; a quantidade era insuficiente, mas não havia tempo para procurar outra colônia. De volta em casa, Hyeonheo misturou a raiz a vários outros ingredientes e pôs tudo a ferver, enquanto Ayeong e Pung seguraram a noite inteira o corpo convulso do vendedor.
— Ele vai sobreviver?
— Só se saberá quando atravessar a noite.
Pung olhou para a porta muitas vezes, querendo correr naquele instante até o passo da montanha, mas a cada vez que a respiração do vendedor falhava não conseguia soltar as mãos. No fim, o homem venceu a crise ao raiar do dia, e só depois que o fôlego se acalmou por igual foi que Pung partiu para o passo a noroeste.
Graças à neve da véspera, não foi difícil achar as pegadas: eram três ao todo; uma arrastava o pé direito e outra afundava, como se carregasse uma carga pesada. Mas o rastro atravessava a floresta e se interrompia diante de um precipício, e ali restavam apenas algumas gotas de sangue seco e pedaços de papel queimado.
Pung ampliou a visão dos meridianos: enxergou raízes de árvores, animais em hibernação e até o fio de água que corria sob as rochas, mas não havia sinal de gente. Desde o instante em que deixaram o vendedor escapar, aqueles homens haviam previsto a chegada de um perseguidor e apagado os rastros.
Se tivesse sido um pouco mais rápido, talvez os tivesse alcançado.
Ao descer até o pé do precipício, Pung encontrou uma placa de madeira meio encravada numa fenda da rocha: na frente estava riscado o desenho estranho de um lobo negro, e no verso vinha gravado o número ‘dezessete’.
Quando voltou para casa e estendeu a placa, o rosto de Hyeonheo endureceu.
— O senhor conhece este objeto?
— Não tenho certeza.
Hyeonheo copiou o desenho no papel; o movimento das mãos era sereno, mas havia tinta demais na ponta do pincel, e o último traço se espalhou em negro.
— Se eu for atrás deles agora, não poderia alcançá-los?
— Pretendes correr para o norte sem sequer saber para onde foram?
— Se ficarmos parados, não se sabe o que pode acontecer em Nohachon. Se eu os tivesse perseguido desde o início, teria encontrado mais pistas do que uma placa de madeira.
— E, se tivesses feito isso, aquele homem poderia estar morto.
Pung calou-se. O alívio de ter salvado o vendedor cedia sempre lugar à inquietação de ter perdido os mascarados, e, se eles rumassem para sua terra natal, talvez fosse o povo de Nohachon a pagar o preço daquela escolha.
— No mundo marcial, escolhas o que escolheres, sempre se perde alguma coisa.
Hyeonheo pousou a placa de madeira e olhou Pung bem nos olhos.
— Não se escolhe porque existe uma resposta certa. Na maioria das vezes, só se pode dar um passo depois de assumir o que se vai proteger e o que se vai perder por causa disso.
— Da próxima vez, não perderei nenhum dos dois.
— Para isso, precisas antes largar o hábito de querer fazer tudo sozinho.
— Se os meus pés fossem um pouco mais rápidos…
— Um dia aparecerá um inimigo mais rápido que teus pés. E também surgirá quem engane teus olhos.
Hyeonheo empurrou o livro de registros e a placa de madeira para diante de Pung.
— E se, enquanto colhias a raiz de seollyeong, alguém tivesse perseguido os mascarados? E se tivesses confiado o rastro a Ayeong e fosses tu a buscar as ervas? Não é derrota apenas deixar escapar por falta de força. Também é derrota ficar sem poder agir por querer carregar tudo sozinho.
Aquelas palavras ficaram muito tempo no peito de Pung.
Depois que o vendedor partiu, Pung deixou lado a lado, junto ao lugar de treino, a xícara rachada e a placa de madeira. Sempre que escoava a força que o corpo fazia explodir, conferia primeiro a rachadura da xícara; e, ao sair pelas trilhas da montanha, antes de julgar sozinho, perguntava o que Hyeonheo e Ayeong tinham visto.
Os três acrescentavam ao mapa a data e o lugar de cada notícia de desaparecimento que chegava por herboristas e mascates. Pung percorria pessoalmente as antigas estradas interditadas e as rotas de transporte de ervas, Ayeong reunia as conversas dos comerciantes que iam e vinham do mercado, e Hyeonheo vasculhava os velhos emblemas do mundo marcial e as linhagens dos venenos. Até as estações mudarem duas vezes e o vento frio voltar a soprar na crista da montanha, nenhuma resposta clara apareceu; ainda assim, os pontos dispersos foram revelando, pouco a pouco, o formato de um caminho que rumava para o norte.
Nesse tempo, a força de Pung também mudou. Mesmo lendo de antemão a intenção de matar, a força só se manifestava na direção que Pung determinava, e o anel prateado continuava apontando para o norte. Acima de tudo, em vez de disparar sozinho à frente, Pung aprendeu a ajustar o passo ao dos outros dois.
Certo dia, quando o último outono se aprofundava, Ayeong voltou do mercado ao pé da montanha e abriu a porta do quarto sem conseguir recuperar o fôlego, com uma folha de papel amassada na mão.
— Dizem que desapareceram pessoas em Nohachon.
Pung levantou-se de um salto.
— Quem?
— Só os confirmados já são quatro. E os dois que sumiram abaixo de Baegunryeong há alguns dias estavam a caminho de Nohachon para vender ervas.
No papel estavam anotadas as datas e os lugares dos desaparecimentos. No instante em que viu os quatro pontos marcados sob o nome de Nohachon, as pontas dos dedos de Pung esfriaram, e os rostos da vovó Dong-gu e de Hwang-u vieram à mente, um após o outro.
Pung abriu o mapa e assinalou os novos lugares. Vistos só pelas estradas principais, não seguiam regra alguma; mas, ao ligar as linhas pelas encostas de ervas e pelas antigas estradas, os pontos de Nohachon e do vale ao sul de Baegunryeong se uniram numa única rota de transporte. Sua extremidade apontava para o norte, igual à linha de tinta traçada no livro do vendedor de remédios.
— Hyeonheo.
Pung girou o mapa para mostrá-lo e apontou a linha.
— Eles não estão descendo do norte. Estão juntando pessoas aqui e levando-as para o norte.
Hyeonheo examinou o mapa e a placa de madeira alternadamente e, ao somar os desaparecidos desta vez aos registros reunidos até então, o número deu, por coincidência, dezessete.
— Talvez esta placa fosse uma marca para contar pessoas.
O anel prateado tremeu mais forte do que nunca.
— Eu descerei a montanha.
Aquelas palavras não saltaram como um impulso: Pung só abriu a boca depois de calcular por onde começar a busca e a quem pedir ajuda.
— Primeiro procurarei os sobreviventes de Nohachon e confirmarei os lugares dos desaparecimentos. Quanto ao livro e ao emblema da placa, é melhor investigar pelo lado do mundo marcial do que pelas autoridades. Não irei sozinho.
Um breve brilho passou pelos olhos de Hyeonheo. Do fundo do armário ele tirou uma caixa de madeira há muito guardada e pôs sobre a mesa um emblema de identificação gasto. Na superfície apagada ainda restava o nome ‘Aliança Marcial’.
— Eu vou junto.
— O senhor também?
— Se este emblema for o mesmo que conheço, a coisa não termina só em Nohachon.
Ayeong também se aproximou da mesa e apertou o canto do mapa.
— Eu também vou.
— Pode ser perigoso.
— Já esqueceu aquilo de largar o hábito de querer fazer tudo sozinho?
Pung calou-se; não era uma observação errada.
— Ao amanhecer, começamos os preparativos para descer a montanha.
Hyeonheo apontou, um após o outro, a antiga estrada do oeste e o mercado.
— Antes de entrar direto em Nohachon, examinamos estes dois lugares. Se eles escolhem e transportam pessoas, restará algum rastro. Preparai esta noite o que for preciso.
Ao sair no meio da arrumação da bagagem, Pung parou sob o beiral e olhou a encosta norte; quando o vento frio entrou pela gola, a porta se abriu às suas costas, e Ayeong lhe estendeu um casaco grosso.
— Vai ficar de pé a noite toda de novo?
— Só queria tomar um pouco de ar.
— Toda vez diz que é só um instante e fica até o amanhecer. Se pegar um resfriado, vou ter que carregar você nas costas montanha abaixo, então vista isso.
Pung aceitou o casaco sem resistir e o vestiu. Da gola vinha cheiro de capim bem seco ao sol, e Ayeong, embora tenha se virado primeiro, não fechou a porta enquanto Pung não veio atrás.
Ao entrar no quarto aquecido, viu três cantis ao lado das mochilas. Num deles estava amarrado o nó velho que Hyeonheo sempre usa, noutro o fio vermelho de que Ayeong gosta, e o último não tinha marca alguma. Em compensação, embaixo dele estava o antigo cesto de ervas de Pung, firmemente costurado com tiras de couro novas.
Pung pôs o próprio cantil lado a lado com os outros dois e amarrou-os juntos com uma corda, para que não tombassem.
Ao cruzar a soleira, parou de repente.
Pela fresta da porta do quarto de Ayeong, viam-se lado a lado um mapa do norte, uma espada curta já limpa e afiada, e uma mochila que parecia esperar havia muito tempo o dia da partida.
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