O Deus do Aço, o Ferreiro Kang Mujin

Capítulo 4 — O Desafio de Stonebeam

Doria Stonebeam não apressou a resposta e correu os olhos pela bancada. Examinou, um após o outro, a profundidade da fornalha, as quinas da bigorna, o desgaste do couro do fole; e quando ia pegar o martelo que Kang Mujin usava, parou diante do cabo.

Não se põe a mão no martelo alheio.

Aquela única pausa bastou para Kang Mujin saber com que tipo de gente lidava.

Na barba de Doria, que lhe descia até a cintura, havia quatro argolas de metal. Cobre e prata, depois ferro negro com desenhos gravados, e na mais baixa pendia um brasão de martelo cruzado com uma viga. A barba estava trançada com esmero, sem sinal de um só fio cortado.

Era como se ele guardasse uma forja inteira dentro do corpo pequeno.

— O que devo martelar?

Diante da pergunta de Kang Mujin, as sobrancelhas de Doria estremeceram.

— Medo você não tem.

— É preciso medo para bater em ferro?

— Hunf.

Doria soltou pelo nariz um sopro pesado. Não era raiva: era a cara de quem mastiga uma frase que ficou entalada.

Ele ergueu a relha de arado que estava sobre a bancada. Era peça com a marca de Kang Mujin. De tanto revolver terra, a superfície se riscara, mas a junta não abrira e a ponta se gastara por igual.

— Esta peça chegou ao outro lado da montanha. Um mercador humano andou apregoando que ela dura duas estações a mais que o arado dos Stonebeam.

Doria raspou a lateral da lâmina com a unha grossa.

— Soldou aço fino a um corpo tenaz. O ângulo que empurra a terra também não é ruim. É trabalho de quem sabe que cada campo tem sua terra.

Soava como elogio, mas o queixo dele estava duro.

— Só que os humanos andam dizendo o seguinte: que agora dá para conseguir bom ferro mesmo sem anão.

Lá fora a ferraria ficou agitada, e pelas frestas da porta aberta os moradores da aldeia espicharam o rosto. Os dois anões que vieram com Doria também estavam de braços cruzados; ambos carregavam martelos às costas, mas, desde que entraram na forja, não deram mais um passo à frente.

Doria olhou Kang Mujin bem de frente.

— O ferro é a raiz de nós, anões. A casa Stonebeam guarda as forjas da cordilheira há sete gerações. Em cada pedra de chaminé, em cada base de bigorna ficou a marca do martelo dos nossos antepassados.

Ele segurou o brasão na ponta da barba e prosseguiu.

— Não posso deixar que um humano errante empilhe boatos sobre esse nome.

Kang Mujin olhou os riscos da relha. À ferramenta de lavoura basta revolver a terra; à lâmina, proteger alguém; ao prego, sustentar a casa. A raça de quem fabricou não acrescentava nada ao uso.

Ainda assim, o que Doria defendia não era só um nome vazio. Havia queimaduras antigas em cada nó dos dedos, e sob o polegar direito calos em camadas, abertos pelo atrito do cabo do martelo. Aquelas mãos provavam as palavras dele melhor que qualquer armadura vistosa.

Kang Mujin perguntou:

— Onde vamos fazer isso?

O canto da boca de Doria subiu.

— Na nossa forja.

— Está bem.

— Não vai nem ouvir as condições?

— Diga.

Doria estendeu dois dedos.

— Mesmo minério, mesmo carvão, mesmo tempo. Cada um forja uma lâmina. Nada de ornamento. Magia também é proibida. Decide a disputa o fio, o veio e o equilíbrio da lâmina pronta.

Kang Mujin pensou um instante. Nem ele sabia se a bênção do ferro era magia ou não, mas era sem dúvida um poder de sentir e mover o metal. Competir escondendo aquilo não seria justo.

— Eu consigo sentir o estado do ferro.

Os olhos de Doria se estreitaram.

— Qualquer ferreiro sente.

— Mais a fundo que isso.

Kang Mujin tirou um fragmento de ferro do cesto sob a bancada, pôs na palma e dobrou os dedos.

O ferro frio tremeu de leve, a poeira de ferrugem se soltou da superfície e o pedaço, do tamanho de uma cabeça de prego, subiu devagar. Quando os que espiavam à porta prenderam a respiração, as mãos dos anões que vieram com Doria foram para os martelos às costas. Só Doria não se moveu.

O fragmento deu meia volta e pousou na palma de Kang Mujin.

— Também consigo manejá-lo assim.

Doria encarou o pedaço de ferro por um bom tempo e perguntou:

— Pretende forjar a lâmina com esse poder?

— Se me disser para não usar, não uso.

— E o sentido que enxerga o interior do ferro?

— Fecho o quanto for possível.

As argolas da barba de Doria bateram umas nas outras com um som grave. A cada vez que pensava, ele alisava a barba uma vez.

— Não.

Doria disse:

— Use tudo.

Do lado de fora, um dos anões gritou, assustado:

— Doria!

— Não se meta diante da forja!

Ao brado de Doria, o anão calou-se na hora.

Ele voltou a olhar Kang Mujin.

— Quem tem martelo pesado usa martelo pesado. Quem nasceu com bons olhos não os arranca para competir. Use tudo o que você tem. Eu também vou usar tudo o que os Stonebeam acumularam.

Kang Mujin assentiu.

— Assim farei.

Doria riu, mostrando os dentes.

— Daqui a três dias. Procure a chaminé ao sul da Montanha Cinzenta. Se fugir, compro todas as peças com a sua marca e derreto uma a uma.

— Não vou fugir.

— Hunf. Vamos ver se essa palavra é dura como ferro.

Doria enfiou a relha debaixo do braço e se virou, mas parou uma vez antes de cruzar a porta.

— Esse martelo.

O olhar dele pousou no martelo curto que Kang Mujin fizera com as próprias mãos.

— Foi você que fez?

— Fui.

— Puxou o centro para trás.

— É coisa de bater por muito tempo.

Doria não respondeu, mas deixou a ferraria com passos mais lentos que os de pouco antes.

Três dias depois, Kang Mujin chegou à Montanha Cinzenta.

A aldeia dos anões, encravada na meia-encosta, já se anunciava de longe pela fumaça. Entre as chaminés que se erguiam de cada casa de pedra, fagulhas vermelhas se espalhavam como estrelas mesmo à luz do dia, e as ruas tinham sido alargadas e aplainadas para que as rodas das carroças não atolassem. As tampas dos canais, os corrimãos e até as maçanetas eram de ferro.

Não havia muito ornamento, mas onde quer que se pusesse a mão nada estava frouxo.

Kang Mujin afrouxou o passo. Os pregos da ponte tinham a cabeça arredondada para não corroerem na correnteza; as rodas dos vagonetes traziam um sulco para que só o aro gasto fosse trocado. Os grampos de ferro que uniam os muros de pedra guardavam uma pequena folga para aguentar os tremores de terra.

Via-se ali o tempo acumulado.

A forja dos Stonebeam ficava no ponto mais fundo da aldeia, dentro de uma ferraria enorme escavada direto na rocha da montanha. Eram três chaminés, e os foles ligados à roda-d'água soltavam o ar em intervalos regulares.

Tum. Fuuu.

Tum. Fuuu.

Parecia um gigante respirando debaixo da terra.

Diante da ferraria os anões se amontoavam em camadas. As crianças montavam nos ombros dos adultos; os anões mais velhos, com as argolas da casa na barba, tomaram lugar nos bancos de pedra. De humano, só havia Kang Mujin.

Quando ele entrou, dezenas de pares de olhos o acompanharam de uma vez.

Doria já tinha terminado os preparativos. De pé entre as duas fornalhas, apertava as tiras do avental de couro; a barba longa e trançada fora enrolada sobre o peito e envolvida numa malha de ferro para não alcançar o fogo. Cortá-la seria simples, mas para ele isso nem parecia ser uma opção.

Doria olhou a bolsa de Kang Mujin.

— Ferramenta pessoal é permitida. Só martelo e tenaz.

Kang Mujin abriu a bolsa e mostrou dois martelos curtos, a tenaz, a lima e a pedra de amolar. Doria conferiu um por um, sem tocar em nada.

— Começamos pelo minério.

No centro da forja havia uma pilha de minério de ferro tirado da mesma mina. Limonita avermelhada misturada com magnetita negra; à primeira vista estava dividida por igual, mas a quantidade de ferro e as impurezas variavam de pedra para pedra.

— O senhor não disse mesmo minério?

Diante da pergunta de Kang Mujin, os olhos de Doria brilharam.

— Mesma pilha.

— Quer dizer que o olho para escolher também é ofício.

— Você entende do gosto do ferro!

Doria riu batendo no joelho, e os dois se sentaram ao mesmo tempo diante da pilha.

Doria pegava uma pedra, avaliava o peso, quebrava uma quina e examinava o brilho interno. Encostava a ponta da língua, batia com um martelinho e escutava a ressonância, tudo sem um gesto de hesitação. Eram escolhas de quem lidou a vida inteira com a pedra saída das minas dos Stonebeam.

Kang Mujin aproximou a palma da pilha.

Quando a presença do ferro se infiltrou pelas linhas da mão, cada minério revelou uma pulsação diferente. Em uns, o ferro se espalhava por igual; em outros, um núcleo negro se apertava só no centro. Das pedras com enxofre subia uma sensação pontuda como agulha, e as de muito silício eram surdas e ressecadas.

Ele não escolheu apenas as de maior pureza. Uma lâmina precisa de fio duro e de corpo que aguente, então separou o ferro que aceitaria carbono e o ferro cujo veio não se romperia depois de muitas dobras. O metal brando demais servia bem para o corpo, mas custava a firmar o fio.

Quando Kang Mujin separou sete blocos, Doria já tinha escolhido nove.

Os olhos de Doria correram sobre a parte dele.

— É pouco.

— A escória também será pouca.

— Fale depois de terminar.

— Assim farei.

Começou a fundição.

Doria empilhou carvão do mesmo tamanho em camadas e concentrou o fogo num ponto só; Kang Mujin repartiu o vento da roda-d'água e igualou a temperatura da fornalha inteira. Quase ao mesmo tempo saiu o ferro esponjoso, vermelho.

Clangue! Clangue!

O martelo pesado de Doria cobria sempre, sem falhar, metade da marca anterior. Kang Mujin, com o martelo pequeno, abria caminho para as impurezas escoarem e apertava a face de solda em ondas.

— Fazendo truquezinho!

— É coisa que serve.

— Fale depois que colar!

A primeira vantagem se decidiu na têmpera. A lâmina de Doria soou curta e clara; na de Kang Mujin surgiu uma linha tênue onde o fio duro encostava no dorso tenaz. Doria tomou aquilo por empeno e riu, mas Kang Mujin não explicou: puxou a pedra de amolar. A disputa não terminaria em palavras, e sim na bancada de prova.

Quando o sol pendeu abaixo da linha da serra, as duas lâminas estavam prontas.

A lâmina de Doria era curta e larga. O peso crescia em direção à ponta, boa para partir armadura ou osso grosso, e entre o punho e o fio havia apenas um ressalto baixo para a mão não escorregar. Nem brasão da casa, nem pedra preciosa.

A lâmina de Kang Mujin era longa e sóbria. De um lado o fio era fino, o dorso era grosso, e o cabo ainda não tinha sequer o couro enrolado. Nada que se pudesse chamar de ornamento.

Perto do punho, Kang Mujin gravou sua marca com um cinzel pequeno.

Uma linha quebrada duas vezes e um traço curto no meio.

Toc. Toc. Toc.

Ouvindo aquele som, Doria estampou na base da própria lâmina o brasão dos Stonebeam, o martelo cruzado com a viga.

Quando os dois puseram as lâminas prontas lado a lado sobre a bigorna, a ferraria silenciou.

Os três anões velhos encarregados do julgamento se levantaram dos bancos de pedra. Os três tinham barbas que desciam abaixo dos joelhos e traziam nas mãos lentes de aumento gastas e pequenos martelos de prova.

O que estava à frente disse:

— Primeiro, olhamos. Depois, o som. Em seguida, testamos a flexão e o fio.

Doria cruzou os braços.

— Se quebrar, não vou reclamar.

Kang Mujin também assentiu.

— Uma peça só se conhece usando.

O anão velho pegou primeiro a lâmina de Doria. A lente percorreu o fio, e o martelo de prova bateu em sequência no dorso, no gume e na parte perto do punho. Cada ponto devolveu um som claro, em altura diferente, e os juízes se entreolharam sem dizer nada.

Em seguida veio a lâmina de Kang Mujin.

O primeiro anão franziu as sobrancelhas no instante em que a ergueu; o segundo ficou muito tempo imóvel, com a lente encostada. Enquanto o terceiro raspava com a unha a linha tênue que surgia entre o fio e o dorso, os braços cruzados de Doria se soltaram devagar.

— O que foi?

O juiz não respondeu e bateu na lâmina de Kang Mujin com o martelo de prova.

Tim.

Uma ressonância clara subiu até o teto da ferraria.

Bateu de novo, agora no dorso.

Tum.

Desta vez o som saiu grave e tenaz.

Quando uma única lâmina devolveu duas ressonâncias, como se fossem dois ferros diferentes, Doria deu um passo à frente da bigorna.

A teimosia ardente do começo tinha sumido dos olhos dele. No lugar surgiu a expressão que um artesão faz diante da fornalha quando o ferro dá uma cor que ele não esperava.

Ainda faltavam os testes de flexão e de fio, e o vencedor não estava decidido. Mas, no instante em que a lâmina de Kang Mujin soou de duas maneiras, Doria, que desde o início nunca duvidara da própria vitória, foi o primeiro a se calar.

Sem conseguir tirar os olhos da lâmina, ele murmurou bem baixo:

— Aquele veio……

Fim do capítulo 4

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