Deus Marcial

Capítulo 1 — O abismo sem fundo

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Nos arredores de um vilarejo isolado no campo, um menino subia por uma trilha de montanha onde a névoa da manhã ainda não havia se dissipado por completo. Nas costas, levava um velho cesto de ervas medicinais; à cintura, uma pequena enxada, gasta pelo uso, balançava a cada passo.

O menino se chamava Pung. Seu sobrenome era Dan, escrito com o ideograma 單: Danpung. Mas os moradores do vilarejo o chamavam apenas de Pung, com carinho.

Pouco depois de Pung nascer, seu pai saíra para vender mercadorias em outro vilarejo e perdera a vida nas mãos de bandidos. Sozinha, a mãe aceitara os trabalhos mais penosos para criá-lo. Mas talvez aqueles anos de dureza lhe tivessem corroído o corpo: acabou adoecendo e ficando de cama. Não demorou muito para que também deixasse Pung.

Não havia um único parente que pudesse acolher o pequeno. Para ele, conseguir a próxima refeição era uma luta diária. Mesmo assim, Pung raramente perdia o sorriso. Ainda guardava com todo o cuidado, num canto do coração, as palavras da mãe: “A boa sorte habita um rosto sorridente.”

Quem prontamente lhe estendera a mão fora o senhor Hwang-u, dono de uma loja de ervas medicinais na entrada do vilarejo.

— Pung, vai para a montanha de novo hoje?

Hwang-u, que varria a frente da loja, interrompeu o trabalho e chamou o menino. Um sorriso bondoso lhe iluminava o rosto enrugado.

— Sim, senhor Hwang-u! Ontem, quando estava descendo, vi um monte de ervas num lugar. Hehe.

— Está bem, está bem. Mas tome sempre cuidado na subida e, por enquanto, não vá alto demais. E não se esqueça de voltar antes de ficar tarde. Entendeu?

— Sim, vou tomar cuidado. Obrigado por tudo!

Pung inclinou a cabeça numa reverência e voltou a seguir, com passos leves, pela trilha da montanha.

Desde quando a mãe de Pung ainda era viva, Hwang-u nunca poupara esforços para ajudá-los no que podia. Havia poucas coisas que um menino tão pequeno conseguisse fazer, mas Hwang-u lhe mostrara quais ervas eram fáceis de colher nas encostas mais baixas. Ensinara com paciência a reconhecer suas formas, para que serviam e até os cuidados necessários ao arrancá-las. Graças a isso, apesar da pouca idade, Pung conseguia ao menos se alimentar.

Isso não queria dizer que ele apenas recebesse. Das ervas que colhia, levava sempre as mais intactas primeiro à loja de Hwang-u. E, nos dias de muito trabalho, arregaçava a manga sem que ninguém precisasse pedir. Os moradores costumavam elogiá-lo: podia não ter tido sorte com os pais, mas tinha um coração delicado como a seda.

Naquela manhã, os passos de Pung estavam especialmente leves. Tudo por causa das ervas que avistara na descida do dia anterior.

— Se eu colher tudo aquilo, vou passar uns dias sem me preocupar com a fome. Hehe, vamos logo.

Pung subia sem descanso, cantarolando. O lugar ficava um pouco mais adentro da mata do que costumava ir, mas a vontade de colher aquelas ervas grandes mal o deixava parar.

Quanto mais subia, menos sinais de gente encontrava, e mais densa ficava a floresta. Se sua mãe ainda estivesse viva, teria feito de tudo para impedi-lo de entrar tão fundo. Mas, para Pung, uma raiz de erva significava um dia de comida. A fome estava sempre um passo à frente do medo.

Por fim, ao chegar ao lugar que avistara no dia anterior, Pung soltou um grito de alegria por dentro.

— Eu sabia que não tinha visto errado. Acho que vão pagar bem por estas aqui!

Eram ervas que ele só conhecia dos livros. Nunca as encontrara de verdade. Com as mãos agitadas de entusiasmo, mas ainda assim cuidadosas, Pung começou a colhê-las.

Para conseguir um bom preço, era preciso tirar as ervas da terra limpas e sem ferimentos. Quanto mais raras e caras, maior o cuidado. Seguindo o que Hwang-u lhe ensinara, Pung afastava a terra delicadamente para não machucar as raízes. Uma raiz, depois outra. À medida que o cesto se enchia, seu sorriso também crescia.

Quanto tempo teria passado assim? De repente, uma erva muito peculiar lhe chamou a atenção. Diferente das demais, tinha uma única flor que erguia a cabeça, firme e altiva. Sua cor era tão bela que, mesmo entre as plantas à sombra, parecia brilhar sozinha.

— Oooh… Essa eu também nunca vi. Parece valer um dinheirão.

Como se estivesse enfeitiçado, Pung se aproximou. De perto, a flor era ainda mais fascinante. Por algum motivo, parecia chamá-lo em silêncio. Sem perceber, ele estendeu a mão e acariciou de leve suas pétalas.

Foi naquele instante. O chão sob seus pés soltou um estrondo surdo — e o lugar onde Pung estava desabou por inteiro.

— Aaaaaah!

Nem o grito conseguiu prolongar. Seu corpo despencou direto para a escuridão absoluta. Tateava ao redor, mas não havia nada a que se agarrar. Apenas o vento passava por seus ouvidos, como se fosse rasgá-los.

Já caía havia algum tempo quando olhou para cima e percebeu algo estranho. Se o chão cedera, a luz do céu deveria entrar pela abertura. Mas a entrada do buraco por onde despencara estava, àquela altura, inteiramente coberta de terra. Como se alguém a tivesse fechado de propósito.

Um arrepio lhe percorreu a espinha. Mas, antes que pudesse pensar no mistério, continuou caindo, cada vez mais fundo, sem fim. A escuridão era profunda, e a queda, longa.

Pung teve sorte. Ao fim daquela queda interminável, não o esperava um piso duro, mas uma poça tão funda quanto um poço. Seu corpo mergulhou nela com um grande estrondo de água.

O ar lhe faltou. Depois de muito se debater, conseguiu enfim pôr a cabeça para fora e puxou o ar em golfadas. Escapara por um triz da morte. Por sorte ou azar, a flor valiosa também devia ter caído: flutuava ali ao seu lado.

— …Estou vivo. O que foi que aconteceu?

Pung tratou primeiro de pegar a flor e, com muito esforço, se arrastou para fora da água. Tudo ao redor estava mergulhado no breu, mas, à medida que seus olhos se acostumavam à escuridão, contornos vagos começaram a surgir.

Por alguma razão, ao lado da poça havia uma passagem estreita, por onde mal cabia uma pessoa. As paredes de pedra eram lisas demais para que aquilo tivesse se formado naturalmente. Pung tornou a olhar para o lugar de onde caíra, mas só tentar calcular a altura já lhe dava vertigem. Não havia como escalar de volta.

— Já que não posso subir… Se seguir por aqui, devo acabar saindo em algum lugar.

Esforçando-se para dominar o medo, Pung avançou com cuidado pela passagem. Apenas o som de seus próprios passos ecoava, nítido, na escuridão vazia. A cada passo, repetia em pensamento as palavras que a mãe lhe ensinara. A boa sorte habita um rosto sorridente. Embora, naquele momento, fosse incapaz de sorrir.

Por quanto tempo teria caminhado? De repente, a passagem estreita se abriu, revelando uma câmara bastante ampla. E, ali, Pung estacou.

No centro da câmara vazia, um conjunto de roupas limpas estava arrumado com cuidado, como se alguém acabasse de tirá-las. À frente, dois anéis e um livro do tamanho da palma da mão repousavam lado a lado. Não havia um grão de poeira sobre eles. Parecia que alguém estivera ali até instantes antes.

— Tinha… alguém aqui? Mas para onde essa pessoa foi?

Um frio involuntário lhe percorreu a espinha. Só as roupas e os objetos tinham ficado, abandonados. Do dono, não havia sinal algum. Naquelas profundezas, onde alguém poderia desaparecer depois de simplesmente tirar a roupa?

Mas a curiosidade foi um passo mais rápida que o medo. Depois de hesitar bastante, Pung se aproximou com cuidado e pegou primeiro o livro. Na primeira página, desbotada, havia uma mensagem escrita em letras caprichadas.

Deixo neste lugar a fonte do poder que possuí. Seja qual for o teu desejo, terás meios de realizá-lo; se assim quiseres, poderás até contemplar o mundo inteiro do alto. Meu anseio, porém, era conquistar tudo e, mais do que governar o mundo — ser mais livre do que qualquer outro.

Mesmo depois de ler, Pung não compreendeu nem metade do que aquilo queria dizer.

— A fonte do poder? Será que este anel… vale tanto assim?

Inclinou a cabeça, intrigado, e virou a página. Na seguinte, havia mais uma breve anotação.

Colocar o anel dourado no indicador da mão esquerda e o anel prateado no indicador da mão direita.

— Ué, ainda teve a gentileza de explicar como usar. …Será que eu experimento?

Na verdade, a cabeça de Pung não estava ocupada com nada grandioso como “poder”. Só pensava que, se levasse aqueles anéis de aparência valiosa para vender no vilarejo, poderia passar algum tempo sem precisar colher ervas. Incapaz de resistir à curiosidade, colocou os anéis conforme as instruções do livro. O dourado no indicador esquerdo, o prateado no direito.

Foi no exato instante em que os dois anéis se acomodaram em suas mãos. O corpo inteiro de Pung enrijeceu como pedra. Ele não conseguia mover um dedo. Tentou gritar, mas sua boca não se abria.

Então, da pedra do anel dourado em sua mão esquerda, irrompeu um clarão cortante. No instante seguinte, uma dor terrível atravessou seu corpo inteiro.

Das pontas dos dedos aos pulsos, aos ombros, à espinha… Cada articulação se retorcia numa agonia que parecia arrancá-lo em pedaços e montá-lo de novo. Pung queria berrar, mas sua boca continuava fechada. Só lhe restava engolir gritos silenciosos por dentro.

‘So… socorro…’

Antes mesmo de terminar o apelo, perdeu a consciência.

Mesmo desmaiado, porém, seu corpo não ficou imóvel. Como se mãos invisíveis moldassem seus ossos e sua carne, articulações e músculos se torciam e se rearranjavam sem parar, entre estalos secos. Só muito tempo depois aquela convulsão terrível começou a ceder.

Logo em seguida, foi a vez do anel prateado na mão direita emitir luz. Por fora, tudo parecia tranquilo. Mas não demorou para que um suor negro começasse a escorrer de todos os poros de Pung. Um fedor nauseante encheu a câmara confinada.

Era como se todas as impurezas acumuladas em seu corpo estivessem sendo lavadas de uma só vez. Embora ele não soubesse o nome daquilo, naquele dia seu corpo já deixava para trás a condição de uma pessoa comum. A transformação dos ossos e da carne — a metamorfose que tantos guerreiros do mundo marcial ansiavam por alcançar a vida inteira, sem jamais consegui-la — se completava silenciosamente dentro de um menino.

Só depois de passar muito tempo vertendo aquele suor negro o corpo de Pung enfim sossegou. O rosto antes contorcido de dor estava sereno, e até a respiração se tornara suave e regular.

Quanto tempo teria passado? Pung abriu os olhos devagar.

— Urgh… O que aconteceu? Argh! Que cheiro de podre é esse?

O suor negro que escorrera havia secado e formado crostas ao seu redor. Pung não fazia ideia do que acontecera com seu corpo. Sabia apenas que estava leve como uma pena e que cada veio das paredes de pedra, mesmo no escuro, era tão nítido que parecia ao alcance da mão. Seu coração estava tranquilo, mas naquela quietude repousava uma força capaz de empurrar uma montanha.

Decidiu que primeiro precisava ao menos lavar aquele fedor. Mas, no instante em que tentou se levantar, os anéis das duas mãos voltaram a brilhar ao mesmo tempo.

Seu corpo tornou a se sentar contra sua vontade, cruzou as pernas em posição de lótus, endireitou as costas e fechou os olhos. Por sorte, ao menos a boca parecia continuar livre.

— Mas o que é isso?! Uuugh… Meu corpo, meu corpo não se mexe! Por que estou sentando do nada? E por que meus olhos estão fechando?!

Seus esforços, porém, não adiantaram nada. Logo, no dantian, abaixo do umbigo, começou a brotar lentamente uma energia morna e estranha, diferente de tudo o que já sentira.

Pung não sabia o nome daquela energia. Mas, a cada vez que o fio de calor nascido abaixo do umbigo circulava por seu corpo, o menino se tornava um pouco mais resistente. Um treinamento longo e implacável estava começando. Ao mesmo tempo, despertava um poder que ainda era cedo demais para ser solto no mundo.

Indiferente à resistência de Pung, a energia que brotara do dantian começou a se mover por conta própria. O que antes parecia um fio tênue logo se avolumou como um rio, e seu pequeno corpo acolheu aquela corrente impetuosa com uma naturalidade estranha.

Partindo do dantian, a energia desconhecida percorreu lentamente um circuito pelos pontos de acupuntura do corpo inteiro. Quando encontrava uma via bloqueada, empurrava com suavidade até abri-la; quando encontrava uma estreita, alargava-a em silêncio. Mesmo sem compreender o que acontecia, Pung sentia por instinto que aquele fluxo estava mudando algo dentro dele desde a raiz.

Depois de completar uma volta, a energia percorreu de novo o mesmo caminho. Na segunda, já estava muito mais encorpada; na terceira, puxou até a respiração e os batimentos de Pung para dentro de seu ritmo. Ao chegar a uma passagem obstruída, parou por um instante. Então avançou com serenidade, como uma mão que abre uma porta fechada há muito tempo.

A energia continuou pressionando, como se alargasse o caminho, até finalmente romper alguma coisa e voltar a fluir. Em cada um desses lugares surgia uma dor que parecia rasgar a carne. Mas, depois que a dor passava, restava uma via muito mais límpida e firme do que antes. Pung cerrou os dentes e resistiu. Enquanto suportava aquilo, seu corpo ultrapassava o de um guerreiro e se tornava um receptáculo monstruoso.

Depois de percorrer o corpo inteiro, a energia passou pelo peito, pelo pescoço e subiu até o alto da cabeça. Então retornou ao dantian e ali se assentou. Logo, forças vindas de fora começaram a penetrar em seu corpo e, pouco a pouco, se fundiram àquela energia.

Foi a partir daquele dia que começaram os estranhos dias de Pung.

Quando o anel dourado brilhava, seu corpo repetia certos movimentos contra sua vontade. Estendia a mão, firmava o pé, girava a cintura. No início, apenas os executava sem entender nada. Mas, depois de repetir os mesmos gestos milhares e milhares de vezes, começou a vislumbrar os princípios contidos em cada um deles.

Quando os movimentos terminavam, era a vez do anel prateado brilhar. Pung voltava então a se sentar em posição de lótus e fazia a energia acumulada no dantian circular por um percurso determinado. Quando a fome chegava, seu corpo saía sozinho da caverna para caçar, depois retornava e repetia a mesma rotina.

No começo, tudo aquilo lhe dava medo e uma sensação amarga de injustiça. Seu corpo fazia o que bem entendia, cumprindo tarefas que ninguém lhe pedira. Mas os anéis nunca, nem uma única vez, o colocaram em perigo. Nas caçadas, só escolhiam animais que ele certamente conseguiria abater. Ao fazer a energia circular, paravam sempre um passo antes de Pung chegar ao colapso. Graças àquele treinamento que roçava um limite tão preciso, seu corpo empurrava um pouco mais longe, a cada dia, as fronteiras do humano.

Debaixo da terra, não havia dia, noite ou estações. Pung já não conseguia contar quantos dias, ou mesmo quantos meses, tinham passado. Só podia estimar um dia caçando quando tinha fome e dormindo quando sentia sono.

No início, às vezes chorava de tristeza. Estar preso numa escuridão sem caminho de volta, sem sequer poder mandar no próprio corpo, fazia o pequeno Pung desabar repetidas vezes. Quando fechava os olhos, chamando de noite a hora de dormir, sentia uma saudade dolorosa da mãe, do senhor Hwang-u e da entrada do vilarejo aquecida pelo sol.

Mas o choro não mudava nada. Aos poucos, Pung aprendeu a resistir em vez de chorar. E então mudou de atitude. Já que estava preso, ao menos aprenderia direito aquilo que os anéis lhe mostravam. Quando enfim chegasse o dia de sair dali, não seria injusto partir de mãos vazias?

Nas profundezas da terra, onde não entrava um punhado sequer de luz, a longa, longa história de um menino — assim, acabava de dar seu primeiro passo.

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Fim do capítulo 1

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